Pátria por procuração

Quadro resumo:

A eliminação da seleção brasileira revela uma crise que vai além do futebol. Neste artigo refletimos sobre identidade nacional, pertencimento e como a Copa do Mundo se tornou um dos últimos rituais capazes de reunir o país em torno de um sentimento coletivo.

Vou dizer uma coisa e vou dizer sem pedir licença: a seleção brasileira não perdeu para a Noruega do Haaland. Nem para a Croácia do Modric. Nem para a Bélgica do Lukaku. A seleção brasileira perdeu para si mesma, faz tempo, e isso tem absolutamente tudo a ver com a nossa crise de identidade nacional.

Desde o tri em 1970, a Copa do Mundo é o único evento capaz de parar o país inteiro. Independente de acompanhar futebol regularmente ou passar quatro anos mantendo uma indiferença cordial com a bola, ninguém, ninguém mesmo, consegue assistir ao jogo da seleção como quem assiste a um jogo qualquer. Isso já devia ter nos avisado há muito tempo que Copa é menos sobre futebol e mais sobre o ritual que a gente usa para confirmar, de quatro em quatro anos, que existe um sentimento de nação acima de tanta gente que não se parece em nada.

Mas como não se mexe em time que está ganhando, não enxergamos isso em tempo hábil. Até que veio o 7 a 1 e quebrou esse ritual. Desde então, vivemos em um estado permanente de anestesia, onde cada nova eliminação injeta mais uma dose que faz a gente sentir cada vez menos a derrota, fingindo que sentir menos significa maturidade.

Tão logo se confirmou o debacle desse ano, fui às redes sociais para descobrir qual sentimento coletivo inventaríamos dessa vez, mas me deparei com o de sempre: críticas ao jogador que não chamou a responsabilidade para si, à substituição errada e à opção por jogar sem posse de bola. Tudo requentado, tudo reciclado de outras Copas, tudo para não dizer a única coisa que dói: ninguém mais sabe medir o tamanho do amor que resta.

Porque os sintomas novos — para os quais ainda não produzimos anticorpos — dessa vez estavam em todos os lugares, menos dentro do campo. Ou praticamente isso.

Estava no “Vai Brasa”, ridículo pela pretensão, mas genial sem querer: a corajosa tentativa de uma marca assinar em nome do país inteiro um sentimento que não é dela para assinar. Ninguém autorizou, porque legitimidade para batizar o que uma nação sente, ou nasce de dentro para fora, ou não nasce.

Estava no intervalo do jogo. Ou melhor, nos intervalos, porque agora são vários. Até outro dia, intervalo era o momento em que a gente baixava o volume da TV e ia ao banheiro ou à cozinha, enquanto os comerciais passavam como ruído de fundo. A Copa de 2026 pegou esse respiro e vendeu pedaço por pedaço: a pausa para hidratação virou breque publicitário, e o breque virou convite para apostar em quem faz o próximo gol — mas com responsabilidade, viu?

E estava, principalmente, no nosso camisa 10, meio Peter Pan meio Macunaíma. O menino investido de salvador da pátria desde quando ainda era (neste caso, literalmente) garoto, e que nunca chegou à fase adulta. Discutiu-se muito se ele devia ter sido convocado, e depois se devia ter sido titular. Só não se discutiu se ainda faz sentido esperar que um homem só carregue o desejo de uma nação inteira.

Desculpa. Homem não. Menino.

Enquanto a gente se anestesiava aqui dentro, gente que nunca pisou no Brasil e provavelmente nunca vai pisar comemorava cada gol brasileiro em Bangladesh ou na Índia, como se fosse deles. Cheguei a rir um pouco da ingenuidade, até perceber que a piada não estava neles, afinal, eles não foram anestesiados. Eles apenas acreditam numa seleção que a gente aqui já não acredita mais que existe.

Ao menos no futebol, o Brasil se tornou uma pátria por procuração, o estado de quem terceiriza o próprio amor ao país para quem ainda consegue sentir algo por ele. De preferência, do outro lado do mundo e sem nenhum interesse em cobrar satisfação. Deixamos os de fora sentirem por nós, porque sentir dói e eles ainda não sabem disso.

E o pior é que eles têm razão de sentir. O que eles enxergam é real: um jeito de jogar que a gente inventou e que encantou o mundo porque não cabia em nenhum esquema defensivo. Nunca coube. O improviso que fintava o planejamento. A ginga que driblava a disciplina. Para quem vive fora do centro do mundo, a seleção brasileira também representa uma esperança de que é possível vencer sem seguir a cartilha de quem inventou o jogo.

Toda identidade que perdura precisa, de tempos em tempos, de um gesto público que reafirme para que ela serve. O Brasil vem adiando esse gesto — no futebol, 24 anos e contando — porque ele nunca coube a um homem só, mesmo que a gente insista em vestir um garoto com farda de messias a cada quatro anos. Essa identidade que a gente forjou continua circulando lá fora, só não mora mais aqui dentro. E é esse endereço trocado, mais do que qualquer pênalti perdido, que devia estar doendo.

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Escrito por:
EMANNUEL COSTA - Doutor em planejamento territorial, Emannuel é especialista em comportamento urbano e head de pesquisa e tendências na N/Lugares Futuros, onde pesquisa o que as cidades fazem antes de saber que estão fazendo.