Não existe Não-Lugar. Nem Autenticidade. E está tudo bem.

Saguão de aeroporto movimentado ao entardecer, com painéis de voos e pessoas circulando com malas sob luz dourada.

Imagine-se no saguão de um aeroporto. Qualquer um. As mesmas cadeiras, as mesmas redes de cafés, as mesmas lojas duty free. Esse espaço, estranhamente familiar e impessoal ao mesmo tempo, poderia estar em qualquer lugar do mundo, não é?

Essa sensação é o que se convencionou chamar de “não-lugar”. O conceito, cunhado pelo antropólogo Marc Augé para descrever espaços de passagem com os quais não criamos laços, popularizou-se e virou um jargão fácil no vocabulário de urbanistas e players do mercado para classificar qualquer ambiente que pareça sem “autenticidade” — de aeroportos a bairros planejados.

De acordo com essa lógica, um não-lugar é, automaticamente, um espaço ruim e deve ser evitado a todo custo. O antídoto? Resgatar e promover sua autenticidade. Mas a popularização desses termos criou uma armadilha: ao virarem rótulos, diagnóstico e remédio prescritivo se tornaram superficiais e estão entregando mais do mesmo, apenas em nova embalagem.

Se não existe não-lugar, existe o quê?

Existe lugar sem lugaridade, tradução que propus em minha tese de Doutorado para o termo Placelessness, cunhado pelo geógrafo Edward Relph nos anos 1970, mas que permanece mais atual do que nunca. A discussão é longa, mas em resumo, um lugar sem lugaridade não é um lugar intencionalmente construído para ser vazio de significado, como a ideia de não-lugar pode sugerir. É apenas um lugar ausente de identidade territorial. Sim, há diferenças.

Pense em um distrito empresarial com seus arranha-céus de vidro que, assim como aeroportos, poderiam estar em qualquer metrópole. Ou em um loteamento que vende o sonho do refúgio perfeito, mas entrega casas idênticas e ruas desertas. Ao serem projetados para priorizar eficiência e escala, esses lugares já nascem sem uma lugaridade, ou seja, sem identidade própria.

A situação é ainda mais complicada quando a lugaridade é apagada de lugares que, em algum momento do tempo, já tiveram identidade territorial forte. É o que acontece em centros históricos, onde fachadas seculares são engolidas por letreiros chamativos de redes de farmácias e lojas de “Tudo por 10”. A “casca” da história permanece, mas a marca-lugar se esvai a cada novo comércio inaugurado.

Claro, não se pode ignorar que nem sempre há necessidade ou tempo de criar conexões profundas com esses lugares. Mas presumir que eles são “naturalmente” desprovidos desse potencial é um julgamento superficial que está custando caro para muitos empreendimentos e destinos, porque a questão central não é a ausência de significado, mas de intenção.

A diferença que muda o jogo

Ironicamente, quem nos ajuda a entender essa diferença é uma das maiores fontes inspiradoras para criação de lugares sem lugaridade do mundo: Hollywood.

Montagem com cenas dos filmes “O Terminal” (Tom Hanks segurando passagem no aeroporto) e “Amor sem Escalas” (George Clooney em saguão de check-in).

Em O Terminal, o personagem de Tom Hanks fica preso em um aeroporto, inicialmente retratado como um não-lugar por excelência. Forçado a habitá-lo, o protagonista transforma o espaço, através de pequenos rituais diários — como tomar banho, aprender um novo idioma e criar laços com funcionários — que não tem nada de “autênticos” em relação ao que se espera daquele espaço, mas que são profundamente intencionais. Ao fim do filme, o aeroporto deixa de ser um espaço “sem afeto” para se tornar o lugar do protagonista no mundo.

Já em Amor Sem Escalas, George Clooney interpreta a personificação da vida nesses ditos “não-lugares”. Ele passa mais tempo em aeroportos e quartos de hotel do que em casa; sua identidade é a própria transitoriedade. Tudo parece “autêntico” na superfície, porém o conflito do personagem revela que o problema nunca foi o aeroporto ou o hotel, mas a relação intencionalmente desapegada que ele mantinha com os espaços.

São dois lados da mesma moeda: ao contrário da ideia de não-lugar, lugares sem lugaridade não pressupõem uma sentença automática de vazio. A lição a ser tirada é que o potencial para criar significado em um espaço não depende do que ele é ou foi projetado para ser, mas do que fazemos com ele. E é aqui que entra o Place Branding, uma estratégia que pode transformar qualquer lugar, mesmo que inicialmente sem identidade, em um espaço repleto de significado e autenticidade.

O problema é que não basta ser autêntico, precisa parecer que é autêntico

A origem dessa “pequena” confusão reside em um momento bastante singular da experiência humana. Em um mundo cada vez mais saturado de opções, como aponta o filósofo Gilles Lipovetsky, a busca por “ser si mesmo” se tornou a grande ética do nosso tempo, o zeitgeist do comportamento que está presente no que vestimos, comemos e, principalmente, nos lugares que habitamos e visitamos.

Traduzindo: os lugares viraram reféns da projeção dos anseios e desejos coletivos sobre a experiência urbana. Bairros planejados não vendem mais casas com bom custo-benefício, prometem “vida conectada à natureza”; destinos turísticos não se contentam mais com bom serviço de hospitalidade, oferecem pacotes de “imersão cultural”.

Na prática? Os empreendimentos continuam entregando o mesmo paisagismo padronizado de 20 anos atrás, e as experiências turísticas continuam genéricas e caricatas (apenas ficaram mais caras).

E nada disso acontece por má intenção. Muito pelo contrário, é somente o reflexo de anos errando o investimento de intenção na hora de planejar a marca-lugar. Afinal de contas, se o diagnóstico inicial — “não podemos ser um não-lugar!” — é incompleto, o remédio da “autenticidade” é, consequentemente, parte do mesmo problema.

Plataforma de metrô lotada com pessoas embarcando e desembarcando em horário de pico, refletindo a rotina urbana e os fluxos metropolitanos.

Mas se tudo é autêntico, então nada é autêntico

Quando a bússola da intenção aponta para a “autenticidade” como um produto em si, o resultado é a produção de lugares — o Placemaking, de fato — ainda mais vazios de significado. Do ponto de vista estético,podem até agradar. Contudo, no filtro da experiência, essa conta não fecha.

É um ciclo vicioso: o mercado identifica os códigos estéticos do que é “autêntico” — o tijolo aparente, a madeira de demolição, a história “resgatada” — e os replica à exaustão. O propósito original se perde e só resta a casca. A busca incessante por diferenciação competitiva está nos aprisionando em um paradoxo: quanto mais tentamos fugir do genérico, mais genéricos nos tornamos.

A grande ironia é que, no fim das contas, um aeroporto funcional, honesto em seu propósito de ser um espaço de passagem eficiente, se torna mais “autêntico” do que o bairro projetado para simular uma vivência que ele não é capaz de entregar. O aeroporto não promete uma experiência transformadora, mas tampouco sua função desabona a possibilidade de passageiros, tripulações e funcionários desenvolverem algum tipo de identificação com aquele lugar.

O problema, portanto, não está no afeto projetado, mas na obsessão por um ideal de autenticidade que, de tão replicado, se tornou uma miragem. Não vivemos uma crise de criatividade; vivemos uma crise de propósito.

Afinal, não existe não-lugar; existe espaço à espera de lugar, porque todo metro quadrado, quando habitado pela intenção humana, gera significado.

E, da mesma forma, não existe autenticidade; existe ação com intenção, porque a identificação não pode ser copiada pela estética, apenas sentida na experiência.

* * *

Referências:

Augé, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.

Lipovetsky, Gilles. La consagración de la autenticidad. Barcelona: Anagrama, 2024.

Relph, Edward. Place and Placelessness. Londres: Pion, 1976.

Tenho que terminar com o meu barbeiro.

cadeira giratória e o senso de pertencimento.

Tenho que terminar com o meu barbeiro. Essa frase tem ecoado na minha cabeça nos últimos meses com o mesmo peso de uma confissão de adultério, o que é um completo absurdo, afinal de contas, eu pago pelo serviço, ele executa. Uma transação capitalista, cotidiana e ordinária.

Mas em algum momento nos últimos cinco anos, essa troca comercial se tornou um relacionamento moderno e sincero, que envolve um rendez-vous por mês sem tempo para DR, apenas uma confiança cega em ficar com o rosto coberto por uma toalha quente enquanto a própria jugular está sob a lâmina afiada de outro homem.

O problema é que toda confiança gera intimidade. O Mika – sim, ele tem um nome, o que só piora a situação – guarda segredos que nem meu terapeuta conhece. Ele sabe, por exemplo, que embora meu fio de cabelo seja fino e liso, após atingir certo comprimento, começa a se rebelar de tal maneira que, de duas uma: ou vira um mullet de ator pornô dos anos 1970, ou me deixa igual o Beiçola.

Em um dos nossos encontros no ano passado, mostrei uma foto de um modelo genérico do Pinterest, alegando que estava na hora de dar uma mudada no visual. Ele, com a sutileza de um diplomata da ONU, disse: “Tipo Old Money, né? É um corte bacana, mas acho que a gente pode dar uma adaptada pra você ter menos trabalho no dia a dia”. Ele me salvou de mim mesmo.

Apesar de tudo isso, tenho que terminar com o meu barbeiro. Estou de mudança para outra cidade, e a tarefa de encontrar um sucessor para o Mika veio se transformando num problema complexo, até virar briefing de projeto na minha já sobrecarregada cabeça de pesquisador:

“Problemática: onde encontrar provedor de serviço capilar que minimize o risco de desastre estético e social, garantindo a continuidade da identidade do usuário?”

A primeira fase da pesquisa, exploratória, foi um desastre. Passei duas últimas semanas na futura nova cidade resolvendo pendências pré-mudança e, em momentos de desespero ou tédio, abri o Google Maps e digitei “barbearia perto de mim”. Por outro lado, durante minhas andanças, analisei friamente toda e qualquer barbearia que cruzou meu caminho, como um crítico de arte avaliando uma obra de gosto duvidoso. Encontrei basicamente duas opções.

A primeira eu chamei de Barber Shop. Ela possui uma fachada pretensiosa e frequentemente ostenta um nome em inglês. O ambiente mistura porcelanato xadrez com uma estética confusa. Aliás, a decoração me faz perguntar se ali funciona uma barbearia, um coworking ou a casa do Caio Castro. Nessas ocasiões, nem me arrisco a olhar a tabela de preços. Apenas penso em desculpas para recusar a cerveja artesanal de 40 reais. Também evito a humilhação de não entender as diferenças entre os tipos de cera para bigode.

O segundo tipo ocupa o extremo oposto desse espectro. Chamei este modelo de Barbearia Vargas. São pequenas salas comerciais, geralmente no térreo ou sobreloja de edifícios antigos. Nesses locais, senhores de meia-idade reclamam do casamento e trocam dicas sobre compra de sítio e troca de carro. Enquanto isso, uma TV posicionada perto do teto transmite algum filme qualquer. Ninguém assiste à tela de verdade. O som serve apenas de trilha sonora para o debate sobre qual montadora perde menos valor na tabela FIPE.

Indecisões e caracterização

Apesar de diferentes em essência, alma e caráter, as duas opções apresentam o mesmo problema. Eu sei que a conversa vai morrer assim que eu puxar a porta de vidro. As cabeças vão virar e os presentes vão me analisar dos pés à cabeça durante três longos segundos. Depois, vou explicar minha ideia para o barbeiro. Receberei como resposta um olhar de desprezo silencioso. Por fim, ele fará o único corte que domina: máquina dois dos lados e tesoura em cima. O processo termina com um pós-barba com álcool suficiente para esterilizar um centro cirúrgico.

Na Barber Shop, corro o risco de estourar o limite do cartão. Já na Vargas, as chances são de sair fantasiado de mim mesmo, só que vinte anos mais velho. Como escolher, então? Nos primeiros meses, cheguei a imaginar alguns testes. Cogitei até tabular as considerações em uma planilha.

“Corte excelente, mas o cara não para de falar de política.” –  Risco altíssimo.

“Ótimo papo, mas pensa numa mão pesada.” – Risco existencial.

“Central, barato e rápido.” –  Risco de ser confundido com um recruta do exército.

Mas como todo bom – ou mau, dependendo do referencial – pesquisador, logo me veio o feeling de que algo de errado não estava certo. Oras, se meu cabelo não é produto e essa não é uma pesquisa de mercado, qual o sentido de um critério de análise da qualidade do barbeiro?

Foi aí que me lembrei de uma conversa fiada com o Mika, meses atrás, sobre um projeto musical que ele estava desenvolvendo. Ao sentar na cadeira no mês seguinte, perguntei: “E aí, Mika, gravou?”, ao que ele, todo orgulhoso, passou tanto tempo me mostrando e contando os detalhes das gravações que quase esqueceu de cortar meu cabelo.

A grande catarse deste evento masculino canônico chamado trocar de barbeiro é reconhecer que, antes de procurar um bom prestador de serviço, trata-se de encontrar o diferencial que não consta em nenhuma tabela de preços: a sensação de viver o pequeno ritual mensal que me ancora na cidade, que me faz sentir conhecido e que, de alguma maneira, me enraíza no lugar onde estou.

Falta de lugar

Em “A Invenção do Cotidiano”, Michel de Certeau diz que caminhar é ter falta de lugar, e o que é o cotidiano, senão viver em constante trânsito – de ideias, desejos e experiências? O que transforma uma cidade, qualquer cidade, em “casa” não é uma boa proposta de emprego, nem a sensação de segurança, nem um agitado semanário cultural, mas esses pequenos oásis de familiaridade – da portaria do prédio do seu amigo que libera sua entrada antes de você tocar o interfone à barbearia onde um cara entende o seu cabelo melhor do que você mesmo. São esses pontos de afeto que, mesmo aparentemente impessoais, nos fazem sentir que pertencemos.

Tenho que terminar com o meu barbeiro, e o corte que me preocupa não é o do cabelo, mas sim do laço com quem me fez sentir em casa durante muito tempo. Eis, enfim, a grande ironia: eu, que ganho a vida tentando entender como as pessoas se conectam com os lugares, agora me vejo no próprio papel de alguém buscando essa conexão.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Além do Leão de Ouro: por que é melhor investir em ativações urbanas autênticas do que em marketing (literalmente) de fachada

Imagem conceitual gerada por IA representando os elementos essenciais do placemaking autêntico: pessoas, significado e atividades integrados em um espaço urbano vibrante, em contraste com abordagens superficiais de marketing de lugares.

Na semana passada, a publicidade brasileira foi surpreendida após a revelação – já comprovada e admitida pelas partes envolvidas – de que o case vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cannes deste ano, na categoria “experiência de marca e ativação”, foi construído através de uma campanha de engajamento falsa. Mas o que isso tem a ver com lugares? 

A “campanha” envolveu uma ativação urbana durante o carnaval em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Banners estampando “Esse anúncio bancou o aluguel desse apê no carnaval” teriam sido pendurados em sacadas e fachadas de apartamentos alugados por turistas, levando a acreditar que a experiência envolvia uma integração orgânica da marca à celebração do carnaval e conexão autêntica com as pessoas e os lugares da festa.

A ilusão, porém, durou pouco. A “ativação” era uma encenação: números inflados e, principalmente, engajamento fake com as pessoas, que mais beirou a manipulação do que a conexão genuína. O resultado? Provável cassação do prêmio e crise de credibilidade não só para os envolvidos, mas para o setor de maneira geral.

Banners promocionais controversos em sacadas de apartamentos durante o carnaval brasileiro, que renderam um Leão de Ouro em Cannes mas revelaram-se como marketing de fachada com engajamento artificial, exemplificando ativações urbanas sem autenticidade.

Foto: Reprodução/vídeo apresentado em Cannes. Fonte: UOL 

Aqui na N/ Lugares Futuros a gente fala sobre Place Branding e não Place Marketing. Mas para além de diferenças conceituais e de abordagem, este caso especificamente enseja uma reflexão comum a marcas, agências, governos e enfim, todos aqueles que trabalham interagindo diretamente com lugares e pessoas: o verdadeiro valor de uma ativação urbana está no espetáculo efêmero, ou é sobre construir legado e referência? 

A pergunta é retórica e vocês já sabem a resposta, claro. Mas pensar um pouquinho sobre isso é fundamental para entender a longevidade e a relevância de qualquer iniciativa. Afinal de contas, ninguém quer investir tempo e energia em algo que se desfaz no primeiro sopro, certo?

A ilusão do impacto: quando ativações falham em gerar valor de marca

Embora não seja uma novidade disruptiva, usar espaços urbanos para comunicar mensagens de marca pode, sim, gerar inovação e valor – se executado da maneira correta, logicamente. 

Em Bruxelas, por exemplo, o Carrefour montou uma loja pop-up para fazer a ativação do seu marketplace de produtos de segunda mão – uma plataforma online exclusiva para vender e comprar coisas usadas. A ação, que foi a primeira do tipo no varejo de alimentos europeu, incentivou o desapego, promoveu consumo consciente e permitiu que compradores e vendedores acumulassem os famosos pontos para trocar em compras de mercado.

Mas por que uma das maiores supermercadistas do mundo incentiva a venda de produtos usados que ela mesma comercializa? A resposta é simples: porque não é sobre vender, mas se conectar com o público. E para isso, o Carrefour (o europeu, pelo menos) entendeu que a presença urbana era fundamental para fortalecer o vínculo com as pessoas e ratificar o posicionamento desejado.

Loja pop-up do Carrefour em Bruxelas para ativação do marketplace de produtos de segunda mão, demonstrando uma ativação urbana autêntica que conecta a marca com valores de sustentabilidade e engajamento comunitário real.

Foto: Divulgação da ativação urbana de Bruxelas. Fonte: Carrefour

A sensação de estar enganando

O fato é que quando uma marca decide ativar um espaço urbano, ela faz mais do que ocupar um lugar por tempo determinado. Ela entra na vida das pessoas e se envolve com suas rotinas, dores e desejos. Se a marca realiza essa entrada com propósito, gera um impacto duradouro.

Por outro lado, a falta de compromisso real com os envolvidos deixa um rastro negativo. O que resta é a sensação de enganar ou ter sofrido um engano. Esse cenário lembra os turistas que se deparam com banners de propaganda enganosa. Nesses casos, a marca afirma ter feito algo que, na realidade, nunca executou.

Quem já leu o nosso Relatório de Tendências Urbanas ou explorou algum dos nossos serviços da Urbanscope sabe: diversos cases como este do Carrefour mostram que investir na relação entre lugares e marcas só é bom negócio se as experiências criadas ficarem na memória, gerarem conversa e, principalmente, deixarem alguma transformação positiva para as pessoas que se relacionam com o lugar. Ou seja, ativar espaços urbanos não é apenas sobre executar uma estratégia de marca – e, definitivamente, não é sobre fazer ação de marketing à lá Bangu. Com lugares, o buraco é mais embaixo.

Além do Hype: o poder transformador do Placemaking

A verdadeira ativação de espaços urbanos é muito mais do que gerar visibilidade imediata e burburinho. É um ato de Placemaking: o processo de transformação urbana que busca não apenas tornar os espaços mais atrativos, mas qualificá-los para que se tornem vibrantes, vivos e com muito mais utilidade para quem os usa. Não tem segredo, apenas método:

Lugares vibrantes = pessoas + significado + atividades.

A essa altura, você provavelmente já concorda comigo que pendurar banner, além de poluir visualmente a paisagem e, em alguns casos, infringir leis municipais, não produz engajamento efetivo nenhum com as pessoas do lugar – nem mesmo em caráter temporário. 

É claro que marcas de consumo não precisam necessariamente revitalizar uma praça para justificar uma ação estratégica. Contudo, seja carnaval ou procissão de santo, é necessário entender o que as pessoas estão celebrando e ajudá-las a tornar esse momento ainda mais memorável. Além de criar pertencimento, isso dá um empurrãozinho muito bem-vindo no comércio local. Talvez não seja suficiente para conquistar leões em Cannes, mas é tiro e queda para fidelizar pessoas.

Em outras palavras, para que um espaço seja ativado com propósito é preciso engajar as pessoas antes, durante e depois do processo. Quer entender como sua estratégia pode ressoar de verdade em um lugar? Converse com a comunidade. Ela é a verdadeira expert.


O Legado da Autenticidade: Marcas e Lugares à Prova de Futuro

Eu não tenho dúvidas de que as partes envolvidas vão superar este episódio. Mas a lição que fica se estende a todo mundo: na era da desinformação e da desconfiança institucional em escala planetária, a autenticidade é um ativo estratégico inegociável (apesar de que, se tudo agora é autêntico, então nada mais é autêntico…, mas este é assunto para outro post). 

Seja uma marca, uma agência criativa ou um governo, todos têm uma escolha a fazer: continuar apostando em estratégias artificiais e rasas de exploração da imagem do lugar, ou investir no que realmente traduz a singularidade desse lugar? Antes de uma “campanha que deu errado”, o que este episódio revela é uma falha estrutural na compreensão do que gera valor em um mundo que exige transparência, propósito e conexão genuína.

Pense na sua cidade, no seu projeto, na sua marca. Você está investindo no próximo espetáculo, ou na construção de um legado para os lugares e as pessoas?

Promptable Places: a nova fronteira para cidades e regiões na era da inteligência artificial

Tela de um smartphone mostrando ícones de aplicativos de inteligência artificial, incluindo Character.AI, Copilot, Claude, Perplexity, Gemini, ChatGPT e DeepSeek

Quantas decisões sobre a experiência urbana são tomadas a partir de uma conversa com a inteligência artificial? Seja para planejar uma viagem, pesquisar um bairro para morar ou pedir recomendações sobre um novo restaurante, as pessoas recorrem — cada vez mais — às IAs generativas: ChatGPT, Copilot, DeepSeek e tantas outras que sugerem, comparam, descrevem e até recomendam “esse” ou “aquele” destino, em questão de segundos.  

Mas aqui está o ponto crucial: quando as IAs são perguntadas sobre um lugar, o que elas retornam? Uma resposta precisa, assertiva e nuançada? Ou um retrato genérico, por vezes desatualizado, que perpetua clichês, reforça estereótipos e frequentemente fornece informações erradas? 

Se você abrir uma aba nova no navegador e fizer uma consulta agora sobre o seu lugar, meu palpite é que cairá na segunda opção. 

Ok, vou ser sincero. Na verdade, não é um palpite. É uma constatação interna do nosso time da Urbanscope, que nos levou a uma conclusão ainda mais importante e urgente para cidades e regiões de todos os tamanhos: a necessidade de se tornarem Promptable Places. 

Neste artigo, vamos mostrar o que é essa nova competência e por que ela está se tornando fundamental e urgente na agenda urbana.

O que são “Promptable Places”? 

Falamos da urgência, mas o que realmente é um Promptable Place? Em linhas gerais, entendemos que um lugar é “Promptable” ou promptável” quanto mais ele for capaz de ser compreendido, descrito e representado de maneira fiel por IAs generativas.  

Se você fez a consulta ao ChatGPT e ele soube responder a população exata ou citar os 5 principais pontos turísticos da sua cidade, não se empolgue; é o mínimo. Não estamos falando disso. 

A virada de chave é bastante simples: se as pessoas quiserem apenas obter a informação de maneira objetiva e passiva, continuarão utilizando o Google e as redes sociais para realizar suas buscas rotineiras de sempre. Contudo, a promessa e a performance das IAs generativas (gostando ou desconfiando delas, o que é um outro debate) estão conduzindo a experiência digital para um novo nível, que conecta a curiosidade do usuário a respostas hiper personalizadas, diálogos abertos e possibilidade de descobertas inesperadas. 

O mundo bem Black Mirror

O que está em jogo não é mais apenas ter estratégias de promoção digital de um destino através de branded content ou tráfego orgânico e pago, por mais bem definidas que sejam. Estamos falando sobre uma nova possibilidade de comunicar um lugar através do seu pertencimento, história, oportunidades e aspirações.  

E se isso parece Black Mirror demais para você, bem, preciso lhe dizer que esse trem já partiu e estamos na era onde a primeira impressão – e, em muitos casos, a decisão final também – sobre inúmeros aspectos da vida cotidiana é influenciada (para dizer o mínimo) pelo “juízo” das máquinas, isto é, pelos algoritmos. 

Neste cenário, tornar-se “promptável” não será modismo passageiro, mas a nova fronteira da estratégia de posicionamento dos lugares. Condicionar a geração de respostas sobre um lugar com base em sua essência, identidade cultural e oportunidades únicas — aquilo que chamamos por aqui de singularidade — é garantir que as IAs generativas ajudem a construir e compartilhar uma percepção autêntica sobre a sua cidade ou região. 

Cartaz em superfície enferrujada com mensagens irônicas sobre inteligência artificial, incluindo o texto: 'Hello and welcome, I am an artificial intelligence. I wish I have some real intelligence & empathy like real people do. And funny? Forget about it.' acompanhado de ilustrações de um robô e o logotipo 'AI' em rosa.
Fonte: Unsplash 

Por que a “promptabilidade” importa agora?

Se você entendeu o conceito, talvez esteja se perguntando: por que isso deveria ser uma prioridade? Por que essa palavra estranha não é uma moda, mas uma questão urgente?  

Vamos aos dados: 

A IA é o novo filtro de confiança em massa

Segundo uma pesquisa da Zendesk, 68% dos consumidores globais têm maior probabilidade de interagir e confiar em IAs generativas “humanizadas”. Considerando que a reputação de um lugar pode ser formada ou destruída na velocidade de um prompt, certamente é difícil controlar a primeira impressão, mas é possível influenciar como a IA responde sobre um lugar.  

Narrativas genéricas têm um custo (alto)

Um estudo da Adobe com 3 mil pessoas revelou que 72% dos entrevistados acreditam que, por mais poderosa que seja, a IA generativa nunca igualará a criatividade humana. Quem usa ferramentas como o ChatGPT sabe: elas repetem padrões de respostas genéricas como ninguém. Ou seja, quanto menos “promptável” o lugar, maior o risco de respostas rasas, mal interpretadas ou cheias de estereótipos. Genericidade gera ruído, e ruído custa caro. 

Nossa tomada de decisão é cada vez mais algorítmica

Um levantamento da consultoria Bain & Company apontou que 80% dos usuários de internet já usam textos de IA em pelo menos 40% de suas buscas no Google, o que representa uma queda de 25% no tráfego orgânico. De restaurantes a pontos turísticos, as escolhas e sugestões são moldadas cada vez mais por máquinas, em vez de humanos. Neste caso, convém perguntar: quem está definindo a narrativa do seu lugar hoje, a sua estratégia de posicionamento ou dados aleatórios que a IA encontra na internet? 

O impacto é exponencial e difícil de reverter

O tradicional relatório anual de tendências da Accenture revelou que 62% dos consumidores globais priorizam confiança ao interagir com marcas — justamente no momento onde conteúdos gerados por IA inundam redes e buscas. O problema? Uma visão superficial ou distorcida criada por IA não se limita a uma resposta: ela se multiplica, viraliza e cria uma narrativa negativa que pode ser impossível de corrigir. Quando a autenticidade é questionada, remediar o estrago talvez não seja uma opção disponível.

Pessoa digitando em um laptop aberto na página inicial do ChatGPT, exibindo a pergunta 'What can I help with?' em modo escuro.
Fonte: Unsplash

Os cinco pilares de um promptable place

A promptabilidade é crucial. Mas como, na prática, um lugar se torna mais “perguntável” de forma autêntica pela IA? Embora não exista fórmula mágica, identificamos cinco pilares fundamentais que sustentam essa capacidade:

Posicionamento de marca-lugar

Quem é você na fila do pão? Qual é a singularidade do seu lugar? Por que ele é único no mundo? Isso precisa estar claro, bem definido e, acima de tudo, acessível. Não adianta ter uma história incrível se você a mantém em documentos arquivados ou, pior, se poucos a conhecem e ninguém a toma para si. A narrativa local precisa ser viva, fácil de encontrar e contada de forma que tanto humanos quanto algoritmos consigam entender. Sem uma estratégia de posicionamento à prova de futuro, as partes não se conectam.

A informação é rainha, mas precisa ser confiável e processável

IAs generativas como o ChatGPT se alimentam de dados abertos e disponíveis publicamente. Se os dados sobre o seu lugar são desatualizados, incompletos, escondidos em PDFs não pesquisáveis ou simplesmente incorretos, adivinha o que a IA vai retornar para um potencial visitante, morador ou investidor? A qualidade e a acessibilidade da informação são a espinha dorsal da promptabilidade.

As versões da sua história precisam “bater”

Pouco adianta ter um novo logotipo, ou comunicação alinhada nas redes sociais se as avaliações no Trip Advisor, os posts de influenciadores, as notícias na mídia local e os comentários de moradores e turistas no Instagram contam histórias diferentes. A IA cruza informações de múltiplas fontes que, se forem inconsistentes, geram confusão na interpretação da máquina e diluem a mensagem. O posicionamento de marca-lugar precisa ecoar em todos os canais onde ele é requerido.  

Ser promptável não é ser simplista

Lugares são complexos e cheios de camadas, histórias, interesses e sentimentos. Mas a IA, por padrão, sempre tende ao genérico. O desafio está em “ensinar” ou “mostrar” a singularidade. Quanto mais camadas de senso de pertencimento você fornecer, menor será a chance de uma resposta superficial. 

Lugares mudam o tempo todo (e a IA precisa saber disso)

Sua cidade inaugurou um novo parque tecnológico? Recebeu uma chancela da UNESCO? As métricas de atração de talento estão em alta? Conte isso para o mundo, exaustivamente. Ser promptável também significa refletir essa evolução e não deixar a IA ficar presa a uma foto antiga do lugar. 

Importante: não se trata de um checklist, mas de áreas de atuação estratégica que exigem atenção contínua. Assim como a gestão de marca-lugar, a promptabilidade é um processo ininterrupto, não um projeto com data para acabar.

Seu lugar está pronto para ser promptável?

A forma como descobrimos, percebemos e escolhemos lugares está sendo radicalmente transformada pela inteligência artificial. Não é mais uma questão de “se”, nem de “quando”, mas de “como” a IA se tornará a principal porta de entrada para a experiência urbana. Ignorar essa realidade não é uma opção. 

Cidades, regiões e destinos que agirem agora para garantir que os algoritmos representem fielmente sua identidade e oportunidades sairão na frente. Ao construir ativamente sua reputação na nova economia da atenção, esses locais atrairão investimentos, talentos e visitantes alinhados com sua verdadeira essência.

Tornar-se um Promptable Place exige visão de futuro, estratégia adaptativa e olhar atento aos cinco pilares. De narrativas claras a dados confiáveis, escaláveis e atualizáveis, o trabalho é contínuo – mas a recompensa também. 

O futuro da percepção e procura da sua cidade está sendo escrito agora, por prompts e respostas de IAs generativas. Mas o seu lugar está preparado para ser não apenas encontrado, como verdadeiramente compreendido e representado pela inteligência artificial?

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Entre em contato.

Cristo não é a salvação: reflexões sobre marcas-lugar

Imagem do rosto do cristo redentor no rio de janeiro

O município gaúcho de Encantado, que recentemente inaugurou uma estátua de Cristo, maior que a do Rio de Janeiro, acredita que a grandiosidade da obra atrairá turistas e impulsionará a economia local. Exemplos como esse não são incomuns mundo afora. Durante muito anos acreditou-se que os marcos simbólicos, que vão de estátuas à arquitetura de “grife” seriam suficientes para transformar um lugar não só em um destino, mas como em uma “marca-lugar”.

A inauguração de um marco físico atrai público e mídia, mas é um erro acreditar que o ‘hardware’ transforme um lugar por si só. Há tempos reforço que o fortalecimento de um destino exige três dimensões essenciais. Para ser desejado e memorável, um lugar precisa ir muito além de monumentos imponentes.

O que é marca-lugar?

O place branding, expertise responsável pela criação de marcas-lugar, envolve uma série de práticas e estratégias para identificar, comunicar e reforçar a identidade única de uma cidade, região ou país. Ao contrário do que muitos pensam, ela não se resume a um logotipo, um slogan ou a uma grande obra arquitetônica. A gestão de uma marca-lugar deve ser centrada na essência da cidade e em sua singularidade. Só então conectamos esses atributos aos desejos dos públicos prioritários. Essa singularidade é o coração da marca: o sentimento, a ideia e o ideal que o lugar é capaz de promover e entregar. Há muito tempo uma marca deixou de ser simplesmente uma promessa, e se transformou na entrega dessa promessa. É preciso falar e influenciar, mas principalmente, é preciso fazer.

Hardware, software e peopleware

Se uma marca-lugar é muito mais do que seus elementos construídos e atributos físicos, o que mais a compõe? No meu primeiro livro, “Place Branding” de quase dez anos atrás, abordo os lugares através de três dimensões fundamentais: Hardware, Software e Peopleware.

  1. Hardware: Refere-se às estruturas físicas – prédios, monumentos, parques, estradas, museus etc. Sem dúvida, o hardware é essencial para oferecer condições básicas de funcionamento e até para atrair um primeiro olhar de curiosos e visitantes.
  2. Software: Diz respeito ao que faz a cidade “acontecer”, suas atividades, sua programação de eventos, o uso ativo dos espaços públicos e, em última instância, as políticas e programas que ativam a cidade.
  3. Peopleware: É o fator humano que determina se a experiência de visita será marcante ou não. Esse conceito engloba a cultura local, o acolhimento, a hospitalidade. Sem as pessoas e suas histórias, nenhum monumento – por mais grandioso que seja – consegue criar uma identidade forte.

Um Hardware bem-feito, resumido a um monumento, pode até se transformar em um cartão postal, porém sem uma estratégia de desenvolvimento humano e cultural (o “peopleware”) e uma visão viva, ativa e integrada (o “software”), esse monumento corre o risco de se tornar apenas um fundo para fotos, sem reter os visitantes por tempo suficiente a ponto de impactar a economia local.

Exemplos que confirmam essa visão

Cidades de todo o mundo já investiram fortunas em projetos arquitetônicos ambiciosos que, depois de inaugurados, se tornaram verdadeiros “elefantes brancos” por falta de estratégias de uso, programação cultural ou articulação com a comunidade. No contexto brasileiro, há casos de cidades que construíram grandes estádios ou centros de convenção esperando atrair visitantes e fomentar o desenvolvimento. Contudo, muitos desses locais enfrentam dificuldades em se manter ao longo dos anos justamente por não terem estabelecido parcerias sólidas, calendários de eventos contínuos e uma identidade capaz de despertar o desejo de retorno. Ou seja, é preciso pensar o software antes do hardware.

Não são poucos os exemplos de lugares que se transformaram em pontos de atratividade sem serem pensados para isso originalmente, ou seja, passaram por uma ocupação espontânea (ou não), mas o fato é que se tornaram mais atrativos do que o projeto original reservava para eles. Beco do Batman em São Paulo, Tempelhof Field em Berlim, High Line em Nova Iorque, Feira do Largo da Ordem em Curitiba… exemplos não faltam para, em maior ou menor escala, provar o ponto de que o que acontece é tão, ou mais, importante do que onde acontece.

Um homem anda de longboard em uma pista de asfalto, sendo impulsionado por um pequeno paraquedas de tração com listras vermelhas, brancas e pretas. Ele usa capacete verde, mochila e roupas de frio. À esquerda da imagem, uma mulher empurra um carrinho de bebê, vestida com casaco preto e capuz. O cenário ao fundo mostra uma área aberta com grama e construções distantes sob um céu nublado.

Marca-lugar e identidade viva

Sempre reforço a ideia de que o desenvolvimento de uma marca-lugar forte depende de um alinhamento contínuo entre o que a cidade é, o que ela diz que é e o que as pessoas efetivamente experimentam ali. Dizer que uma cidade é acolhedora, inovadora ou culturalmente rica precisa corresponder a experiências reais para o visitante. Caso contrário, cria-se um descompasso que, no longo prazo, prejudica a reputação e a credibilidade do lugar criando um sentimento ainda pior que o desconhecimento, a frustração.

Nesse sentido, a inauguração de um monumento gigante pode servir como ponto de partida para colocar a cidade no mapa do turismo. Porém, sem boas práticas de governança, sem serviços de qualidade (hotéis, restaurantes, transporte, segurança) e, principalmente, sem a participação ativa da comunidade local a estátua dificilmente se converterá em um ícone de um destino relevante e amado.

Turistas do mundo todo são cada vez mais guiados pela autenticidade, um único “landmark” é facilmente superado por uma experiência mais ampla e autêntica. Por isso, a gastronomia local, uma história bem contada, uma comunidade hospitaleira e a possibilidade de interagir com a cultura local são importantes.

Planejamento e participação da comunidade

Um dos pontos que sempre destaco é a necessidade de planejamento participativo. Quando a comunidade local se sente parte da construção da marca-lugar, o impacto é visível. Ela passa a cuidar melhor do patrimônio, recebe bem os visitantes e desenvolve produtos ligados aos saberes locais. Em contrapartida, iniciativas impositivas falham por ignorar a população. O risco é criar algo artificial, sem conexão real com a história e a cultura da região.

Ou seja, a comunidade é essencial ao processo de construção de uma marca-lugar, não só como fonte primária de informação, mas principalmente como, termo que meio que saiu de moda, embaixadores do lugar. É preciso que a comunidade entenda realmente a sua função nesse ecossistema e o quanto ele depende e retorna para ela. Para isso, transparência nos processos de governança também é um item essencial que caminha lado-a-lado com o engajamento da comunidade.

Ao apostar em monumentos e ignorar a participação local, as cidades afastam moradores de visitantes. Esse distanciamento compromete a qualidade da experiência turística e impede que o destino se firme, de fato, na memória do público.

Marca-lugar forte

Para que um lugar se torne uma marca-lugar forte, não basta investir em grandes estruturas físicas. É fundamental integrar o ‘software’ e o ‘peopleware’ ao ‘hardware’. Juntas, essas dimensões criam experiências acolhedoras e autênticas. Um monumento pode ser a centelha de uma transformação positiva, mas apenas se estiver aliado a uma estratégia sistêmica que valorize a história e coloque as pessoas no centro do processo.

Portanto, quando uma cidade inaugura uma estátua de Cristo, maior que a do Rio, ela pode até chamar a atenção em um primeiro momento. Sem esforço coletivo para gerar experiências e pertencimento, o monumento corre o risco de ser apenas mais uma ‘selfie’ no roteiro. O impacto no desenvolvimento local é nulo e a marca-lugar não se fortalece. O verdadeiro desafio é criar conexões humanas que despertem o desejo de voltar no visitante e o orgulho de pertencer no morador.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

A Política da boa vizinhança 

Vista externa noturna de um prédio residencial com janelas de vidro iluminadas, mostrando detalhes da vida cotidiana em diversos apartamentos.

O que é ser um bom vizinho? 

Seria a disposição de ajudar um vizinho contando com a reciprocidade no futuro, ou quem sabe salvar um desconhecido de um perrengue inesperado? Ou, talvez, resuma-se apenas em ser educado e discreto o suficiente para passar despercebido. Ou é ser aquele vizinho tão presente que já faz parte da família? 

Muitas são as atitudes que podem qualificar o que é ser um bom vizinho, mas uma regra com certeza é premissa para todas elas: na política da boa vizinhança, quem chega depois respeita quem veio primeiro. 

1. OXXO, O VIZINHO DE TODOS NÓS 

Loja de conveniência OXXO iluminada durante a noite, com destaque para o letreiro vermelho e branco e uma promoção de água mineral 2x$26 no topo da entrada.

Resolvi trazer neste artigo a reflexão sobre um vizinho um tanto espalhafatoso, polêmico e onipresente em vários bairros da cidade, pelo menos para quem mora no estado de São Paulo. 

A rede mexicana OXXO desembarcou no Brasil em 2020 e, neste ano, completa cinco anos de operação no país com um crescimento expressivo. 

Foi assim: de um dia para o outro, piscamos os olhos e a paisagem das nossas esquinas mudou. As fachadas vermelhas e amarelas alardearam: “Oi, somos seus novos vizinhos e somos muitos.” Não faltaram memes reforçando a mudança na paisagem. 

Meme humorístico com pintura clássica editada. Um alienígena com o logo da loja OXXO na cabeça é segurado por uma figura feminina, com os dizeres: “Meu Deus, uma esquina. Me solta que eu vou inaugurar”.

Desde a inauguração da primeira unidade em Campinas, no interior paulista, a marca expandiu numa velocidade quase que exponencial, com uma média de uma loja a cada dois dias.  

São 600 lojas espalhadas pelo estado de São Paulo, incluindo a capital, o interior e a Baixada Santista. O modelo de negócio, baseado em se fixar em lugares de grande concentração e fluxo de pessoas, começou com o marketing “aberto 24 horas por dia”, mas recentemente mudou a estratégia e, segundo os estrategistas de marketing, decidiu aproximar a marca da sua vizinhança.

A ideia de explicar a pronúncia “Ó quis sô” e aproximar a marca do dia a dia da vizinhança é boa, mas estratégias à parte, qual é o real impacto da proliferação de “Ó quis sôs” pelos bairros de São Paulo? 

Podemos elencar alguns dos principais: 

  • Fechamento de pequenos comércios: A concorrência com a OXXO pode levar ao fechamento de vendinhas e mercadinhos de bairro, que não conseguem competir com a estrutura e os preços da rede. No México, estimativas indicam que, a cada loja OXXO aberta, entre cinco e sete pequenos comércios fecham. 
  • Monocultura comercial e perda de identidade local: O crescimento massivo da OXXO pode levar à padronização do comércio, reduzindo a diversidade e descaracterizando bairros que antes tinham estabelecimentos únicos e familiares. 
  • Concorrência desleal: A OXXO se beneficia de poder de compra e logística eficiente, garantindo preços mais baixos e estoque variado, algo que pequenos comerciantes não conseguem igualar. Além disso, existem questionamentos sobre possíveis benefícios fiscais e subsídios que facilitam a rápida expansão da rede. 
  • Evasão de renda da comunidade: Diferente das vendinhas de bairro, que reinvestem o dinheiro localmente, a OXXO faz parte de um grande conglomerado (FEMSA), e o lucro gerado é direcionado para fora das comunidades onde opera. 
  • Impacto nas relações sociais: Os mercadinhos de bairro geralmente estabelecem laços com a vizinhança, oferecendo fiado, atendimento personalizado e um senso de comunidade. Com a substituição por lojas padronizadas e impessoais, essa dinâmica social é, sem dúvida, enfraquecida. 
  • Precarização das condições de trabalho: Relatos indicam que a OXXO opera com equipes reduzidas, exigindo que poucos funcionários desempenhem múltiplas funções, como caixa, reposição de estoque e limpeza. Além disso, há denúncias sobre baixos salários, alta rotatividade e falta de benefícios comparáveis aos de supermercados maiores, o que pode resultar em sobrecarga e instabilidade para os trabalhadores.

2. PODERIA SER BEM DIFERENTE

Recentemente, escrevi um artigo sobre o pacote da hospitalidade japonesa e citei as Konbinis, as famosas lojas de conveniência.

Sem dúvida, elas são um guia prático de como a hospitalidade, a valorização da identidade local e a preservação da cultura do país podem se manifestar numa cidade. 

Se traçarmos um paralelo com a rede OXXO, podemos perceber de maneira bem clara o quanto elas, apesar de serem entendidas como lojas de conveniência, são completamente distintas. Isso fica claro no primeiro segundo em que entramos em cada uma delas. Nos “Ó quis sôs” da vida, o que encontramos são produtos genéricos de qualidade duvidosa e, o pior, por um preço igualável a qualquer hipermercado. Como diria minha mãe: “…que vantagem Maria leva?”. Trata-se puramente de uma relação de necessidade de emergência X presença física. Poderia ser o OXXO, poderia ser um posto de combustíveis, poderia ser uma vending machine, ou seja, a relação de vizinhança no sentido afetivo da palavra não existe. É só uma questão de praticidade momentânea, não há nenhum laço estabelecido. 

3. VITALIDADE COMUNITÁRIA 

O comércio local desempenha um papel fundamental na vitalidade comunitária, influenciando diretamente a economia, a identidade cultural e a coesão social de uma região. Aqui na consultoria, tratamos esse tema como uma das 12 dimensões da cidade antifrágil. Falar de priorizar o comércio local é falar de: 

  • Fortalecimento da economia local: As vendinhas, padarias, quitandas, mercadinhos, empórios do bairro geram ganhos para toda a comunidade, contribuindo para a circulação de dinheiro dentro da região e estimulando o desenvolvimento econômico sustentável. 
  • Preservação da identidade cultural: O comércio local é um pilar para o fortalecimento da identidade comunitária. Ao apoiar negócios locais, os consumidores contribuem para a preservação das tradições, culturas e valores que definem a comunidade. Esses comércios oferecem produtos e serviços que refletem as particularidades regionais, diferenciando a comunidade de outras e fortalecendo o senso de pertencimento e coesão social. 
  • Criação de empregos e melhoria da qualidade de vida: Apoiar o comércio local é mais do que uma prática econômica; é um investimento na saúde e prosperidade da comunidade. Negócios locais são responsáveis por uma parcela significativa dos empregos formais, contribuindo para a redução do desemprego e melhoria da qualidade de vida dos moradores. 
  • Estímulo à inovação e sustentabilidade: Comerciantes locais, devido ao seu conhecimento íntimo da comunidade, são mais adaptáveis às necessidades específicas dos clientes. Essa proximidade permite a oferta de produtos e serviços inovadores e personalizados. A valorização do comércio local também promove práticas sustentáveis. Ao reduzir a necessidade de transporte de longa distância, o consumo regional diminui a pegada de carbono.
  • Fortalecimento do senso de pertencimento: Comerciantes locais frequentemente participam ativamente de eventos comunitários e contribuem para o fortalecimento dos laços e da convivência social. A presença de feiras livres, por exemplo, mantém viva a relação humana direta, essencial para a construção de uma comunidade unida e resiliente. 

Em síntese, o comércio local é uma das ferramentas mais poderosas para a saúde e vitalidade de uma comunidade. Ele impulsiona a economia, preserva a cultura, cria empregos, estimula a inovação e fortalece os laços sociais.

A divisão entre expansão e saudação

Na pandemia, os pequenos comércios foram duramente afetados por não estarem preparados e equipados tecnologicamente para tempos de distanciamento compulsório. Muitos não aguentaram e tiveram que fechar as portas. Mas, por outro lado, os que resistiram tiveram um papel fundamental. Esses sim foram nossos verdadeiros vizinhos: nos acolheram, nos acalentaram e nos possibilitaram o exercício mínimo do senso de comunidade em tempos tão difíceis. 

O OXXO que me perdoe, mas nada substitui uma saudação calorosa do tipo: “Dona Mariane, seu cereal preferido chegou, tá separado aqui!” 

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Futuros das cidades e as mudanças climáticas: o impacto da retirada dos EUA do Acordo de Paris

Homem de terno escuro e gravata vermelha, sentado na mesa presidencial do Salão Oval da Casa Branca, com os braços cruzados e expressão séria. Ao fundo, cortinas douradas, a bandeira dos Estados Unidos e o selo presidencial.

Em janeiro de 2025, Trump anunciou novamente a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, repetindo sua decisão de 2020, revertida por Biden após 77 dias. A nova retirada tem um grande impacto global. Sendo os EUA uma das maiores economias do mundo e um dos principais emissores de gases de efeito estufa (GEE), a decisão representa um retrocesso significativo nos esforços internacionais para conter a crise climática e impacta diretamente o futuro das cidades, uma vez que agrava problemas urbanos derivados das mudanças climáticas. 

Trump adota uma postura negacionista em relação às mudanças climáticas e acredita que o Acordo de Paris prejudica a economia dos EUA. Ele demonstra pouca preocupação com o aquecimento global, o que se reflete em sua política energética, fortemente baseada em fontes não renováveis, especialmente o petróleo. 

Sua abordagem traça um caminho para os EUA que vai na contramão da crescente preocupação global com a agenda ambiental. Os impactos das mudanças climáticas já são cada vez mais evidentes, manifestando-se em ondas de calor, chuvas intensas, enchentes e queimadas. 

O Acordo de Paris é um tratado internacional adotado em 2015 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), em Paris, com o objetivo de combater as mudanças climáticas. Ele foi assinado por quase todos os países do mundo e representa um compromisso global para limitar o aumento da temperatura média do planeta bem abaixo de 2°C, preferencialmente 1,5°C, em relação aos níveis pré-industriais. 

O que é COP?

A Conferência das Partes (COP) é o principal evento global sobre mudanças climáticas, realizado anualmente sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Durante a COP, líderes mundiais, cientistas, ONGs e o setor privado discutem estratégias e acordos para combater a crise climática.

A próxima COP 30 será realizada no Brasil, na cidade de Belém, em 2025. Essa escolha tem grande relevância porque: 

  • Amazônia como epicentro climático: desempenha papel crucial na regulação climática global e na absorção de carbono.
  • Pressão para políticas de conservação: reforça a necessidade de medidas mais eficazes para proteger a Amazônia e combater o desmatamento.
  • Visibilidade internacional: destaca o Brasil nas discussões ambientais, impulsionando políticas públicas e investimentos em sustentabilidade. 

Mas por que o Acordo de Paris é importante?

  • Reduz o impacto das mudanças climáticas: busca mitigar efeitos do aquecimento global, como secas, tempestades, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade. 
  • Estabelece metas claras de redução de emissões: os países signatários devem apresentar Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), revisadas a cada cinco anos. Durante a COP 30, os países devem apresentar suas NDCs atualizadas. 
  • Fomenta o financiamento climático: prevê US$ 100 bilhões anuais para ajudar países em desenvolvimento a implementar políticas climáticas e desenvolver economias sustentáveis. 
  • Promove a transição para energias limpas: incentiva investimentos em energias renováveis, eficiência energética e tecnologias sustentáveis. 
  • Garante cooperação global: é um compromisso coletivo de quase todos os países, promovendo esforços conjuntos para reduzir emissões. 
  • Pressiona governos e empresas a agir: influencia políticas públicas e práticas empresariais, incentivando a adoção de estratégias sustentáveis e inovações ecológicas. 

Importante: o acordo não impõe obrigações, sendo responsabilidade de cada país estruturar suas políticas públicas para cumprir as NDCs acordadas.

​​Relatório da Lacuna de Emissões do PNUMA 

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal autoridade ambiental da ONU. Desde 2010, anualmente lança um documento sobre as emissões de GEE no globo. Suas análises foram essenciais para embasar as negociações internacionais que culminaram no Acordo de Paris durante a COP21

Atualmente analisa a diferença entre as emissões globais de GEE e as metas estabelecidas no Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5°C ou 2°C.  

O relatório de 2024 destaca que as emissões continuam em ascensão, colocando em risco as metas do acordo. Para limitar o aquecimento a 1,5°C, seria necessária uma redução de 42% até 2030 e 57% até 2035. Abaixo é destacado os principais emissores de gases de efeito estufa: 

Tabela que destaca os principais emissores de gases de efeito estufa
Fonte: PNUMA, 2024 

Apesar de alguns países terem reduzido suas emissões, os níveis globais ainda são elevados, podendo resultar em um aquecimento de até 3,1°C até o fim do século, com impactos devastadores, como ondas de calor extremas, aumento do nível do mar, secas severas e crises econômicas e ambientais. O relatório reforça a urgência de medidas mais ambiciosas para evitar danos irreversíveis. 

Então qual o impacto da saída dos EUA do Acordo de Paris?  

Sendo o segundo maior emissor de GEE do mundo, sua saída reduz a pressão internacional por cortes de emissões, enfraquecendo ainda mais os esforços globais de mitigação climática, especialmente porque o Acordo de Paris é um compromisso voluntário, não uma obrigação.  

Isso pode ampliar a lacuna de emissões e dificultar ainda mais o alcance das metas climáticas estabelecidas. Ainda mais, com os EUA planejando intensificar os investimentos em fontes de energia não renováveis nos próximos anos, aumentando ainda mais as emissões de GEE. 

Diante da incerteza global e do agravamento das mudanças climáticas, torna-se cada dia mais indispensável pensar em cidades e territórios à prova de futuros. 

Como as cidades podem e devem agir? 

O impacto das mudanças climáticas já é visível em muitas cidades brasileiras, e a tendência é que esse cenário se agrave ainda mais, dado os rumos globais que o problema vem tomando, como a saída dos EUA do Acordo de Paris.  

Um exemplo recente é Voçoroca, no Maranhão, que decretou estado de calamidade pública devido ao avanço da erosão, ameaçando mais de 1.200 pessoas. Da mesma forma, as enchentes no Rio Grande do Sul e as ondas de calor recordes destacam a necessidade urgente de adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos. Esses casos evidenciam como a falta de planejamento territorial e de infraestrutura resiliente pode agravar os impactos climáticos e colocar comunidades inteiras em risco. 

Imagem aérea mostra uma enorme cratera de erosão próxima a um bairro residencial com casas de telhado vermelho, evidenciando o risco geológico iminente para a comunidade.
Credito: www.folhape.com.br

Para enfrentar esses desafios, o primeiro passo é compreender como a rede de espaços públicos das cidades está ajudando ou Para enfrentar esses desafios, o primeiro passo é compreender como a rede de espaços públicos das cidades está ajudando ou piorando os impactos climáticos. Um exemplo inspirador vem de Andernach, na Alemanha, onde o espaço público foi transformado em uma cidade comestível, promovendo segurança alimentar e resiliência climática. Desde 2010, a cidade substituiu áreas verdes ornamentais por hortas e pomares acessíveis à população, reduzindo ilhas de calor, melhorando a permeabilidade do solo e tornando os espaços urbanos mais adaptáveis a eventos climáticos extremos. A iniciativa também fortalece a biodiversidade e incentiva a participação comunitária na gestão ambiental. 

Como podemos analisar se os espaços urbanos são à prova de futuros? 

Estamos desenvolvendo um documento com Critérios para Lugares à Prova de Futuro, que será disponibilizado ainda este ano, para auxiliar cidades na análise e adaptação de seus espaços urbanos. O documento parte de critérios urbanísticos e ambientais para analisar redes de espaços públicos e identificar deficiências, orientando cidades a avançarem em direção à antifragilidade. Um de seus eixos centrais é o de mudanças climáticas, que avalia como os espaços públicos podem promover resiliência e adaptação, uma vez que são peça-chave na mitigação dos impactos das mudanças climáticas. 

A ideia é não apenas diagnosticar, mas também demonstrar como os espaços públicos podem ser protagonistas na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, ajudando a construir territórios mais equilibrados, diversos e antifrágeis. 


Fontes:  
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (PNUMA). Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2024: Chega de calor… por favor! Nairobi: PNUMA, 2024. Disponível em: unep.org
Imagem1- Saul Loeb/AFP – Donald Trump 
Imagem2- Folha de Pernambuco.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Novo Centro Administrativo de SP: Lições para Lugares à Prova de Futuro

Renderização do projeto do novo Centro Administrativo de São Paulo, mostrando edifícios modernos cercados por áreas verdes com árvores e espaços abertos, inseridos no contexto urbano da cidade.

O governo do estado de São Paulo anunciou um ambicioso projeto estimado em R$ 5 bilhões para construir sua nova sede administrativa no Campos Elíseos, bairro central da capital paulista. O projeto promete não apenas revitalizar a região, como valorizá-la para atrair investimentos imobiliários no entorno e, assim, transformar a área em um novo polo no coração da cidade. 

Gostando ou não (para deixar claro: não gostamos), quando cidades de importância global como São Paulo lançam empreitadas desta proporção, muitos outros lugares observam e, frequentemente, aplicam soluções semelhantes sem o devido filtro de escala e conexão com sua realidade. Antes de qualquer coisa, projetos como este são uma oportunidade para refletir, em tempo real, sobre o que pode funcionar ou não na criação de lugares adaptáveis e à prova de futuro

Nesse contexto, é preciso questionar: o projeto do novo centro administrativo do governo paulista está preparando a cidade para lidar com as incertezas do amanhã ou apenas dando uma nova roupagem para abordagens ultrapassadas e incapazes de criar valor à longo prazo?

6 desafios cruciais para o projeto do novo Centro Administrativo de SP

Para responder a essa pergunta, calçamos as lentes da antifragilidade para analisar os aspectos fundamentais do projeto e identificamos seis pontos que merecem atenção especial: 

1. Falta de participação

O projeto, que prevê a remoção de 600 famílias, foi desenvolvidosem a participação ativa de moradores, comerciantes e entidades não só da área diretamente afetada como do seu entorno. A população local também não teve a oportunidade de dialogar de forma significativa com os agentes públicos responsáveis pela execução das remoções. 

Mesmo aqueles que conseguiram realizar o cadastro, não receberam garantias concretas de atendimento habitacional adequado, isto é, não sabem para onde vão, quando vão e em quais condições. Essa falta de transparência e participação são posturas que aumentam a insegurança jurídica dos atingidos e a desconfiança popular em relação ao projeto.

2. Impactos socioeconômicos

O governo planeja ocupar o Palácio dos Campos Elíseos, onde hoje funciona o Museu das Favelas, um equipamento simbólico e culturalmente relevante para cidade. O projeto também prevê uma esplanada para criar um “percurso desobstruído e convidativo” que exigirá a desativação do Terminal Urbano Princesa Isabel, por onde circulam 18 linhas de ônibus essenciais que conectam o centro da cidade a áreas mais afastadas. 

Na medida em que não está claro se o museu continuará aberto após a implementação do novo centro administrativo, nem quais serão as alternativas de operação das 18 linhas que passam pelo Terminal Princesa Isabel, é inevitável questionar se a valorização do projeto ocorrerá às custas de quem vive e circula no bairro.

3. Impactos imobiliários

Ao buscar “valorizar” a região, o projeto visa atrair maior interesse do setor imobiliário para a construção de novos empreendimentos habitacionais, voltados principalmente para a classe média. Na prática, essa nova oferta tende a elevar os valores de aluguéis residenciais e comerciais, tornando a permanência no bairro economicamente inviável para moradores de baixa renda e pequenos comerciantes que mantêm negócios na área e no entorno.  

Dessa forma, o processo de valorização pode acabar excluindo justamente aqueles que historicamente deram vida e identidade ao Campos Elíseos. Ou seja, a remoção não se limitará “apenas” às 600 famílias que residem nas quadras a serem desocupadas.

4. Sem retrofit

Projetos que promovem demolições em larga escala costumam fragmentar o território não apenas na paisagem e na arquitetura, mas também nos laços comunitários e sociais que sustentam a vida local. No caso do Campos Elíseos, existem diversos edifícios já construídos e integrados à malha urbana que poderiam ter sua infraestrutura adaptada para novos usos, reduzindo impactos ambientais, sociais e culturais. 

Em vez de derrubar casas para construir prédios, o foco poderia estar em promover um retrofit dos imóveis abandonados ou subutilizados que já fazem parte do tecido urbano da região. Além de preservar a memória local, essa abordagem fortaleceria a identidade do bairro, em vez de apagá-la em nome de um desenvolvimento que, conforme pontuado acima, pode excluir quem já pertence ao lugar.

5. Desconexão com o futuro do trabalho

Cada vez mais, as relações profissionais dispensam a necessidade de presença física em escritórios, acompanhando uma tendência global de expansão do trabalho remoto. Diante desse cenário, surge uma questão crucial: quantos dos 22 mil funcionários previstos para ocupar os novos prédios do centro administrativo permanecerão em regime 100% presencial nos próximos anos e décadas?

Além de correr o risco de nascer obsoleto frente às transformações no mundo do trabalho, o projeto pode contribuir para um novo esvaziamento da área em um futuro não tão distante. Investir em estruturas físicas massivas, sem considerar a flexibilidade e a mobilidade que o futuro exigirá, pode ser um passo em falso em um mundo que avança a passos largos rumo à desterritorialização.

6. Ausência de sustentabilidade

Uma das justificativas apresentadas para a construção da nova sede é a redução dos custos de manutenção dos imóveis que atualmente abrigam as funções administrativas do governo. Contudo, este argumento não considera os custos ambientais e econômicos da desativação das sedes atuais, nem os resíduos gerados pela demolição dos edifícios existentes na área do projeto e os impactos ambientais gerados pela construção civil em obras desta dimensão. 

A ausência de soluções sustentáveis e ambientalmente conscientes em um projeto para o centro de uma cidade já tão densamente ocupada e carente de iniciativas que equilibrem desenvolvimento e preservação ambiental, vai na contramão de um esforço global de cidades cada vez mais comprometidas em reduzir impactos, especialmente tendo em vista a mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

Da PPP aos 4Ps: três projetos que sinalizam que o futuro das cidades precisa de pessoas envolvidas

Frente a todas essas fragilidades, o projeto da nova sede administrativa perde a oportunidade de posicionar a cidade e o estado de São Paulo como modelos de adaptação aos movimentos de transformação urbana já em curso. Em diferentes partes do mundo, experiências atentas a eventos como as mudanças climáticas, os fluxos migratórios e a digitalização do trabalho – para citar apenas alguns dos mais conhecidos – têm respondido de forma assertiva aos desafios e sinais que o futuro já está emitindo para nós. 

O ponto em comum dessas respostas bem-sucedidas está na integração das pessoas aos processos. Cada vez mais, as populações urbanas desejam fazer parte de projetos que conectem inovação às suas necessidades e fortaleçam o senso de pertencimento.  

Em outras palavras, o modelo de parcerias público-privadas (PPP) já não é suficiente. É preciso adicionar um novo “P” a esse processo – o “P” de Pessoas. 

Os três cases a seguir ilustram como parcerias para a adaptação urbana podem ser lideradas tanto pelo público como pelo privado e, por que não, pelas pessoas também:  

Kensington Market Community Land Trust (Toronto, Canadá)

A história do bairro Campos Elíseos é semelhante à de bairros antigos em grandes cidades: uma trajetória de glamour, abandono e “revitalização”. Da sua criação pela elite cafeeira no século XIX à transformação em refúgio de trabalhadores e migrantes marginalizados, o bairro hoje flerta com a promessa de uma nova valorização, mesmo que isso custe o deslocamento forçado de quem habita e trabalha no bairro há muito tempo.  

Até alguns anos atrás, esta era a história e o destino de Kensington Market, bairro central de Toronto, mas a comunidade local encontrou uma rota alternativa através do modelo de Community Land Trust (CLT), conceito que foca na aquisição de terras doadas ou compradas por organizações comunitárias para atender às necessidades e prioridades dos moradores e comerciantes locais.  

Geridas por moradores, stakeholders e poder público, os CLTs colaboram diretamente com a comunidade para planejar e decidir o uso da terra, priorizando a garantia de habitação acessível, proteção da especulação imobiliária e manutenção da identidade local sem deslocar moradores e comerciantes. 

 Grupo de moradores em frente a um prédio no Kensington Market, Toronto, segurando uma faixa com os dizeres 'Community Owned Kensington', representando a iniciativa comunitária de preservação local.
FOTO: KENSINGTON MARKET COMMUNITY LAND TRUST 

Capital Europeia Verde (Nantes, França)

Enquanto muitas cidades lutam para conciliar crescimento econômico e sustentabilidade, Nantes emergiu como um modelo de transformação urbana verde através de um amplo programa de retrofit residencial. Com a missão de melhorar a eficiência energética de seu parque imobiliário envelhecido, a gestão municipal desenvolveu uma abordagem inovadora que combina tecnologia, inclusão social e participação comunitária. 

A estratégia previa retrofit em 3.500 residências, com foco em domicílios de baixa renda, através de uma plataforma que conecta proprietários, profissionais e autoridades. As intervenções incluem isolamento térmico, implementação de energias renováveis e sistemas de gestão energética inteligentes, e fazem parte de uma série de políticas ambientais que renderam à cidade o título de “capital europeia verde”.  

Ao priorizar a participação de moradores e oferecer financiamento acessível, Nantes demonstra como a gestão pública pode liderar projetos de grande escala de forma inclusiva, melhorando a qualidade de vida na cidade sem comprometer a permanência da população ou sua identidade arquitetônica. 

Casal andando de bicicleta ao longo do rio em Nantes, França, com esculturas circulares modernas ao fundo, representando o compromisso da cidade com sustentabilidade e espaços urbanos acessíveis
FOTO: LA CITÉ – NANTES 

Instituto Porto Seguro (Campos Elíseos, São Paulo)

A natureza das empresas que operam no mercado imobiliário é buscar o lucro acima de qualquer coisa, mas a Porto Seguro demonstrou que o setor privado também pode ser um agente de transformação urbana positiva. No coração do próprio bairro Campos Elíseos, a seguradora investiu na restauração de diversos imóveis, incluindo um casarão histórico de 1895, não apenas preservando o patrimônio arquitetônico, mas também criando espaços de convivência e cultura para a comunidade local. 

Muito além de um retrofit, o projeto inclui parcerias com organizações sociais e culturais. Juntas, elas ajudaram a transformar o espaço em um centro de atividades gratuitas para a população, como oficinas, exposições e eventos. Como resultado, a iniciativa não apenas recuperou edifícios históricos da cidade, mas também criou oportunidades de desenvolvimento social e econômico para os moradores do entorno.  

Uma prova de que se o objetivo é realmente valorizar o bairro, até mesmo o investimento privado pode contribuir sem demolir o patrimônio histórico e envolvendo a comunidade em vez de deslocá-la ou removê-la. 

Fachada de edifício histórico restaurado em Campos Elíseos, São Paulo, cercado por árvores e com prédios modernos ao fundo, destacando a preservação do patrimônio arquitetônico.
FOTO: BLOG DA PORTO SEGURO 

Lições do Novo Centro Administrativo de SP para pensar lugares à prova de futuro 

O novo centro administrativo do governo paulista revela um ponto importante. Mesmo com grandes investimentos, gestores ainda tomam decisões que se tornam obsoletas em pouco tempo. Isso ocorre, sobretudo, quando ignoram as reais necessidades das pessoas envolvidas. Além disso, muitas dessas escolhas desconsideram a urgência de tornar os lugares adaptáveis às transformações que, inevitavelmente, os futuros trarão. 

A chave reside em colocar as pessoas no centro do processo, conforme as experiências bem-sucedidas mundo afora confirmam. Lugares à prova de futuro e antifrágeis são construídos quando cada decisão é tomada de forma compartilhada e equilibrando necessidades imediatas com uma visão de longo prazo. 

Como projetos de transformação urbana podem fortalecer comunidades e identidades, em vez de deslocá-las ou apagá-las? Além disso, de que forma tecnologias emergentes e práticas sustentáveis podem se integrar à criação de espaços mais adaptativos? Mais importante do que encontrar respostas imediatas é aprender a conviver com essas perguntas e com muitas outras. A partir disso, a lição se torna clara: precisamos superar o pensamento linear tradicional e adotar uma visão de desenvolvimento verdadeiramente orientada para os futuros possíveis.

Artigo escrito em colaboração por Emannuel Costa e Camila Kato.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Explorando os Futuros dos Lugares: O Que é e Como Aplicar o Place Strategic Foresight© 

Uma paisagem futurista e iluminada ao anoitecer, destacando estruturas altas e brilhantes semelhantes a árvores artificiais com iluminação dourada e vermelha. Essas estruturas têm copas compostas por padrões geométricos e metálicos, lembrando uma fusão entre natureza e tecnologia. Ao fundo, vê-se um grande edifício moderno com um design icônico de três torres conectadas no topo por uma estrutura horizontal. O céu azul contrasta com a iluminação vibrante da cena urbana, criando uma atmosfera de inovação e arquitetura visionária.

Desde que o ser humano começou a sonhar com o amanhã, tentamos prever o que teremos pela frente. Das profecias dos oráculos gregos às simulações mais modernas com inteligência artificial, o futuro sempre nos fascinou e desafiou. Mas e se, em vez de tentar prever um único futuro (lembrando que o futuro não só é imprevisível como plural), pudéssemos explorar vários cenários e nos preparar para cada um deles? É aqui que entra o conceito de Place Strategic Foresight©.

O que é Place Strategic Foresight©?

Em linhas simples, o Place Strategic Foresight© é a aplicação do pensamento prospectivo(foresight) às cidades, regiões e países. Novamente, não se trata de previsão, e sim, de exploração, propondo ferramentas para imaginar futuros alternativos e criar estratégias para que os lugares não apenas sobrevivam, mas prosperem em diferentes cenários, ao mapear possibilidades e construir opcionalidades — soluções que garantam antifragilidade e adaptação a incertezas. 

Este conceito nasce da interseção entre três disciplinas: place branding, placemaking e strategic foresight. Enquanto o place branding foca em consolidar a identidade de um lugar e sua comunicação com o mundo, o placemaking cria experiências reais e tangíveis para as pessoas nos espaços-públicos/ coletivos. O strategic foresight adiciona a capacidade de pensar no longo prazo, explorando múltiplos futuros potenciais. Juntas, essas abordagens transformam a forma como entendemos os desafios e as oportunidades dos lugares.

De onde vem essa ideia?

O estudo dos futuros é antigo. Ele remonta às utopias do Renascimento e à Revolução Científica, mas ganhou fôlego no século XX, impulsionada por figuras como Gaston Berger e Alvin Toffler. No entanto, o Place Strategic Foresight© deriva do Futurismo Estratégico (Strategic Foresight), que surgiu como resposta às incertezas do mundo contemporâneo, marcado pelo conceito VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Ao aplicar essa ferramenta a lugares, criamos uma abordagem mais contextualizada e colaborativa.

Como funciona?

O Place Strategic Foresight© segue etapas bem definidas, começando pelo entendimento profundo do lugar — sua identidade, cultura, vocações e desafios atuais. Esse trabalho inicial, desenvolvido através do place branding, forma a base para os próximos passos. 

1. Mapeamento do ambiente incerto: Aqui, é feita uma coleta ampla de sinais fracos e fortes, tendências e incertezas que podem impactar o lugar. Sinais fracos são aqueles indícios iniciais de grandes transformações, enquanto sinais fortes já são mais evidentes e amplamente reconhecidos. 

2. Análise dos sinais: Os dados coletados são decantados, classificados e interpretados para identificar oportunidades e ameaças. 

3. Criação de cenários: São explorados diferentes futuros baseados nos sinais e tendências identificados. Esses cenários podem incluir desde futuros absurdos e improváveis até os plausíveis e preferíveis. 

4. Backcasting: Este processo inverte a lógica do planejamento tradicional. Em vez de partir do presente para o futuro, é feito um recuo dos futuros desejáveis até o presente, identificando os passos necessários para alcançá-los. 

5. Implementação de estratégias: Baseando-se nas visões criadas, são definidos fatores críticos de sucesso e planos de ação. Isso inclui opções flexíveis para lidar com as incertezas do caminho.

Conexões com Place Branding e Placemaking 

O Place Strategic Foresight© potencializa o place branding ao fornecer um arcabouço para projetar a identidade de um lugar não apenas com base no presente, mas também nos futuros potenciais. Por exemplo, ao identificar cenários preferíveis, é possível alinhar a narrativa de uma marca-lugar com as aspirações da comunidade e as tendências globais. Além disso, o foresight agrega maior resiliência ao place branding, preparando a marca-lugar para responder às dinâmicas imprevisíveis do mundo contemporâneo. 

No caso do placemaking, o Place Strategic Foresight© enriquece a criação de experiências tangíveis. A partir dos cenários projetados, é possível planejar lugares que não apenas atendam às demandas atuais, mas também sejam adaptáveis para as necessidades futuras. Por exemplo, um parque pode ser planejado para funcionar como espaço de lazer hoje e como refúgio climático em um cenário de aquecimento global. Assim, o foresight e o placemaking trabalham juntos para criar lugares que sejam relevantes, dinâmicos e preparados para vários futuros.

Benefícios para o setor público 

O Place Strategic Foresight oferece ferramentas poderosas para governos municipais, regionais e nacionais. Cidades podem antecipar demandas de infraestrutura, como habitações mais resilientes ou sistemas de transporte sustentáveis. Destinos turísticos, por sua vez, podem planejar experiências que alinhem atrativos naturais às expectativas do visitante contemporâneo. 

A participação comunitária é essencial nesse processo, garantindo que as soluções não apenas reflitam as prioridades dos governantes, mas também as aspirações da população.

Benefícios para empreendedores imobiliários

Para o mercado imobiliário, o Place Strategic Foresight© é uma ferramenta essencial na criação de bairros planejados. Em vez de construir com base apenas nas demandas atuais, os empreendedores podem projetar de forma a atender a futuras demandas de sustentabilidade, mobilidade e qualidade de vida.

O resultado da junção de place branding, placemaking e Place Strategic Foresight© é a criação de lugares “à prova de futuro”. 

Exemplos de impacto na prática 

  1. Regiões rurais em transformação: Ao usar Place Strategic Foresight©, é possível identificar formas de integrar tecnologias verdes para fortalecer economias locais e evitar a migração em massa. Isso também ajuda a preservar a identidade cultural dessas regiões. 
  1. Centros urbanos densos: A aplicação do P.S.F em megacidades pode orientar soluções para problemas de mobilidade e habitação, priorizando espaços verdes e edifícios multifuncionais. 
  1. Destinos turísticos inovadores: Um exemplo seria uma região que se posiciona como destino ecológico ao integrar práticas de turismo sustentável alinhadas a cenários futuros.

Uma abordagem essencial para o século XXI 

Em última análise, o Place Strategic Foresight© é sobre antifragilidade, mas também sobre aspiração. Ele nos ajuda a navegar as incertezas do presente com um olhar otimista e estruturado para o futuro, garantindo que lugares estejam prontos para os desafios e possam aproveitar as oportunidades que estão por vir.  

Pensar dessa forma, é adotar a incerteza como premissa projetual.

Pense no futuro como um leque de possibilidades — algumas assustadoras, outras empolgantes. O Place Strategic Foresight© nos oferece as ferramentas para explorar esse leque e moldar os lugares de acordo com os futuros que queremos ver e protegê-los daquilo que eles poderiam se tornar. 

Hospitalidade para além da simpatia como percepção da marca-lugar

Rua movimentada em Osaka, Japão, com a icônica Torre Tsutenkaku ao fundo, cercada por letreiros vibrantes em japonês, lojas tradicionais e restaurantes. O cenário colorido inclui estátuas e murais chamativos, enquanto pedestres caminham e exploram o ambiente urbano animado.

We don’t speak English

A frase escrita, em letra cursiva, na primeira página de um simpático restaurante em Osaka rendeu um jantar que harmonizou o umami da culinária japonesa com o que eu, pessoalmente, considero o principal ativo do país: a hospitalidade e portanto a marca do lugar.  

Osaka e o restaurante simpático 

Rua movimentada em Osaka, Japão, iluminada por letreiros neon vibrantes e fachadas coloridas de restaurantes e lojas. A cena noturna mostra pedestres caminhando, turistas tirando fotos e um ciclista passando, enquanto a icônica estátua dourada de Billiken e diversos elementos tradicionais japoneses decoram o ambiente.
Osaka, Japão

Era noite, 5 graus que passavam despercebidos diante do desejo de desvendar Osaka. Afinal, seriam só quatro dias para absorver toda a enxurrada de informações visuais, auditivas, culturais e por aí vai. 

Tinha sido um dia intenso. Eu, Caio e Luiza estávamos exaustos, porém totalmente entregues àquela instigante cidade. Caminhávamos aleatoriamente em direção ao hotel, com a missão de encontrar um lugar para comer e, finalmente, voltar para dar uma “morridinha” até o novo amanhecer. Foi então que nos deparamos com uma portinha e, do lado de fora, um cardápio num cavalete. Nos aproximamos e, num rápido passar de olhos, conseguimos identificar: tonkatsu, omelete… Perfeito! 

Entramos em um passo manso e ouvimos a típica saudação vinda de trás do balcão. No Japão, qualquer estabelecimento recebe quem entra com um sonoro “Irasshaimase” em uníssono. Mas, desta vez, apenas uma pessoa disse a frase. Ela atendia um único cliente sentado à sua frente. 

Fomos encaminhados para uma das duas mesas alojadas no fundo do restaurante e, enquanto tirávamos os casacos, já fomos fisgados pela névoa quente que exalava o cheiro de comida boa. 

O mesmo senhor que nos saudou nos trouxe a água (sempre cortesia em qualquer restaurante), as toalhinhas umedecidas para limpar as mãos e o cardápio. 

Hospitalidade in natura 

Cardápio artesanal de um restaurante japonês, feito com páginas de papel kraft plastificadas, contendo fotos dos pratos, descrições escritas à mão em diferentes idiomas e preços em ienes. As mãos de duas pessoas folheiam o cardápio, que apresenta opções como peixe cru fatiado e peixe cozido com acompanhamentos.

Ah, o cardápio… Esse me levou diretamente aos tempos de escola, quando colecionava papel de carta. Tínhamos uma pasta onde colávamos os papéis e seus envelopes em uma base de cartolina ou papel kraft, protegíamos com plástico e enfeitávamos com letras e desenhos coloridos. O cardápio era exatamente assim, mas, no lugar dos papéis de carta, estavam fotografias impressas de cada prato, com a descrição escrita à mão, em letras coloridas e enfeitadas. Logo na primeira página, uma frase se destacava do resto: We Don’t Speak English

A frase era quase um pedido de desculpas, e o que vinha a seguir (as fotos, os desenhos e todo o capricho) era uma forma de compensação pelo hipotético desconforto que nós, turistas, poderíamos sentir. 

Cidade turística não é sinônimo de hospitalidade

Agora convido vocês a um exercício (que fizemos ali naquela noite enquanto escolhíamos os pratos): se estivéssemos em Paris e pegássemos um cardápio com a mesma frase escrita, como ela seria interpretada? 

A conclusão é óbvia e seria validada pela primeira bufada do garçom ao esperar um de nós fazer o pedido. 

Isso nos faz refletir sobre a tal hospitalidade, tão propagada por diversas capitais e cidades turísticas. Toda cidade adora proclamar aos quatro ventos que é hospitaleira, mas de que hospitalidade estamos falando? E, principalmente, como ela se manifesta em cada lugar? Certamente não existe apenas um tipo de hospitalidade, e, certamente, existem cidades que definitivamente não são hospitaleiras, como é o caso da tão cobiçada Paris.

Hospitalidade singular

No Japão, a hospitalidade não está no sorriso escancarado, no abraço ou na simpatia exagerada. A hospitalidade está simplesmente em como a cidade funciona:  

  • Nas konbinis onipresentes, que te entregam tudo o que você precisa – de comida a um kit de higiene básico.  
  • Nos didáticos mockups de pratos na porta dos restaurantes, que acabam com a barreira da língua.  
  • Nos banheiros públicos que são mais dignos do que o da nossa própria casa.  
  • Na cultura desse povo

Pequenos gestos de grande impacto

Em qual capital do mundo um taxista correria o risco de parar o trânsito para avisar a turista distraída que seu gorro caiu no chão? A experiência foi tão impactante que, por alguns segundos, fiquei ali, segurando o gorro resgatado e pensando: isso é a marca desse lugar. 

Essas experiências positivas e autênticas contribuem por alavancar a indústria do turismo em números galopantes.  

Em março do ano passado o país bateu um record ao receber quase 3,1 milhões de visitantes, o maior número mensal desde o início dos registros, em 1964.  

O Japão nos deu uma aula prática de tudo o que sempre falamos aqui na consultoria: a marca de um lugar é o sentimento que temos em relação a ele, e esse sentimento é único, singular. 

Nos despedimos do Japão com a certeza de que o que vivemos lá só poderia – e só poderá – ser experimentado lá. 

P.S.: Passei a viagem inteira procurando um letreiro gigante com um I Love Tóquio, mas não achei… 

Foto de capa: Caio Esteves.