No dia internacional da mulher eu queria…

MARIANE BROC  03.26

No Dia Internacional da Mulher, eu queria…

Não conhecer ninguém que tivesse uma história de assédio para contar.

Não ter meus próprios relatos.

Não me deparar diariamente com estatísticas aterrorizantes.

Não normalizar notícias que deveriam nos mobilizar, mas nos paralisam.

Quantas frases indignadas e quase que panfletárias como estas que listei acima, e tantas outras ainda mais enfáticas e potentes, vemos passar por nossos feeds diariamente? Seja em uma reportagem, um estudo, no posicionamento contundente de algum defensor da causa, ou mesmo em uma onda de comoção diante de fatos inimagináveis, como o do estupro coletivo da adolescente em Copacabana.

Até quando vamos continuar a apertar o passo nas ruas ao perceber um olhar que só nós sabemos reconhecer. Ou nos encolher diante da insistência do contato físico não autorizado?

Talvez a dimensão desse problema tome forma em nossas mentes quando traduzimos a violência em tempo. No Brasil, a cada 6 minutos uma mulher é estuprada. Isso significa que, enquanto você lê este texto ou nos minutos subsequentes, outra mulher provavelmente já entrou para essa estatística. Também significa que, durante o tempo de um café entre amigas, dezenas de novas histórias de violência foram registradas, e muitas outras sequer chegarão às estatísticas.

Todos os dias, quatro mulheres são assassinadas no país, isso dos casos que se tem conhecimento. No mundo, a média é ainda mais brutal, uma mulher assassinada a cada dez minutos.

São números que parecem distantes até nos darmos conta de que a violência raramente começa no momento extremo. Ela se constrói aos poucos, no assédio naturalizado, no trajeto que encurtamos para evitar uma rua mal iluminada, na escolha calculada do vagão do metrô, do banco do ônibus, do horário de voltar para casa. Pequenos gestos já automáticos que dizem muito sobre como as mulheres vivem a cidade, onde um simples deslocamento se torna um exercício permanente de vigilância.

E é justamente nesse ponto que trago para o texto a reflexão de como planejamos as cidades.

Durante décadas, o planejamento urbano foi pensado a partir de uma lógica de modelo de vida masculino, produtivo e linear: casa, trabalho, casa. O problema é que, para metade da população mundial, ou seja, nós mulheres, esse tipo de deslocamento não reflete em nada a nossa realidade cotidiana. Diversos estudos de mobilidade urbana mostram que mulheres realizam mais viagens ao longo do dia que os homens, em múltiplos caminhos pela cidade.

As mulheres percorrem trajetos encadeados, como levar filhos à escola, ir ao trabalho, passar no mercado, acompanhar um familiar ao posto de saúde e resolver tarefas domésticas ao longo do caminho. Esse padrão, conhecido como trip chaining, reflete a sobrecarga das atividades de cuidado, resultando em deslocamentos mais fragmentados e complexos do que os trajetos tradicionalmente considerados no planejamento urbano.

Esse padrão recentemente ganhou um nome: a mobilidade do cuidado.

Dados da UNWomen mostram que, globalmente, mulheres realizam três vezes mais trabalho de cuidado não remunerado do que homens. Essa desigualdade se traduz diretamente na forma como elas usam a cidade: caminham mais, dependem mais, estão mais expostas e, portanto, mais vulneráveis.

A incorporação do cuidado como eixo estruturante das políticas urbanas tem ganhado espaço em algumas cidades que passaram a repensar o planejamento urbano a partir das desigualdades de gênero.

Em Barcelona, esse movimento ganhou força a partir de 2015, quando o município passou a estruturar políticas públicas voltadas voltadas à chamada “Cidade do Cuidado” reconhecendo que o funcionamento da vida urbana depende de atividades historicamente invisibilizadas e realizadas majoritariamente por mulheres. A estratégia municipal busca democratizar e socializar as responsabilidades de cuidado por meio de redes de proximidade, serviços comunitários e equipamentos compartilhados.

Em Bogotá, a abordagem avançou ainda mais com a criação, em 2020, do Sistema Distrital de Cuidado, que implantou as chamadas “Manzanas del Cuidado” bairros onde mulheres podem acessar, em um mesmo lugar, serviços públicos como formação profissional, apoio psicológico, lavanderias comunitárias e atendimento para dependentes, reduzindo o tempo dedicado às tarefas de cuidado.

Esses exemplos mostram que pensar cidades a partir da perspectiva de gênero não é um gesto simbólico ou identitário. É uma forma mais realista de compreender como a vida urbana realmente acontece. Porque, no fundo, ou nem tão no fundo assim, sabemos que, quando as cidades funcionam melhor para as mulheres, elas funcionam melhor para todos.

Mas a transformação não passa somente pelo redesenho da dinâmica urbana. Exige, acima de tudo, questionar estruturas muito mais profundas, como aquelas que silenciam violências e deslocaram responsabilidades.

Inacreditavelmente, até hoje a vergonha ainda recai sobre quem sofre a violência.

Recentemente, o mundo voltou os olhos para o caso de Gisèle Pelicot, a francesa que, durante anos, foi vítima de abusos cometidos pelo próprio marido. Ao decidir tornar público o processo judicial, ela afirmou algo que ecoou em diferentes partes do mundo e virou título do livro que escreveu: “a vergonha precisa mudar de lado.”

Talvez o mesmo possa ser dito sobre o cuidado. O cuidado precisa mudar de lado, precisa seguir a lógica: Eu cuido, tu cuidas, nós cuidamos.

Feliz Dia Internacional do Cuidado.