Aceitei desculpas que não eram para mim 

Quadro resumo:

A partir de um atraso de delivery em uma noite de chuva em São Paulo, o texto aproxima a experiência cotidiana de um motoboy das ideias de McKenzie Wark sobre capitalismo, dados e plataformas. A reflexão explora como trabalhadores como Kleber produzem não apenas o serviço pelo qual são remunerados, mas também os dados que alimentam os sistemas e algoritmos das plataformas.

Não sei se ando muito ocupado ou simplesmente cansado de mim mesmo, mas fato é que esses dias desafiei o que especialistas chamam de Super El Niño e, me convencendo de que não havia feito janta por falta de tempo (e não por preguiça ou falta de planejamento), chamei um delivery numa noite de chuva quase torrencial.  

Kleber, o motoboy, chegou dezoito minutos atrasado. Não que eu estivesse contando, até porque estava envolto em planilhas enquanto esperava o pedido, mas me dei conta disso quando fui interrompido por uma mensagem do aplicativo avisando do atraso e recalculando a hora de entrega. Foi apenas aí que abri o mapa e calculei que Kleber já estava perto o suficiente para que eu descesse antes da portaria tocar o interfone — porque não precisa deixar o homem esperando na chuva, né? 

Como de praxe, Kleber estacionou a moto, olhou em minha direção enquanto subia o capacete até a testa e perguntou, à distância, se eu atendia pelo meu nome mesmo. Ao receber a confirmação, foi pedindo desculpas enquanto digitava o código da entrega e conferia qual dos pacotes no baú era o meu. Ele falava obviedades sobre o trânsito e sobre a chuva, na verdade, parecia se justificar mais para si mesmo do que para mim, do jeito que a gente se desculpa com o universo quando a culpa não é bem nossa, mas com a cara de quem sabe que vai levá-la mesmo assim.  

Eu, que já estava me sentindo culpado o suficiente por pedir delivery sem nenhuma necessidade e por colocar em risco a vida de pessoas como Kleber em nome do meu caos particular, tratei de neutralizar o drama ali mesmo: agradeci pelo serviço e garanti que aquele atraso não significava absolutamente nada, como se duas culpas na mesma calçada pudessem se anular. 

Meio sem graça, ele me lançou o olhar e a risada contida de quem entendeu a intenção, mas acabara de receber uma absolvição que não servia pra nada. E me deu, de troco, uma informação que eu não tinha pedido: aquele mesmo atraso ia deixá-lo uma hora sem conseguir pegar pedido novo no aplicativo. 

Ele já estava afivelando o capacete, meio de costas para mim, enquanto eu continuava parado, com o pacote esfriando na mão, tentando decidir qual das duas informações pesava mais: a desculpa, dirigida a mim, que não tinha perdido rigorosamente nada além de dezoito minutos de fome, ou a suspensão que ele acabara de tomar do aplicativo, de graça, numa noite chuvosa de São Paulo. Antes que eu chegasse a uma conclusão, Kleber partiu sem dizer mais nada, levando o giro do motor ao limite com a fé de quem acredita que cada rotação a mais desconta um minuto do bloqueio — pelo barulho, a moto entendeu tudo o que ele pensava daquele trabalho. 

Continuei pensando nisso durante a janta e até além, por uns bons quarenta minutos rolando na cama antes de pegar no sono, enquanto revisitava no Kindle as ideias da pesquisadora australiana McKenzie Wark, que em 2019 escreveu “Capital Is Dead”, obra que já no título desiste de chamar o episódio da noite com Kleber de capitalismo. Não porque o capitalismo tenha morrido de fato, mas porque — ela argumenta — quem manda nas relações de produção hoje não é mais o burguês clássico dono da fábrica. O mundo do século 21 pertence a quem organiza, distribui e entrega o que a fábrica dele produz. 

Parece complexo, mas é relativamente simples de entender: pense na Apple. Ela não fabrica o iPhone, quem faz isso é a Foxconn. O valor da Apple mora na marca, na patente, no design e no controle sobre o fluxo, nunca no aparelho em si. Wark chama quem controla empresas assim de Classe Vetorialista. Essa classe não substituiu as antigas, só as empurrou para um segundo plano:  capitalistas industriais (como a Foxconn) continuam existindo, mas agora dependem de uma nova camada, acima, que administra seu acesso ao mercado. 

Do lado oposto, porque, se o capitalismo não morreu, tampouco morreu a luta de classes, há o que Wark chama de Classe Hacker. Não é o hacker no sentido a que talvez a gente se tenha acostumado a pensar, o cara de capuz invadindo sistemas de governos ou roubando dados de conta bancária. Ela chama de hackers os profissionais que produzem as novidades informacionais que sustentam a classe vetorialista, tais como cientistas de dados, programadores, designers de experiência, dentre outros. Em suma, uma versão meio cyberpunkeada e atualizada da classe trabalhadora no contexto do vetorialismo. 

Obviamente, Kleber não é um hacker. Nem no sentido do senso comum, nem no sentido que Wark atribui. Contudo, o mecanismo que ela descreve pra explicar como a classe vetorialista extrai valor cabe no caso de Kleber com uma precisão que talvez nem ela tenha previsto que se aplicaria a um motoboy paulistano.  

Segundo Wark, o verdadeiro valor capturado pelas plataformas vetorialistas não está no serviço prestado (isto é, na entrega do meu pedido), mas no que sobra depois que o serviço acontece: a rota percorrida, o horário, o trânsito encontrado pelo caminho, tudo isso multiplicado por milhões de vezes por dia. São esses dados que constituem matéria-prima para criar modelos comportamentais e vender previsibilidade. Esse sim é o negócio, lucrativo que só. 

E tem uma parte ainda mais direta sobre isso — aliás, recomendo preparar um sal de frutas antes de continuar lendo: quem realiza a maior parte do trabalho que sustenta esse negócio são trabalhadores como Kleber, que não recebem absolutamente nada por gerar esse “excedente informacional”, nos termos de Wark. 

Em outras palavras: o equivalente da “mais-valia” do negócio vetorialista é extraído do rastro deixado por Kleber ao longo de seus dias de trabalho. Provavelmente ele nem sabe, mas trabalha duas vezes na mesma corrida, só que recebe apenas por um desses trabalhos — o de entregar a comida, que é mal pago, mas é pago. O outro trabalho é alimentar o sistema com o dado da própria corrida: quanto tempo levou, qual caminho funciona melhor dependendo da hora e do dia, quanto atraso é tolerável etc. Nada disso está na job description, mas é subproduto do corpo dele se movendo.  

O irônico — e espero que tenha dado tempo de o sal de frutas ter efervescido — é que justamente o subproduto gerado por corpos como o de Kleber treina o algoritmo que usou o atraso na minha entrega como prova de ineficiência do trabalho dele mesmo, e cobrou a conta em tempo bloqueado. Ou seja, ele é remunerado pelo primeiro job e taxado pelo segundo.  

Para as plataformas vetorialistas, Kleber é um “parceiro”, não um funcionário. E vice-versa, muitos trabalhadores não se veem como empregados — há até quem se chame de empreendedor. Eu não sei como ele se identifica, mas sua desculpa dirigida a mim antes de qualquer outra coisa é a própria performance nesse papel do parceiro que errou, não do funcionário mal escalado por um sistema alheio.  

Antes de dormir, abri o celular e dei cinco estrelas e uma gorjeta pro Kleber, o máximo de solidariedade de classe que o aplicativo me permite. 

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Escrito por:
EMANNUEL COSTA - Doutor em planejamento territorial, Emannuel é especialista em comportamento urbano e head de pesquisa e tendências na N/Lugares Futuros, onde pesquisa o que as cidades fazem antes de saber que estão fazendo.