Ainda tem um pouquinho de Brasil ia ia, nisto aqui, ô ô?
Quadro resumo:
As eleições de 2026 ajudam a revelar mudanças na forma como o Brasil se enxerga e é percebido. A partir das identidades do conservador cristão e do agro, o artigo discute a transformação do imaginário brasileiro, antes fortemente associado ao samba, futebol, carnaval e à ideia de um país alegre e aberto.O primeiro turno criou a sensação — pelo menos para mim — de que o país ficou com a tampa da panela chacoalhando. Independentemente de quem está comemorando, lamentando, ou fingindo indiferença, há uma única pergunta rodeando pensamentos ou iniciando conversas em grupos de whatsapp, corridas de aplicativo e pausas pro cafezinho Brasil afora: e agora, José?
Em que pese eu esteja muito preocupado, e não vou fingir que não estou, não escrevo esse texto para manifestar preferências políticas ou endosso a candidato. Desde domingo à noite ando me perguntando o que o Brasil imagina de si mesmo, e o que o panorama geral de vencedores e perdedores desse pleito fala sobre a identidade e a imagem do país. É sobre isso que escrevo.
Longe de reivindicar uma tese sobre o assunto, me parece que as eleições de 2026 dão novos contornos a um fenômeno que, empiricamente, não é novidade para ninguém, mas que talvez agora seja possível nomear com alguma clareza: há uma nova concepção de nação em fase de consolidação, construída sob duas identidades que, contra prognósticos talvez não tão aparentes, andam lado a lado o tempo todo: o conservador cristão e o agro.
Samba de uma nota só
De acordo com o Global Soft Power Index da Brand Finance, o Brasil é o país mais associado a esportes do mundo, e o nono a “pessoas e valores”, nome técnico para dizer que somos um povo simpático. Em compensação, no quesito segurança performamos uma constrangedora 152ª colocação. Esse contraste dá uma percepção de partida muito clara sobre o que supostamente define nossa imagem: somos anfitriões de primeira, numa casa sem cadeado.
Lidamos com essa percepção conflitante desde, pelo menos, o século passado, particularmente quando a Disney apresentou ao mundo, no embalo da política de boa vizinhança de Franklin Roosevelt, o papagaio Zé Carioca, representando o malandro que gosta de trabalhar pouco e levar vantagem em tudo. Também mais ou menos nessa mesma época sofremos o profundo trauma do Maracanazzo, episódio que curiosamente foi o estopim tanto para a profecia ainda atual de Nelson Rodrigues sobre nosso complexo de vira-lata, quanto para a construção da nossa tradição esportiva, sobretudo com a redenção da derrota para o Uruguai em 1950 através da conquista da primeira Copa do Mundo, em 1958. Sem dúvida, foi o título que abriu o caminho para hoje ostentarmos um soft power aliado a essa grande paixão mundial chamada Futebol — apesar dos constantes esforços da seleção para acabar com isso, dentro de campo e fora de campo.
Daí, nossa cultura de exportação virou bossa nova e depois virou novela, ao mesmo tempo em que reforçou nossa própria identidade. Frank Sinatra cantou Garota de Ipanema em rede nacional nos EUA e Lucélia Santos virou celebridade internacional com Escrava Isaura, exibida em mais de cem países, gerando orgulho e satisfação geral para além das quatro linhas. Aqui dentro, mais da metade das novelas das oito, ao longo de mais de duas décadas, se passou no Rio, mais especificamente no Leblon, Ipanema e Copacabana. Naturalmente, o carnaval entrou na roda, com direito a sambódromo projetado por Niemeyer e aparição polêmica em um episódio dos Simpsons.
Alguém poderia, portanto, concluir que a identidade brasileira do Século 20 foi construída a partir do seu litoral e tudo que o envolve: futebol, carnaval, novela e gente feliz. Segundo Benedict Anderson, nação é exatamente isso: um monte de gente que nunca vai se conhecer carregando e comungando a mesma imagem. Mas como bem sabemos, esses parcos aspectos nunca resumiram a totalidade do que é o Brasil, e o resultado do pleito do último domingo enumera motivos para confirmar que esse samba de uma nota só ganhou novo arranjo e novos acordes.
Do pandeiro à viola, do folhetim ao salmo
No ano passado, Felipe Nunes — o cientista político popstar por trás das pesquisas da Quaest — publicou o instigante Brasil no Espelho, livro em que analisa as recentes transformações da sociedade brasileira e os reflexos dessas mudanças na política e no comportamento eleitoral. Nunes defende que o Brasil contemporâneo é composto por um mosaico de nove identidades, duas das quais interessam aqui: os conservadores cristãos e o agro.
De acordo com a pesquisa, os conservadores cristãos respondem por 27% da população e moram principalmente nas periferias das grandes cidades. Talvez o que melhor represente essa identidade seja o que vou chamar de “virada evangélica”: enquanto a população católica encolheu de 92,7% para 56,7% entre 1960 e 2022, os evangélicos alcançaram 26,9% em 2022, segundo dados do Censo. Crenças à parte, trata-se de um crescimento notadamente marcado por um trabalho de longo prazo de formação de comunidades, redes de apoio e prestação de serviços que o Estado brasileiro deixou de prestar, isso é, quando sequer chegou a prestar um dia.
A segunda identidade é o agro, que responde por 13% da população e está espalhada pelo Centro-Oeste, pelo Sul e pelo interior de São Paulo e Minas, de acordo com a pesquisa. Se por um lado há menos pessoas vivendo sob essa identidade, por outro lado sobra dinheiro e riqueza para afirmá-la como sendo central à ideia emergente de nação, afinal de contas, não é à toa que há dez anos ouvimos, diariamente, que o Agro é Tech, o Agro é Pop, o Agro é Tudo. No século passado, ninguém precisou de publicidade para avisar que o samba ou o futebol eram pops, desconfio que seja porque propaganda serve para afirmar uma ideia que o público ainda não comprou. Seja como for, deu certo: o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, que durante décadas simbolizou o matuto pobre, ignorante e preguiçoso, hoje é o patrão da soja e da pecuária. Como se diz nos rodeios por aí: a roça é hype.
Há muitas maneiras de conhecer a identidade de um lugar ou de um povo, e a análise do gosto é uma delas. Não sei se por inclinação pessoal ou herança dos anos estudando Pierre Bourdieu no doutorado, adquiri o hábito de sempre que possível inseri-la em minhas pesquisas. Foi esse hábito que fez saltar aos meus olhos outro dado interessante da pesquisa de Nunes: no que diz respeito ao gosto musical, os dois gêneros mais ouvidos do país hoje são, respectivamente sertanejo (27%) e gospel/religioso (17%). O samba, que consta no imaginário de qualquer pessoa quando se pergunta sobre cultura brasileira, detém apenas o quarto lugar (8%), atrás do forró.
Como gosto não se discute, a dobradinha funciona: o sertanejo é o gênero preferido entre os católicos e tem alta aceitação entre os evangélicos, ou seja, não tem briga na hora de escolher a música no carro ou no churrasco. Contudo, o que ambas as identidades compartilham de modo mais profundo é a tradição e o conservadorismo. Os cristãos enfatizam fé, família, ordem e obediência, enquanto o agro se afirma a partir da ligação com a terra, o modo de vida rural e os valores tradicionais.
Por isso, ambos tendem a comungar uma visão conservadora da sociedade. Não que o Brasil em algum momento tenha sido não-conservador, muito antes pelo contrário. Mas, se nosso imaginário foi forjado a partir de uma identidade e de uma imagem da rua, da calçada, da ginga e do bloco de carnaval passando, definitivamente o que está em jogo agora é a consolidação de um novo imaginário, de convivência muito menos pública e hedonista, para dizer o mínimo.
Nem só folia, nem só oração
Quando falamos de “nação”, a regra é simples: identidade é emissão, imagem é recepção. Por um bom tempo, a ideia de nação forjada sob o futebol e o samba funcionou porque identidade e imagem coincidiam, provavelmente mais por encomenda do que por consenso. Ainda assim, representando, internamente e externamente, um país cuja especialidade do seu povo é cantar e ser feliz.
Talvez o que tenha surpreendido muita gente no resultado do primeiro turno — eu, certamente, fui— é o fato de que, por muito tempo, nos acostumamos a achar que conservadorismo era sinônimo de atraso, e que fatores como urbanização e tecnologia dariam conta de “modernizar” o país, mais cedo ou mais tarde. Aconteceu o contrário: tanto nas periferias quanto no interior, foram os valores tradicionais que se adaptaram à modernização e agora pedem passagem para determinar qual é a nossa identidade e imagem.
Nada disso quer dizer que uma ideia de nação vá derrubar ou se sobrepor a outra. O samba segue no compasso e o jogo continua sendo jogado. Só que o Brasil que aprendemos a mostrar ao mundo e que continuamos usando para nos convencer de quem somos já não dá conta de explicar o Brasil para nós mesmos.
Escrito por:
EMANNUEL COSTA - Doutor em planejamento territorial, Emannuel é especialista em comportamento urbano e head de pesquisa e tendências na N/Lugares Futuros, onde pesquisa o que as cidades fazem antes de saber que estão fazendo.