A Amy Webb chegou na hora certa, só que era ontem.
Quadro resumo:
Uma lavanderia em Singapura, outra em São Paulo, e o mecanismo que Amy Webb chamou de convergência no SXSW. O que as três coisas têm em comum diz mais sobre a diferença entre sinais fracos e tendência do que sobre qualquer novidade metodológica.Há pouco mais de um ano, mapeando sinais fracos de comportamento urbano, me deparei com uma lavanderia self-service 24h em Singapura que havia incorporado ao espaço um serviço de cafeteria, Wi-Fi, ar-condicionado e mesas de uso coletivo para os clientes matarem um tempo enquanto batem suas roupas, ou até mesmo otimizar a logística social: por que não combinar uma necessidade básica (lavar roupas) com a oportunidade de encontrar um amigo?
Com uma honestidade que raramente se encontra em estratégias de branding por aí, o site dessa lavanderia explica a motivação: “lavar roupas não deveria tomar o seu tempo”.
À época, me chamou atenção o posicionamento do negócio não estar no serviço em si, mas na promessa de devolver um pouco do tempo livre que é subtraído pela rotina que demanda conciliar a correria do dia a dia com afazeres domésticos. Este é um argumento especialmente forte para quem vive em grandes metrópoles ou em áreas densas o bastante para que o apartamento sequer possua estrutura para comportar uma máquina de lavar — como é o caso de quem vos escreve.
Registrei o case como sinal fraco, inseri-o em alguns relatórios e segui em frente.
Meses depois, durante uma andança qualquer pelo bairro onde vivo, descobri na quadra de trás uma lavanderia recém-inaugurada com os mesmos serviços: café, Wi-Fi, mesas coletivas… Há até um parklet na calçada para quem prefere ar livre em vez do condicionado. Não funciona 24h, mas achei curioso existirem dois espaços com propostas tão singulares em hemisférios diferentes.
Essa coincidência poderia ser lida como confirmação de tendência, no sentido em que o mercado usa essa palavra: um comportamento ganhando volume e direção reconhecível. Mas o que merece atenção é o fato de Singapura e São Paulo compartilharem uma pressão urbana bastante específica que diz algo sobre grandes cidades do sul-global: densidade alta, habitações pequenas e tempo como um recurso que a cidade te consome antes que você perceba.
Dois empreendedores, que provavelmente nunca se falaram, em posições opostas no globo, chegaram à mesma resposta a essa pressão em forma de oportunidade de negócio antes de essa pressão ter um nome, e pensar sobre isso é muito mais produtivo do que cravar o episódio como tendência ou convergência.
Comportamento antes de tendência
Ray Oldenburg cunhou o conceito de terceiro lugar nos anos 1980 a partir de uma constatação sobre o modelo de urbanização norte-americano: ao separar rigidamente as centralidades de trabalho (os famosos Central Business Districts) dos bairros residenciais (os também famosos subúrbios), as grandes cidades americanas haviam eliminado do cotidiano das pessoas os espaços onde a vida pública informal acontecia para além da casa e do trabalho, respectivamente primeiro e segundo lugares.
Assim, ele se tornou conhecido por advogar em favor de cervejarias, salões de beleza, cafeterias, esquinas comerciais de bairro e outros espaços que existiam por necessidade social acumulada, para além de demanda de consumo. O contexto de Oldenburg era específico, a América do Norte suburbanizada do século 20, e seu argumento também: as cidades americanas precisavam de mais terceiros lugares.
Mas o mecanismo de comportamento que ele identificou foi potente o suficiente para se manter relevante mesmo em contextos muito distintos daquele em que ele escreveu, como Singapura e São Paulo no século 21, metrópoles que se organizaram em função da eficiência e, ao longo desse processo, esqueceram de pensar nos lugares onde a vida informal acontece. O argumento aqui é igualmente específico: as cidades do sul-global também precisam de mais terceiros lugares, só que de um tipo diferente.
A semelhança entre as duas lavanderias de bairro que podem funcionar como café ou coworking reside em respostas parecidas para pressões sobre a vida cotidiana que nenhum dos seus criadores descreveria como terceiro lugar, embora sejam. São terceiros lugares que não sabem que são terceiros lugares, e essa condição explica como comportamentos urbanos emergem: a pressão existe antes do comportamento ter forma, e o comportamento existe antes de alguém dar um nome a ele.
Isso importa mais do que uma tendência porque o percurso entre a pressão e o nome nunca é linear e raramente é curto. Uma pressão estrutural pode produzir comportamentos muito diferentes em contextos diferentes, alguns dos quais nunca vão convergir para um nome único. Outros ganham volume, encontram linguagem própria e eventualmente chegam ao evento canônico de serem batizados como tendências.
Tendência não é sinal fraco
Em março deste ano, Amy Webb declarou no SXSW o fim dos relatórios de tendências em favor do que ela chamou de “Convergence Outlook”. Sua tese defende que analisar tendências isoladas não serve mais para um mundo onde múltiplas forças colidem simultaneamente. É preciso pensar em convergência. Uma declaração simples e identificável para ganhar o volume e o buzz que declarações feitas em palcos grandes costumam ganhar.
Mas isso não significa que a tese faça sentido. No campo do futurismo estratégico (strategic foresight), monitorar pressões estruturais antes que elas produzam um comportamento identificável tem outro nome: sinais fracos. É o que operamos como pesquisa de comportamento urbano aqui na N/Lugares Futuros e o que a lavanderia de Singapura já havia demonstrado antes de existir como dado em qualquer relatório.
Tendência mapeia o que já tem volume, forma e direção reconhecível. Sinal fraco mapeia a pressão antes de ela produzir comportamento nomeável. Para leitores menos familiarizados, pode parecer a mesma coisa — e verdade seja dita, futuristas e trendsetters frequentemente contribuem para a confusão em vez de esclarecê-la —, mas tendência não é sinal fraco e vice-versa: são dois instrumentos que respondem a perguntas diferentes sobre objetos diferentes, e o percurso entre eles não é sequencial, quando muito seja possível existir um percurso.
Uma pressão estrutural pode nunca virar tendência na mesma medida em que uma tendência pode nunca ter tido um sinal fraco identificável. Quando a lavanderia de Singapura entrou no meu radar, ela era um dado sem categoria consolidada porque a pressão urbana de fundo era suficientemente legível para eu identificar a experiência como um comportamento incipiente. O nome viria depois, ou não.
Quando uma novidade ganha palcos como o do SXSW ou viraliza pelo alcance de especialistas do mercado como a Amy Webb, ela já percorreu esse caminho inteiro. Foi avistada, monitorada, registrada, circulou em relatórios internos, ganhou volume e foi lapidada até caber numa frase que soa como revelação. Mas não se engane: ao longo deste caminho, quem tinha interesse em usar a novidade estrategicamente já o fez. E isso significa que qualquer discussão sobre ser convergência ou tendência é inútil, porque acontece depois que a janela estratégica já fechou para quem precisava dela aberta e não sabia.
A lavanderia de Singapura continua lá, e a lavanderia aqui do meu bairro também. Mas o nome que elas ganharam desde então é um mero detalhe de percurso.
Escrito por:
EMANNUEL COSTA - Doutor em planejamento territorial, Emannuel é especialista em comportamento urbano e head de pesquisa e tendências na N/Lugares Futuros, onde pesquisa o que as cidades fazem antes de saber que estão fazendo.