Os futuros moram em algum lugar

Quadro resumo:

O futuro não acontece em uma superfície neutra. A partir da diferença entre técnica e tecnologia e das ideias de Heidegger e Simondon, o artigo discute por que cidades, territórios, histórias e pessoas precisam fazer parte da própria formulação dos futuros. Mais do que adaptar soluções globais a contextos locais, trata-se de compreender como os lugares dão forma às transformações que podem emergir.

Passei os dias que antecediam meu painel na Casa FIAP, dentro do Brasil Futures Forum, primeira edição de um evento de futurismo desse porte no Brasil, preso a uma pergunta que parecia simples de resolver e que endereçaria minha participação dentro do conceito de tecnologia e cidades regenerativas, proposto pelo mediador e amigo Carlos Piazza: tecnologia e técnica eram a mesma coisa? Quanto mais eu tentava organizar meu pensamento para o painel, mais ficava claro que responder essa pergunta direito importava mais do que qualquer lista de soluções urbanas que eu pudesse trazer.

A resposta que encontrei é não, pelo menos não no sentido que interessa a esta discussão. Técnica é um modo humano de agir sobre o mundo para resolver um problema prático, herdado ou inventado: uma cesta trançada, uma parede de taipa, um sistema de manejo do fogo. Tecnologia, no uso moderno que nos interessa aqui, é uma forma particular de organizar, sistematizar e escalar determinadas técnicas, frequentemente associada à ciência, à indústria, ao aparato e ao mercado. A distinção importa porque ajuda a entender o mecanismo pelo qual certos saberes passam a ser reconhecidos como inovação enquanto outros permanecem classificados como tradição ou, pior, atraso.

Heidegger escreveu sobre isso em A Questão da Técnica a partir de uma palavra particularmente relevante, Gestell, o enquadramento, o modo pelo qual a técnica moderna interpela o mundo como algo disponível, o Bestand, tudo convertido em recurso à espera de extração e otimização. Onde a poiesis estava ligada a um trazer-à-presença, a técnica moderna exige, provoca, arranca do mundo uma revelação orientada à disponibilidade, o que Heidegger chama de Herausfordern.

E é aqui que a cidade costuma desaparecer dos eventos que discutem futuro, em qualquer lugar do mundo, não só no Rio. Se o mundo é tratado como estoque disponível, o lugar onde algo acontece deixa de importar, porque estoque é, por definição, fungível: uma coisa pela outra, um hectare por outro, uma cidade por outra. Boa parte do discurso de futuros que circula por esses fóruns fala de inteligência artificial, bioeconomia, governança tecnológica e tantas outras transformações como se essas forças pousassem em qualquer superfície plana disponível, sem sotaque, sem clima, sem história e sem gente específica morando ali.

Um futuro sem chão.

O problema não é apenas esquecer as pessoas, como se costuma dizer. Pessoas também não existem genericamente. Elas vivem em lugares atravessados por histórias, conflitos, instituições, infraestruturas, desigualdades, memórias, conhecimentos, afetos e imaginários próprios. Uma mesma transformação não encontra a mesma cidade duas vezes. Inteligência artificial em São Paulo, bioeconomia em Manaus ou transição energética no sertão nordestino não são simplesmente aplicações locais de fenômenos universais. O lugar participa daquilo que essas transformações podem se tornar.

Simondon oferece o contraponto que uso para escapar dessa armadilha sem recair num pessimismo tecnológico fácil, o que também seria uma resposta preguiçosa. Para ele, o objeto técnico não é uma ferramenta morta esperando ser usada, mas algo que evolui, se individualiza, se concretiza. Um objeto técnico abstrato é aquele cujas partes cumprem funções relativamente isoladas, sobrepostas e pouco integradas. No processo de concretização, esses componentes passam a formar um sistema cada vez mais coerente, estabelecendo relações também com o meio associado em que o objeto funciona.

Vista por essa lente, boa parte da tecnologia celebrada em eventos de futuro continua abstrata: peça isolada vendida como solução sistêmica, um gêmeo digital sem chão, um sensor coletando dados sem ninguém para interpretar o que eles dizem sobre aquele lugar, uma plataforma desenhada para funcionar em qualquer cidade e que, justamente por isso, talvez não pertença verdadeiramente a nenhuma.

É a mesma lógica que uso quando escrevo que regenerar é hardware mais software multiplicado por futuros. A lógica multiplicativa da conta importa. Se o componente dos futuros vale zero, sem cenários, sem aprendizado contínuo, sem governança distribuída, a capacidade regenerativa do conjunto entra em colapso, por mais sofisticado que seja o hardware.

Mas existe uma variável ainda mais silenciosa nessa equação: o lugar. Porque futuros sem lugar também multiplicam por zero.

Sem entender onde uma transformação encontra o mundo, quem vive ali, o que aquele lugar acumulou, quais conflitos carrega, quais conhecimentos produziu e quais futuros consegue ou deseja imaginar, aquilo que chamamos de futuro corre o risco de ser apenas projeção. Uma solução concebida antes do lugar, à procura de onde possa pousar. E esse gesto se aproxima justamente do enquadramento que Heidegger descrevia: primeiro organizamos o mundo segundo aquilo que queremos extrair dele e só depois perguntamos quem vive ali.

É por isso que falar de futuros situados significa mais do que adaptar soluções globais às condições locais. O lugar não é a última camada do processo, aquela em que uma tecnologia pronta ganha sotaque, interface ou estratégia de implementação. Ele participa da própria formulação do problema, daquilo que pode ser considerado desejável, das possibilidades que conseguimos imaginar e, portanto, dos futuros que podem emergir.

Os futuros não são variáveis abstratas a serem resolvidas em qualquer superfície disponível. São sempre uma disputa que acontece em algum lugar, sobre determinada história e entre pessoas que vivem ali de verdade.

Se todo futuro acontece em algum lugar, o mínimo que se pode pedir é que esse lugar entre como parte do argumento, não apenas como o chão onde a transformação acontece. Mas talvez seja preciso ir além: cidades e lugares não são recipientes onde futuros previamente concebidos se materializam. Os futuros não chegam aos lugares depois de prontos, são os lugares que lhes dão forma.

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Escrito por:
CAIO ESTEVES - Caio Esteves é autor de Place Branding, Cidade Antifrágil e Lugares Futuros, especialista em place branding, placemaking e futuros das cidades. Fundador da N/ Lugares Futuros, professor e palestrante, atua integrando estratégia, identidade, experiência e futuros para tornar lugares mais relevantes e à prova de futuro.