Juiz de Fora ou a arte de cocriar com todo mundo

Quadro resumo:

O city branding só faz sentido quando nasce das pessoas. A partir da experiência em Juiz de Fora, este artigo discute por que a cocriação e o engajamento comunitário são essenciais para construir marcas-lugar autênticas e futuros compartilhados.

Processos cocriativos e colaborativos dão um trabalho danado, todo mundo sabe, talvez por isso mesmo sejam sempre substituídos por processos mais simples, impessoais, como pesquisas digitais ou até mesmo formulários online. Durante anos, eu mesmo, sempre dizia que esse (aquele) processo seria o último, e me via dias depois engajado em uma nova cocriação. O fato é que, definitivamente, difícil ou não, trabalhoso ou não, não sei mais fazer meu trabalho de outra forma que não seja com as pessoas que dão vida ao lugar.

É engraçado lembrar, com todo o intervalo de tempo que separa os eventos de quem envelhece, o título do meu trabalho de graduação: Fortalecimento do lugar através da análise do cotidiano. Lá no século passado eu já trabalhava com pessoas e lugares, ainda que não soubesse (até porque ainda não existiam) os conceitos que hoje nomeiam as expertises que defendo. Menos distante no tempo, li uma frase num congresso que dizia: Precisamos perguntar as pessoas como elas querem viver e, mais tarde, uma ainda mais simples e mais efetiva: Community is the expert. A primeira eu não lembro de quem é, e a segunda, essa tenho certeza, é do Fred Kent.

No intervalo de mais de trinta anos do meu trabalho de graduação, termos como colaboração e cocriação se tornaram moderninhos, termos da moda, que dão um verniz descolado para processos que muitas vezes não passam de uma consulta, ou, do termo que mais odeio, escuta.

 Mas voltando para o presente e para os desafios do city branding, algumas cidades são mais receptivas do que outras, algumas comunidades tem mais autoestima do que outras o que facilita a relação, outras são fechadas, ariscas ao forasteiro, desconfiadas de quem chega de fora cheio de perguntas. Por isso mesmo a abordagem não pode ser a mesma, engajar a comunidade, definitivamente, não se trata de uma solução de “tamanho único”. Afinal não foram poucas as vezes que foi prometido o mundo e entrega nunca aconteceu, uma certa descrença é um comportamento comum nas cidades brasileiras, que inevitavelmente, gera um desânimo para a colaboração com o que quer que seja.

Juiz de Fora não é uma dessas cidades. Recentemente estive em campo para o engajamento comunitário do processo de city branding da cidade e confirmei uma percepção antiga, de tantos outros projeto, privados, na cidade: aqui a gente não precisa vencer desconfiança para trabalhar, precisa só dar o primeiro passo, o resto simplesmente acontece naturalmente.

Digo isso depois de dias circulando por um centro que pode ser o mais vivo do Brasil, onde não canso de me perder pelas galerias e pela arquitetura art déco e proto-modernista que alguém teve o bom senso de não demolir, por calçadões vibrantes de pedestres, coisas que muitas cidades perderam ao longo do tempo, trocando por vidro fumê e vagas de estacionamento e ainda por cima chamando de progresso.

O método não é vitrine

A diferença entre cocriar com alguém e cocriar para inglês ver não está no discurso, está essencialmente na forma. NossaJF é um processo que não cabe em alguns dias fechado no ar-condicionado numa reunião de técnicos. O grande aprendizado acumulado com a experiência é que cada lugar tem uma dinâmica própria, e para cada dinâmica é preciso ajustar as ferramentas a serem utilizadas.

Em Juiz de Fora foram mais de uma dezena de workshops setoriais, diversos painéis de post its pela cidade, entrevistas em profundidade, pesquisa etnográfica e observacional, além de uma plataforma online onde o QRCode para participação pode ser visto em centenas de cartazes pela cidade, ônibus, serviços públicos e equipamentos culturais. Isso para falar só do olhar de dentro, em paralelo acontece a pesquisa de percepção digital e promptabilidade que analisa a percepção de quem não está especificamente na cidade. Ou seja, o olhar de fora também é importante, só que em processos de city branding ele não só não pode ser o único e, definitivamente, não é o mais importante.

O projeto do projeto

Engajamento é coisa séria, cocriação, colaboração são processos trabalhosos, porém essenciais. Outro aprendizado ao longo dos anos foi justamente entender que de tão importante, os processos de engajamento deveriam ter vida própria e por isso decidimos, acertadamente, mais de uma década atrás, batizá-los. O projeto do projeto, como brincamos internamente, tem nome, identidade visual e peso próprios, ele chega antes do city branding, é mais aberto, permissivo, permeável do que os processos cocriativos de soluções que chegam nas próximas etapas. Ele deve romper barreiras político partidárias, diluir conflitos e convergir a sociedade no sentido de uma cidade melhor.

NossaJF é um desses exemplos, ele não é o logotipo da cidade, não tem o objetivo ou a pretensão de ser. Ele é exclusivamente uma ideia que organiza a energia da comunidade para a discussão sobre a cidade que vivem, ou seja, ele não serve a uma marca estabelecida, ele a precede, inverte uma lógica estabelecida ao ser, ele mesmo, uma marca, ainda que temporária (ou não, uma vez que ele pode virar o próprio comitê gestor de marca-lugar) com objetivos claros e vida própria.

Três tempos, um argumento só

Engana-se quem imagina que esse tipo de processo produz só um retrato do presente, ainda que seja tentador tratar pesquisa de identidade como diagnóstico de agora, uma fotografia que se tira, se analisa e se arquiva, cidade nenhuma existe só no presente, carrega passado que ainda pulsa em hábito, na paisagem, na cultura, e empurra, sem perceber, futuros que já estão sendo criados (conscientemente ou não) a cada decisão. Hartog tem um nome bonito para isso, regime de historicidade, a forma como uma sociedade organiza sua relação entre o que foi, o que é e o que ainda pode vir a ser, e eu cada vez mais numa cruzada decolonial, gosto de cruzar essa ideia europeia com uma africana que aprendi não muito tempo atrás com Mbiti, Sasa e Zamani, o tempo vivido e o tempo que virou fundamento, porque uma cidade que esquece o segundo nunca vai entender direito o primeiro.

O que os dois têm em comum é a recusa de tratar futuro como linha reta, uma seta que se projeta do presente para a frente. É campo plural, construído com quem habita o lugar e não para quem habita o lugar, e a diferença entre essas duas preposições resume sozinha a distância entre planejar um futuro e explorar futuros, que é também a distância entre o urbanista que decide atrás de porta fechada e o processo que vai a campo justamente pra descobrir que não sabia tudo o que precisava saber.

É por isso que o oposto da charrette não é simplesmente esticar quatro dias em quarenta, é tratar os futuros possíveis de uma cidade como herança coletiva de quem vai viver neles.

O que está fora dos limites do mapa

A última etapa dessa imersão é avançar para Zona da Mata, e entender o que Juiz de Fora significa não só para quem mora dentro dos seus limites administrativos, mas pra quem vive ao redor dela e a escolhe, todos os dias, como referência de comércio, de saúde, educação, de vida melhor. Uma cidade se define tanto pelo que carrega por dentro quanto pelo papel que ocupa no entorno que decide olhar para ela primeiro. O que atraímos e o que repelimos ou exportamos, quais as nossas colaborações com o entorno e como ele colabora de volta, que relação dialética está dada e quais precisam ser construídas? Essas são algumas perguntas que essa nova fase pretende responder.

O que descrevi até aqui é só a imersão, a primeira etapa de um processo que tem ainda estratégia, exploração de futuros e ativação pela frente, cada uma com sua própria exigência e sua própria forma. Conto isso não para impressionar com a extensão do trabalho, mas para reforçar a importância que essa etapa tem em tudo que ela se desdobra.

Não tenho ilusão de que esse modelo vá virar padrão de mercado. É mais lento, mais caro, difícil de encaixar num slide único, e sempre haverá alguém em algum lugar preferindo a charrette só porque cabe no orçamento do trimestre.

Um dos entrevistados foi mais direto do que qualquer diretor financeiro. Disse que eu era demorado demais, complexo demais e caro demais, e que, por sorte, era louco demais na mesma medida. Foi dele a frase que fecha isso melhor do que eu: “Os loucos abrem o caminho que mais tarde os sábios percorrerão”. Que assim seja.

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Escrito por:
CAIO ESTEVES - Caio Esteves é autor de Place Branding, Cidade Antifrágil e Lugares Futuros, especialista em place branding, placemaking e futuros das cidades. Fundador da N/ Lugares Futuros, professor e palestrante, atua integrando estratégia, identidade, experiência e futuros para tornar lugares mais relevantes e à prova de futuro.