Cidade Antifrágil: liberdade, opcionalidade e identidade

Perspectiva arquitetônica de parque urbano com vias para pedestres, ciclovia, passagem elevada e rotatória central gramada.

Quando ouvimos e lemos sobre cidades do futuro, constantemente nos deparamos com o termo cidades inteligentes, ou na sua versão mais comercial, smart cities. Muitos imaginam que a inteligência das cidades tem conexão direta com o seu futuro, ou melhor, que o futuro das cidades está ligado à inteligência embarcada nelas, e que essa inteligência está relacionada exclusivamente à tecnologia, o que embaralha ainda mais o conceito, criando para muitos uma ideia de que futuro/ tecnologia/ inteligência são conceitos indissociáveis, desejáveis e necessários, ou ainda pior, que inteligência e tecnologia serão os grandes responsáveis pelo futuro das cidades (ou, para aqueles mais radicais, essencial para que as cidades tenham um futuro).

Já falei, nesse mesmo espaço, sobre a visão compartilhada por muitos, de que a “sensibilidade” como chamou Carlo Ratti do MIT (ainda que com um viés bastante tecnológico) é tão ou mais importante do que a própria inteligência nas cidades. Ainda que “cidade sensível” (senseable city) não seja um excelente nome, ainda é mais abrangente e assertivo do que “cidade humana”, que ainda que antropocêntrico, sempre dá a impressão que apenas os humanos têm vez, criando um problema com todo o tipo de militância ecológica. Uma cidade sensível deveria ser sensível a tudo e a todos, inclusiva e indiscriminadamente.

Hoje, quando pensamos em futuro, um termo que comumente vem às nossas cabeças é o “smart city”, afinal, parece óbvio que, diante dos avanços das learning machines e A.Is da vida, as cidades também devam ser “inteligentes”. Mas, o que é uma cidade inteligente? ou melhor, o que faz uma cidade inteligente? (Esteves, 2017)

Mas, a grande provocação sobre o futuro das cidades veio de onde se menos esperava. Não foi ideia de um urbanista, de um cientista social ou de um designer. Foi um analista de risco, isso mesmo (se bem que é uma definição um tanto reducionista para esse autor) que trouxe uma ideia, que agora, relaciono com o meu universo de pesquisa e atuação: a cidade. Esse analista de risco se chama Nassim Taleb e é dele uma ideia incomum, embora conhecida empiricamente por grande parte das pessoas, a antifragilidade.

Antifragilidade é o oposto de fragilidade e, segundo o autor, é algo que se beneficia com a incerteza, ou seja, algo que “gosta” da incerteza.

Quando você está frágil, depende que as coisas sigam o exato curso planejado, com um mínimo de desvio possível, pois os desvios são mais prejudiciais do que úteis. É por isso que o frágil precisa ser muito preditivo em sua abordagem, e, inversamente, os sistemas preditivos causam fragilidade. Quando você quer desvios, e não se preocupa com a possível dispersão de resultados que o futuro pode trazer, já que a maioria será útil, você é antifrágil. (TALEB, 2015)

Além da resiliência

Uma das partes mais importantes do conceito de Taleb é a comparação do que ele chamaria de Tríade: fragilidade, resiliência, antifragilidade.

fragilidade sofre (e eventualmente morre) com a incerteza, com os erros e desvios, e é comparada com o mito da “espada de Dâmocles”, onde nosso protagonista troca de lugar com Dionísio, monarca de Siracusa, cidade mais rica da Scicília, e pode usufruir por um dia, de tudo que lhe era oferecido. Em meio à felicidade que agora ele facilmente aproveitava, recostou-se nas confortáveis almofadas e olhou pra cima e percebeu uma espada apontada em sua direção, presa por um fio da crina de um cavalo, ou seja, tudo parece lindo, mas tudo pode acabar a qualquer momento.

resiliência, por sua vez, é ligada aquilo que não sofre com a diversidade, e, após enfrentá-la, retorna a sua forma original, ou seja, não se prejudica, mas também não se beneficia com a incerteza. Nessa parte da Tríade, a metáfora usada é o mito egípcio da Fênix, ave que ao morrer era devorada por chamas e delas nascia uma nova Fênix, igual a anterior.

Já a antifragilidade, que por sua vez se beneficia da “desordem” é comparada ao mito grego da Hidra de Lerna, monstro com várias cabeças (de 7 a 10.000 dependendo do autor), enfrentado por Héracles (Hércules na mitologia romana) que ao ter uma de suas cabeças cortada, automaticamente duas novas cabeças nasciam no lugar, ou seja, ela se aproveitava da incerteza, e crescia com ela.

Lembre-se de que o frágil deseja a tranquilidade, o antifrágil cresce com a desordem e o robusto não se importa muito” (Taleb)

Nem é preciso ir tão longe

Um exemplo mais próximo de antifragilidade é a “cultura” startup. No ecossistema inovador, o erro faz parte do processo. Errar, ao contrário do pensamento tradicional, também traz conhecimento e aprimora processos, serviços, produtos e até pessoas.

A ordem é evoluir e não sobreviver.

Ilustração comparativa dos conceitos de frágil, robusto, ágil e antifrágil, representados por animais: dinossauro (frágil), rinoceronte (robusto), gato (ágil) e símbolo de crescimento (antifrágil), com base na teoria de Nassim Taleb.

O “frágil” versus o “robusto” versus o “ágil” versus o “antifrágil”: a natureza busca a antifragilidade.

Em relação à cultura das startups, uma pergunta que ouço há muito tempo se refere sobre a relação entre identidade e volatilidade, afinal, como é possível trabalhar uma identidade de uma empresa (marca nesse caso) se a natureza de uma startup é mudar?  Se um dia ela faz aplicativos sobre mobilidade, no outro isso vira um jogo e na semana que vem uma plataforma colaborativa de empreendedorismo social?

A resposta é a mesma, tanto para empresa quanto para cidades, ou mais especificamente, tanto para marcas corporativas quanto para marcas-lugar: Concentre-se nas pessoas.

São as pessoas os elementos imutáveis (teoricamente) da equação. O elo de ligação entre os sócios de uma startup, por exemplo, apresenta dicas poderosas da identidade daquela empresa, que para efeitos comparativos nesse artigo chamaremos de “encontro de pessoas”. O que mantém essas pessoas juntas, hoje fazendo app, amanhã games e semana que vem plataformas são as características identitárias, muitas vezes traduzidas num propósito claro, tão caro à geração dos millennials. Mas, é importante diferenciar identidade de propósito, embora ambos sejam características interiores, o propósito também é coletivo (a identidade pode ser), compartilhado e concretizado externamente.

No final, sempre teremos que responder a mesma pergunta

Saber quem somos, o que quase nunca é fácil, está no centro da questão desse artigo, traduzida em um termo, uma palavra, ao mesmo tempo comum e complicadíssima: identidade.

Para Calhoun,1994 “Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas em que alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida…”

Para as ciências sociais, mais especificamente para Castells (1999)

Não é difícil concordar que do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir do quê, por quem, e para quê isso acontece. A construção de identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso.”

A coisa complica ainda mais quando colocamos mais um elemento nessa discussão: o lugar. Dessa forma teremos a identidade dos indivíduos, e do território, que podemos concluir, lembrando Tuan, que é a soma das identidades dos indivíduos. Assumiremos que essa soma de identidades é capaz de formar uma “identidade de lugar”, sem necessariamente ser construída por algum ente (político, religioso, corporativo etc) com interesses próprios.

A hipótese da identidade

Na experiência empírica (de que Taleb tanto gosta), a prática tem mostrado que o conhecimento dos elementos identitários, supervalorizados pelos cientistas sociais e subvalorizados pelos planejadores urbanos, podem ser responsáveis pela criação de lugares mais vibrantes, harmônicos, com maior senso de pertencimento, e claro, mais resilientes.

E é aqui que tudo começa. Durante anos venho defendendo a resiliência das cidades como o principal objetivo do place branding. A revisão do termo faz sentido à medida que ele está cada vez mais relacionado com a ideia de sustentabilidade, ou seja, embarcado de carga simbólica do universo discursivo da ecologia e meio ambiente. A perspectiva da Tríade de Taleb traz mais um elemento para a discussão: não deveriam as cidades buscar a antifragilidade?

Identidade dos indivíduos  + 

identidade do lugar  +

opcionalidade =

lugar antifrágil

Essa é uma equação, ainda simples, da hipótese da identitidade, onde levamos em conta não só as identidades, mas outro elemento, também levantado por Taleb: a opcionalidade.

Esse conceito é provavelmente o de mais fácil compreensão. Opcionalidade é a possibilidade de diversidade, ou o famoso “plano B” seguido pelas demais letras do alfabeto, ou nas palavras do próprio Taleb: “Não ficar preso a determinado esquema, de modo que se possa mudar de opinião enquanto se segue adiante, com base em descobertas ou novas informações”. Não a toa que a opcionalidade é comparada a figura do flanêur Benjaminiano, que diferente do turista, com suas reservas, aplicativos, vouchers e todo o tipo de parafernália que o prende ao destino, simplesmente “flana” pela cidade, tomando cada decisão de acordo com sua própria vontade e de acordo com as oportunidades que se descortinam a sua frente.

Fragilidade é prisão, antifragilidade é liberdade.

Não raramente nos deparamos com lugares – cidades mais precisamente – que tem apenas uma única vocação definida, ou apenas um produto reconhecido, imaginando que nunca, nenhum outro lugar poderá superá-lo.

Já vimos o que acontece com esse tipo de pensamento, exemplos não nos faltam, sendo Detroit nos Estados Unidos, provavelmente o mais retumbante. Voltada para a indústria automobilística, a cidade, começou a presenciar um êxodo sem precedentes na década de 1960, com demissões em massa na indústria. De dois milhões de habitantes em 1960 a cidade tem hoje 700 mil, tentando, de todas as formas, se reerguer.

Assim como Detroit, que jamais imaginou que a indústria automotiva pudesse sofrer algum tipo de crise, vários outros lugares tem a mesma ilusão da certeza, da perpetuidade das coisas.

Mas como prever o que pode acontecer?

Essa é a grande questão,  é difícil prever o que acontecerá. O essencial é criarmos mecanismos e um mindset antifrágil capaz de aprender com os erros e até se beneficiar deles.

Nesse momento a singularidade entra em campo. Pegaremos emprestado esse termo da físicaonde define fenômenos tão extremos que as equações não são mais capazes de descrevê-los, ou ainda para definir aquilo que é pouco frequente, ou, por extensão, qualidade que distingue algo dos outros do mesmo gênero, aquilo que não conseguimos prever ou imaginar:

A idéia é que tecnologias de várias áreas evoluem cada vez mais aceleradamente, se integrando e mudando rapidamente a realidade. Em um dado momento – a tal da singularidade –, a curva da evolução ficaria tão vertical que ultrapassaria o limite do próprio gráfico. É impossível saber o que viria depois.

Como podemos ver, o termo singularidade está presente em um futuro discursivo, naquilo que talvez aconteça, um ponto de onde não saberíamos prever o que viria depois (como se em algum momento pudéssemos prever o que quer que fosse)

Como sugiro no gráfico abaixo, podemos propor o seguinte sentido para a construção de um lugar antifrágil, imaginando que a opcionalidade singular pode ter mais ramificações.

Diagrama mostrando que identidade leva à singularidade, que se desdobra em múltiplas opcionalidades singulares, resultando em um lugar antifrágil.

Se por anos procurei a resiliência como resultado, agora, a antifragilidade parece uma abordagem a ser seguida. Imagino que uma cidade antifrágil é um lugar com uma identidade (formada ou não pela soma das “pequenas identidades” ). Essa identidade clara e compartilhada, resulta em uma, ou mais, singularidades, que são as formas com que a identidade se manifesta. Quanto mais opcionalidade conseguirmos gerar, de forma alinhada, e portanto autêntica, melhor, ou mais antifrágil o lugar poderá ser.

Conclusão

Esse texto apresenta um primeiro recorte para esse novo conceito, que provisoriamente chamaremos de Cidade Antifrágil. Digo provisoriamente porque o termo ainda não é autoexplicativo e pode parecer facilmente um sinônimo para resiliência.

Nele, embarcamos a reflexão de Taleb junto ao mindset do place branding e da ideia de cidades para pessoas. Ou, como preferimos dizer, lugares orientados pela identidade. Essa combinação busca trazer à tona a discussão sobre o futuro das cidades. De um lado, vemos um êxodo crescente em direção aos grandes centros urbanos. Essa migração parte, principalmente, de populações que não encontram oportunidades suficientes nos seus lugares de origem. De outro, os governos municipais enfrentam uma competição constante por recursos, talentos, turistas e indústrias.

Ainda temos mais perguntas do que respostas, mas a certeza de que é preciso olhar para frente, uma vez que as previsões baseadas no passado já não são mais eficientes (se é que um dia foram), e que o futuro recai sobre nós, pessoas, e ainda, que os modelos de gestão dos lugares, que já são ineficientes, se tornarão obsoletos muito antes do que imaginamos.

Fontes:

TALEB,N.N. Antifrágil. Kindle Edition, 2015
CASTELLS,Manuel. O poder Da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999

Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa:
Wilow Park

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

E agora, Zeitgeist?

Ilustração suave de uma pessoa em pé, olhando pela janela de um quarto com cama desfeita e luz natural filtrada pelas cortinas.

Pessoas nas ruas, ocupação dos espaços públicos, retomadas dos centros urbanos, vida comunitária. Há algum tempo venho dizendo, com bastante segurança, que a cidade, o urbano, é o representante do Zeitgeist nesse começo de século.

Pra quem não lembra, o alemão dito cujo também é conhecido como “espírito do tempo”, algo que, num conjunto intelectual, social e cultural, representa um determinado período histórico.

Olho pela minha janela, no centro da maior cidade da América do Sul, e vejo tudo, absolutamente tudo, menos pessoas nas ruas, ocupação dos espaços públicos, retomadas dos centros urbanos, vida comunitária.

Não vejo ninguém, nunca, em nenhum horário. Vez ou outra sou surpreendido pelo barulho do escapamento furado de alguma moto de algum entregador, que também passa cada vez menos, ou talvez tenham sido substituídos por ciclistas, quem sabe.

A praça da República, importante ponto de encontro de office boys, moradores de rua, advogados, arquitetos, trabalhadores de telemarketing, auxiliares administrativos, vez ou outra de turistas, e sempre de todos os tipos de hipsters, hoje, pela nesga da minha janela, parece saída de um filme distópico.

Hoje é domingo, dia de feirinha, de movimento, de turistas, de fila quilométrica no rodízio do Almanara art déco, de gente se entupindo pra ver o cartaz em tamanho natural do Olivier Anquier convidando pra entrar em sua padaria descolada, de fila desde o almoço para conseguir um lugar no jantar na Dona Onça, na Casa do Porco, dia de sambão na praça Dom José Gaspar, de balada-rave-modernete no Paribar. Não, Oliviers, Janaínas, Jefersons, Luíses, todos estão em casa, fechados, assim como eu, provavelmente pensando que diabos acontecerá a seguir e muito longe de ter uma resposta plausível.

Será que a pandemia mudará nossa forma de nos relacionar com o espaço-público?

Essa é uma das tantas perguntas que ocupam o meu tempo entre um livro e outro, uma série e outra, uma reunião e outra, na tentativa de levar uma vida minimamente normal.

Uma coisa é certa, e uma certeza já é grande coisa: o mundo virou um grande Não-Lugar. Não-lugar é um conceito do antropólogo francês Marc Augé. Não lugares não possuem características simbólicas suficientes para serem considerados lugares, mas ao mesmo tempo, representa algum nível de relação funcional a ponto de não se caracterizarem espaços. Vale lembrar a diferença entre espaços e lugares, que como já vimos, não são a mesma coisa. Minha leitura para o texto clássico de Tuan é que os lugares são espaços dotados de significado pelas pessoas, logo, sem pessoas, sem significado; sem significado, sem lugar.

O planeta virou um cenário. Pode-se enxergar, pela TV e internet, lugares que as hordas de turistas antes não deixavam. Deu até pra ver a cor da água de Veneza. Nessa paisagem, linda, nada acontece, nada vive, nada mais significa o que significara outrora.

Nosso mundo se voltou para nossa casa- bunker- refúgio.

A casa se tornou espaço-público e privado, num limite invisível, possibilitado como nunca pela tecnologia. Reuniões foram feitas via plataforma digital, turmas se encontraram para bater papo e beber virtualmente, até orquestras deram concertos, cada um da tranquilidade de sua casa.

A desmaterialização do trabalho não é tema recente, mas ele nunca teve tão em pauta como agora. Será que as empresas manterão seus escritórios gigantes, seus horários fixos, suas centenas de reuniões presenciais? Não dá pra saber. O que se sabe é que o movimento nômade-digital tomou uma outra proporção, não mais por podermos estar em todos os lugares e produzindo, mas por nos proporcionar não estar em lugar nenhum que não seja a nossa casa, ou seja, vivemos um anti-nomadismo, ainda que digital.

O mundo se tornou a nossa casa, e nossa casa, por sua vez, o centro do mundo.

Isso nos deixa diante de uma encruzilhada, será que sentimos tanta falta assim um dos outros a ponto de todos irmos pra rua e nos abraçarmos quando tudo isso acabar, voltarmos a ocupar os cafés na calçada, movimentar o comércio de rua, andar, andar e andar pela cidade?

Minha suspeita é que sim, e que nunca daremos tanto valor a isso quanto num futuro próximo.

Caso contrário, voltaríamos ao século XIX. Naquele período, a Revolução Industrial amontoou trabalhadores próximos às fábricas, o que aumentou drasticamente a densidade de cidades como Londres. No entanto, essas cidades ainda não contavam com as condições tecnológicas e sanitárias necessárias para suportar tal crescimento. Como consequência, consolidou-se uma ideia que perduraria por mais de um século: a de que a cidade representava o mal, o lugar da doença. Por outro lado, o paraíso estaria nos subúrbios, na natureza edílica, o mais distante possível do caos urbano.

Esse século tem mostrado, até agora, que a felicidade está ligada à convivência. Está relacionada com a possibilidade dos encontros e com o tempo dedicado ao que realmente importa. Mesmo os condomínios mais afastados começaram a se comportar como centralidades. Isso acontece inevitavelmente. Afinal, por mais que exista o desejo de viver próximo à natureza, a conveniência e a convivência proporcionadas pelos centros urbanos não são fáceis de sacrificar.

Começamos a trocar home theaters sofisticados pelos escassos cinemas de rua, condomínios- clube por uma corrida no parque público, o carro individual pelo transporte compartilhado, até o tamanho das nossas casas mudou drasticamente. Diminuiu e diminuiu, ficou menor que a vaga para nosso carro, e nós lidamos bem com isso. Entendemos que a experiência urbana dos grandes centros era infinitamente mais interessante que a nossa mera e tediosa vida privada. Pelo menos até o mês passado.

A comunidade não é mais uma questão territorial.

Não nos definimos mais apenas pela praça que ocupamos fisicamente. Recentemente, durante uma aula de pós-graduação, um aluno me perguntou se a web poderia ser considerada um lugar. Naquele momento, hesitei. Mas hoje, afirmo com segurança: sim, a web pode ser um lugar, dependendo de como a usamos.

Se as nossas relações comunitárias sempre foram baseadas em características identitárias/culturais, o próprio conceito de territorialização se desfez. Não é preciso estar num mesmo ambiente para se relacionar com “os seus”, nem na mesma cidade, nem no mesmo país.

As comunidades se tornaram virtuais, bem antes do sucesso de Zooms e Hangouts da vida. Nos relacionamos com aqueles com os quais nos identificamos, independente de onde eles estiverem. Essa rede comunitária invisível ficou evidente nesses últimos dias. Meu palpite é que continuaremos a nos encontrar fisicamente, em lugares de identificação, aqueles onde nos sentimos “em casa”, aliás a própria ideia de sentir-se  “em casa” nunca foi tão relevante, mas isso não negará a tecnologia.

Aliás, não tem como deixar de citar Naisbitt e Piazza, que apontam: quanto mais tech formos, mais touch seremos. Cada vez mais, a nossa própria ideia de comunidade vai depender da tecnologia. As sociedades digitais já estão em andamento. Um bom exemplo é a pequena Estônia. Hoje, graças a um sistema tecnológico robusto, o país mantém apenas dois documentos impressos em papel. Todo o resto, incluindo a burocracia do dia a dia, é resolvido digitalmente. E com isso, sobra mais tempo para o que realmente importa.

A lição que fica

A lição da Estônia também é semântica. Percebam que eles se comportam como uma “digital nation” e não “smart nation”. Ao mesmo tempo que a tecnologia embarca inteligência, a inteligência não se limita a tecnologia.

Mais uma vez é fácil concluir que tecnologia e humanidade estão inevitavelmente ligadas, o comportamento de uma impacta na outra, até porque, mais do que inteligentes, todos querem ser felizes, seja correndo nas praças e parques, seja dentro de casa.

Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa:
Kyu Tae Lee

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

O Desafio de Governar as Cidades Frente ao Futuro Incerto

Ilustração abstrata de duas pessoas se aproximando em meio a caminhos sinuosos cor-de-rosa, sugerindo conexão, diálogo ou jornada emocional.

Enquanto as cidades brasileiras já sabem quem serão seus representantes eleitos, os eleitores do Amapá ainda terão o segundo turno. Além do apagão que esse Estado sofreu, esse ano foi marcado por muitas “surpresas”. Escrevo “surpresas”, assim mesmo entre aspas, porque cabe aqui um grande questionamento: Será que é possível ter alguma certeza sequer sobre o futuro?

Se essa era uma dúvida, 2020 tratou de saná-la. Embora a ideia de futuro possa ser essencialmente incerta, para não dizer desconhecida, nos acostumamos a tentar prevê-lo, controlá-lo e domá-lo. Lembro perfeitamente do início da pandemia, quando muitos compararam a situação a um evento Cisne Negro. Eu mesmo cheguei a usar essa expressão. Mas logo mudei de ideia ao ver o próprio criador do termo explicar que aquilo não se encaixava nessa categoria. Segundo ele, diversos estudos já apontavam a possibilidade de uma pandemia. Sem contar o cinema, que mais uma vez antecipou futuros que insistimos em perseguir, mesmo quando fomos devidamente avisados.

O fato é que além de não conseguirmos prever o futuro, também não conseguimos dar muito atenção quando alguém nos avisa sobre ele. Por um lado, finge-se que se tem uma capacidade clarividente e, por outro, simplesmente ignora-se os estudos científicos capazes de, pelo menos em parte, prevê-lo. 

Mas o que isso tem a ver com as cidades e os novos prefeitos?

Os novos prefeitos pegarão suas cidades muito diferentes de seus antecessores. Quanto a isso parece não haver mais dúvida. O problema ainda maior é que não só as cidades mudaram, mas o mundo mudou, e, provavelmente, nunca mais será igual ao que foi até janeiro de 2020. Não se trata de uma visão pessimista de mundo, mas uma constatação óbvia, pragmática. O mundo mudou e nós mudamos com ele, ou por causa dele, ou a nossa mudança mudou o mundo, não importa.

Me encontro em meio a pandemia com algumas suposições com embasamento considerável, embora ainda suposições. Seremos mais urbanos, continuando a tendência de alta dos índices de densidade dos centros urbanos, ou retomaremos ao espraiamento, à vida próxima a natureza, ou a alguma ação de marketing bem elaborada que tem seu começo ainda no século XIX? Seremos mais globais ou nos renderemos ao nacionalismo populista? (desculpem, não consigo desassociar essas duas palavras), e talvez a questão mais delicada e importante de todas, seremos mais solidários ou mais individualistas?

Escrevo esse artigo ainda sob o efeito de duas noites muito mal dormidas após assistir ao ótimo e absolutamente indigesto documentário “Cercados”, que conta a labuta dos jornalistas que se expõem diariamente na tentativa de criar canais de informação independentes das redes de fake news que assolam o mundo. Ao mesmo tempo que me indigno, sinto um enorme alívio de estar mais na posição que se tornou alvo fácil de governos e apoiadores.

Mas a indignação com as questões levantadas pelo documentário talvez venha pela certeza escancarada que existe uma grande parte da população alinhada às ideias do atual governo, e nesse momento a dúvida surgiu em forma de insônia: como realizar processos colaborativos e cocriativos com pessoas que de um lado gritam “mito”, imitam toscamente uma mistura de soldados gregos e grupo extremista, ou ainda, imprensa comunista gayzista e de outro a turma que acha que o ex-ministro da justiça é um agente da CIA e que Venezuela e Cuba são exemplos de democracia. Como colocar essas pessoas para trabalhar juntas?

Colaboração é a chave

Se aprendemos alguma coisa nesses trinta anos passados em oito meses, é que não conseguimos fazer tudo sozinhos, até o mais nacionalista populista sabe disso, com a diferença que ele se entrincheira com seus pares e irmãos de pátria (nunca pensei que esse termo faria um dia sentido e muito menos que iria utilizá-lo em um artigo sobre cidade e política). Por não poucas vezes escrevi que as comunidades com maior vitalidade saíram- se melhor no mundo pandêmico do que as comunidades que nem comunidades eram.

Se os processos colaborativos e cocriativos já eram trabalhosos e difíceis, quem dirá agora num mundo polarizado como o atual. Essa tem sido uma pergunta recorrente em palestras Brasil afora, como juntar esse povo que pensa tão diferente? Minha hipótese, que ponho em prática diariamente, e aqui fica a primeira dica para os prefeitos, é encontrar aquilo que junta indiscutivelmente essa turma tão diferente, uma dor conjunta (que geralmente é mais fácil de ser identificada do que um sonho conjunto) e partir daí. Deixe a política partidária-ideológica de lado e concentre-se no ser humano, no indivíduo que está ao seu lado ou à sua frente. Antes de pensarmos de forma coletiva, cultural, subcultural é preciso entender os indivíduos e dar a eles a oportunidade de conexão, criando um novo comportamento, agora diante de um grupo até então desprezível.

Mas isso não é tarefa fácil, é preciso vontade antes de tudo, mas uma considerável dose de persistência e claro, conhecimento. Conseguir a participação das pessoas em algo que podemos chamar de “bem maior” não é fácil. Para isso toda a tecnologia é bem vinda, e para mim, esse é um dos pontos que faz uma cidade ser de fato inteligente. É preciso criar sistemas, ferramentas e plataformas de fácil interação, não só fácil como prazerosa. Não pode ser como reunião de condomínio ou como consulta pública, ou melhor, não pode ser para inglês ver.

Mas já que eu falei de tecnologia

Mas a tecnologia não se limita a unir as pessoas. Mesmo que isso já represente uma grande conquista, é preciso ir além. A cidade se transformou em algo muito maior do que seu território físico, seu hardware. A possibilidade de novas ondas, vírus e lockdowns aponta para uma necessidade recente, embora não inédita. Precisamos repensar a cidade, o bairro, o país e o estado de forma desterritorializada. Ou, como prefiro chamar, precisamos considerar a supraterritorialidade dos lugares.

Há muito se fala sobre a cidade como o lugar do encontro, da interação. Se essa interação não se dá mais fisicamente, ou melhor, presencialmente, então onde está essa cidade? Acho que o primeiro que me alertou para isso foi o amigo e também arquiteto Caio Vassão. Já tinha lido um de seus artigos sobre isso e estressamos esse assunto em meio a uma das “lives para o fim do mundo” que promovi nos momentos mais punks da pandemia.

Como disse, embora não seja uma discussão nova, e já existam alguns ótimos exemplos internacionais como os projetos recentes de turismo virtual das Ilhas Faroé, ou a nação digital do e-Estonia, nosso governo ainda está longe de entender a cidade como um ativo que pode ser também intangível.

Lá vem a intangibilidade mais uma vez…

Num mundo desterritorializado de uma sociedade desmaterializada, o que nos resta é o intangível.

Onde eu estou não importa, o que eu experimento importa. Trabalho, relacionamento, esporte, cidade, país, tudo isso e muito mais foi transformado esse ano.

Aos novos prefeitos é preciso criar novos mecanismos de relacionamento com a cidade, relacionamento interno e externo. Cada vez fará menos sentido ficar numa fila para um serviço público, aliás isso já é uma vergonha, uma vez que a tecnologia para esse tipo de uso está disponível há tempos. Fará menos sentido deslocar-se para a realização de alguma tarefa burocrática, ou ainda, fará cada vez menos sentido visitar uma cidade, estado ou país fisicamente ( ok, exagerei muito aqui pra explicar o meu ponto) pelo menos numa primeira vez, ou ainda, principalmente em momentos de crise sanitária, crise essa que inclusive pode inviabilizar por longos períodos a presença física de visitantes em alguns países específicos.

Se o hardware já não era um grande diferencial há tempos, agora ele precisa de complemento. Esse complemento vem do software ou, mais do que isso, da alma do lugar. É a experiência com essa alma que gera valor aos lugares. Como repito desde sempre, se fôssemos a Nova Iorque apenas para ver a Estátua da Liberdade, gastaríamos dinheiro à toa. Sem contar a energia e a burocracia para conseguir o visto. Bastaria andar alguns quilômetros até a loja Havan mais próxima. E ainda ganharíamos uma visita a Washington de brinde. É com essa alma, esse ativo estratégico intangível que os novos governantes precisam estar atentos.

Essa alma, inclusive, é responsável para suprir as necessidades do “corpo”, entender esse espectro dos lugares é se colocar de forma assertiva e eficiente num mercado ávido por talentos, visitantes, investimentos, recursos humanos e econômicos.

Claro que diferente das empresas, as prefeituras não precisam gerar lucro, mas quanto mais dinheiro elas gerarem, maior deverá ser o estado de bem estar social da população.

O futuro é frágil

A “Cidade Antifrágil” vem sendo meu objeto de estudo e trabalho nos últimos anos. O conceito criado por Nassim Taleb, parte da ideia onde é preciso ir além da resiliência, onde enquanto a resiliência é a capacidade dos elementos voltarem a sua forma original após um evento traumático, a antifragilidade é a capacidade de evoluir após um evento traumático, aprimorando-se ante ao caos.

A minha “fórmula” para a cidade antifrágil, começou com três dimensões e hoje já são doze. Incialmente, identidade do lugar, que nesse artigo abordei como resultado dos processos participativos e do uso melhor a mais frequente da tecnologia e da vocação, e a opcionalidade, diretamente derivada da antifragilidade, que é a criação/identificação de outros vetores de desenvolvimento econômico de um lugar, cidade ou país.

A opcionalidade é outra lição importante de 2020. Quem depositou todas as fichas até então em um único vetor pode não sair muito saudável no fim de toda essa loucura. Esse é um aprendizado para os governos municipais, a diversificação. Claro, diversificação com origem na identidade e vocação do lugar. Não precisa de um grande esforço de criatividade para imaginarmos o que aconteceu com grande parte das cidades turísticas ou majoritariamente turísticas do mundo ao longo desse ano.

Se o futuro é o incerto e frágil, a cidade antifrágil é o presente, dinâmico e adaptável, colaborativo e conjunto, físico e virtual.

Se não se pode combater os problemas do futuro com soluções do passado, é preciso estar apto a combater os problemas do presente com as soluções do presente. Isso não significa uma visão imediatista sob nenhuma hipótese, mas sim a compreensão de que o pensamento estratégico, e última instância, a visão de futuro, passam por projetar ferramentas e sistemas capazes de lidar com o hoje e toda a sua complexidade e velocidade ao invés de tentar prever o futuro, pelo simples fato do presente ser o tempo sobre o qual ainda temos algum controle, diferente do futuro, sempre mutável e incerto.

Na dúvida, aposto minhas fichas em processos gerenciais e decisórios mais compartilhados, próximos e adaptáveis. Quanto às bolas de cristal, bom, deixo-as no universo da fantasia, ainda que o dia-a-dia do nosso país esteja cada vez mais distante de uma realidade plausível.

Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa: Brian Rea.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

A cidade e o mundo descomoditizado

Duas mulheres conversam e tomam sorvete dentro de um submarino em formato de peixe.

Quando a economia brasileira dá algum sinal de melhora, como um dólar mais baixo, por exemplo, o termo commodity volta a circular com frequência. Trata-se do nosso “eterno” tesouro. Segundo o dicionário Oxford, uma commodity é qualquer bem em estado bruto. Geralmente tem origem agropecuária, mineral ou vegetal. É produzido em larga escala mundial, com características físicas homogêneas, independentemente de sua origem, e costuma ser destinado ao comércio externo. Fora do agronegócio, usamos esse termo para definir algo sem nenhum tipo de diferenciação, algo genérico, cuja qualidade não depende da marca ou da origem.

No marketing, durante décadas, tentamos vender produtos com base em seus atributos funcionais e de performance. O sabão que limpa mais branco. O adoçante com menos gosto de corrimão de escadaria de rodoviária. Menos gordura aqui, menos sódio acolá. Essa lógica fazia algum sentido em um mundo onde as pessoas ainda não compartilhavam tecnologia. Também fazia sentido quando o acesso à informação não ocorria de forma mais ou menos igualitária entre os players do mercado. Já na década de 1950, percebemos que as decisões de compra não seguiam um padrão racional. Até então, tratávamos as marcas apenas como uma forma de agilizar o processo de escolha, reduzindo o tempo dedicado à seleção de um produto. Mesmo sabendo disso, ainda continuamos por anos nessa corrente funcional.

De produto genérico à construção de significado

Com maior relevância, desde o começo desse milênio, o branding – ou o pensamento voltado para a gestão estratégica de marca – ganha espaço, entendendo que, mais do que a racionalidade, nossa relação se dá com marcas muito mais do que com produtos. E ainda, mais recentemente, entendemos que não só não compramos marcas como na verdade, muitas vezes, o verbo comprar não se aplica. Aderimos a uma ideia representada por determinada marca e nos relacionamos em função da identificação entre nossa própria identidade e a identidade das marcas disponíveis. Passamos de compradores a cocriadores, em vez de alvos, pessoas, membros de uma comunidade.

Validando a própria identidade

Há quem diga que nos relacionamos com as marcas que validam nossa identidade e nossa personalidade, algo facilmente comprovado ao pensarmos em estereótipos como o carro do tigrão, a bolsa da perua, o tênis do descolado e como esses outros milhares de exemplos nos mais diferentes segmentos do consumo. Será que o mesmo se dá com os lugares?

A resposta simples é um sonoro SIM. Escolhemos onde morar e onde passar as férias, por exemplo, com base naquilo que somos e talvez naquilo que queremos ser na visão do outro. Essa segunda opção tem prazo de validade. Ninguém, ou pelo menos a maioria das pessoas, não está disposta a sacrificar a própria felicidade e identidade em troca de uma percepção positiva da sociedade (menos no Instagram, pois ali vale tudo).

O infindável período pandêmico nos fez repensar e ressignificar uma boa parte de nossas vidas e uma das perspectivas que tiveram especial atenção foi a nossa relação com esses lugares ao nosso redor.

A casa-mundo e o retorno à bolha

Se antes a ideia de lugar se aplicava a cidade ou bairro onde vivíamos, hoje ela certamente se estendeu ou se transferiu para dentro das nossas moradias. Nosso maior período de clausura nos fez questionar uma série de escolhas, internalizamos academia de ginástica, sala de cinema, restaurante, escritório e até a natureza. O termo biofilia, que trata da relação homem/ natureza nunca foi tão presente e ainda que seja um conceito dos anos 1980 parece ter sido cunhado em meados de 2020.

O mercado imobiliário se alvoroçou. Nada era longe demais, desconectado demais, isolado demais. De uma hora pra outra parou de existir “área ruim” e o famigerado “location, location, location” mantra maldito do segmento (pelo menos da forma como era visto/ abordado) foi pelos ares. Quem estava em centros outrora vibrantes cogitou trancar-se em um condomínio-bolha nos cafundós, quem pôde fugiu para as montanhas, para a praia, ainda que tudo não passasse de paisagem.

Se o mundo se voltou para dentro das moradias, qual o futuro das cidades?

Embora fenômenos como a desterritorialização e a desmaterialização, já abordados neste espaço, tenham se acelerado durante o isolamento, isso não significa que passamos por uma desidentificação. Continuamos, em maior ou menor grau, as mesmas pessoas que éramos quando toda essa loucura começou. Nossos valores, caráter e personalidade deveriam permanecer os mesmos, mesmo que nosso comportamento tenha mudado.

Como vimos há pouco, nos relacionamos cada vez mais com ideias ao invés de produtos ou marcas. Um lugar, cidade, bairro é, essencialmente uma ideia ou um conjunto de ideias. Vale sempre lembrar que, sob a perspectiva da geografia humana, o lugar se diferencia do espaço porque carrega significado atribuído pelas pessoas. São as pessoas que constroem o lugar e, no fim das contas, é para elas que ele existe. Afinal, o conjunto dessas pessoas é o que dá identidade ao lugar. Quanto maior for a eficiência dos lugares em comunicar esse seu significado, essa identidade, maiores as chances das pessoas que se identifiquem com ele possam fazer parte dessa comunidade, presencial ou virtualmente. Sim, um lugar é muito mais do que seu território físico – chamo essa ideia de supraterritorialidade.

A cidade-lugar e a cidade-commodity

Todas essas mudanças citadas apontam para a necessidade urgente de repensarmos os lugares. As dificuldades impostas pela pandemia nos fizeram questionar nosso próprio percurso pela cidade. A aceitação de novos comportamentos, como por exemplo, as reuniões virtuais e a popularização de compras cada vez mais cotidianas pela internet nos permitem – ou permitem aqueles que podem ­– uma relação mais limitada com a cidade. Se antes eu precisava sair de casa para quase tudo, agora, esse quase tudo chega até mim, de forma eficiente e muitas vezes gratuita. Se a cidade não é mais um lugar estritamente funcional, qual será sua nova função primordial?

Minha hipótese é o prazer.

Mas essa reflexão não é só uma relação entre funcionalidade x prazer endereçada à gestão municipal, que agora, além de precisar pensar as características de identidade de suas cidades, precisam propor experiências positivas e preparar seus espaços públicos para esse novo momento.

É também uma questão essencial aos empreendedores e comerciantes. Depois de mais de um ano preso no vai e vem do isolamento social, ao sair na rua, ainda desconfiado, com máscara e litros de álcool gel e andar por um centro brasileiro qualquer, eu pergunto: Quantas dessas lojas me fariam sair de casa novamente? A comoditização já era uma realidade nos produtos, cada vez mais semelhantes, agora os serviços também se tornaram, pelo menos aos desavisados, genéricos, incapazes de criar uma experiência diferente ou melhor do que a compra virtual.

Cidades-lugar ou cidades-commodity?

É preciso atenção a esse novo momento tão delicado. Não se trata mais de abrir ou fechar, se trata também do que se é capaz de oferecer e se essa oferta é capaz de ser percebida como valor.

A mesma reflexão serve as cidades: o que faria alguém sair de sua cidade para ir até outra? Provavelmente teremos cidades-lugar, com identidades bem definidas capazes de criar experiências positivas e com isso atrair turistas, moradores, talentos, e teremos as cidades-commodities, onde no máximo resolveremos aqueles problemas que, por não sermos a Estônia, ainda precisamos de órgãos públicos e da burocracia em geral, saindo de nossas bolhas fora da área urbana, dentro de nossos carros com ar-condicionado e não vendo a hora de voltar para o paraíso, ou pior ainda, viveremos em meio a elas por pura falta de opção.

Talvez, e espero estar profundamente errado, as ruas comerciais não voltem a ser as mesmas, cheias de gente, vibrantes, universos a serem descobertos. Talvez esse distanciamento tenha começado por conta de um vírus e, no final, continue por pura falta de interesse.

E você, o que quer para sua cidade?

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa:
Celyn Brazier

Cidade, desterritorialização, e o futuro das comunidades planejadas.

Ilustração colorida mostrando várias pessoas em ambientes internos e externos, cercadas por partículas coloridas representando vírus ou microrganismos, sugerindo contaminação em espaços compartilhados.

Em meio a tantas mudanças causadas por essa pandemia que parece não ter fim, um comportamento se destacou: a transformação da nossa relação com a moradia. E, por extensão, com a cidade.

Antes, o mercado imobiliário demonstrava quase uma obsessão pelo conceito location, location, location. Hoje, essa ideia, assim como tantas outras, foi colocada em xeque. Passamos quase um ano inteiro dentro de casa. Com a possibilidade de ficarmos ainda mais tempo, a localização da moradia perdeu parte da importância. Falo por mim. Moro há quase uma década no centro de São Paulo e sempre fui apaixonado por esse lugar. Mas, nas minhas incursões semanais pelos arredores, vejo um bairro triste, sem vida.

As ruas antes cheias agora exibem placas de aluga-se. Restaurantes fecharam. Negócios quebraram. O que antes era o coração da cidade virou uma área periférica de uma cidade do Brasil profundo. Melancolia é a palavra que define esse sentimento. Não encontro mais pessoas pelas calçadas. Não ouço mais a confusão de vozes oferecendo chips da Vivo, Tim, Claro e Oi, exatamente nessa ordem. E também, não dá mais para comer um pastel de nata na Casa Matilde. Ou comprar um vinil obscuro no Big Papa. Ou comer uma esfiha cara e maravilhosa, com a barriga encostada no balcão antigo do Almanara da Basílio.

Desterritorialização, e a pandemia

Já falei exaustivamente sobre o processo de desterritorialização que sofremos com a pandemia. Se nossa relação interpessoal se tornou virtual, a cidade, palco até então desses encontros, também se tornou virtual, embora ela não tenha percebido isso, nem os que a gerenciam. Se sempre construímos relações a partir da identificação, por muito tempo essa conexão se refletia nos lugares que habitávamos e frequentávamos. Hoje, essa identificação também ocorre no ambiente virtual, com lugares, pessoas e marcas de qualquer parte do mundo. Mesmo esse conceito de “outro lado do mundo” já foi colocado em xeque. Afinal, vivemos a aldeia global de McLuhan ou, talvez, o metaverso imaginado por Stephenson. Nos tornamos avatares nessa imensa vídeo-conferência que virou nossa vida.

Ao mesmo tempo que mudamos nossa relação com a cidade, voltamos nossa atenção, energia, e o pouco dinheiro que sobrou, quando sobrou, para a nossa moradia. Assisto com um sorriso de canto quando vejo certos influenciadores falando de biofilia como se tivessem acabado de inventar o termo. Ignoram que Edward O. Wilson já o apresentou em 1984, literalmente em outro século. Se passávamos muito pouco tempo em nossas casas, as quarentenas da vida nos fizeram nos aproximar dela, matamos a saudade do genius loci, colocamos plantas, muitas plantas, assassinamos várias, salvamos algumas, fizemos home-gym, home-theater, home-restaurant, home-shopping, homeschooling… aqueles que puderam, óbvio.

A sobrevivência do mercado imobiliário

Em meio a esse cenário caótico, outro segmento permaneceu forte além dos garden centers, o bom e velho mercado imobiliário. Contrariando as previsões mais pessimistas, inclusive a minha, esse mercado manteve seu fôlego e ainda não da sinais de cansaço. Mas afinal, se a cidade se desterritorializou, qual será a nova abordagem, o novo caminho desse mercado tão tradicional e notoriamente avesso a inovação?

Algumas obviedades se apresentaram, home offices gourmet por exemplo, sim me divirto com as invenções marqueteiras desse segmento, afinal elas são abundantes.

Mas além da necessidade de concentrar nossas necessidades e desejos em dimensões cada vez menores é preciso entender e estender a compreensão desse novo momento para muito além das unidades. Se a cidade agora é um lugar de contemplação e experiência e não mais de funcionalidade, é preciso criar conexão entre unidade e bairro, entre bairro e cidade, entre prédio e rua. Um dos aprendizados recentes é a necessidade crescente das micro centralidades, que podemos chamar de comércio e serviços de proximidade. Foram eles que nos salvaram durante os momentos mais duros. Ao entorno dessas pequenas centralidades, não só nos abastecemos como sabemos do que se passa na região, buscamos apoio, oferecemos ajuda, é ao entorno desses pequenos núcleos que a vida comunitária acontece com mais vitalidade.

Bem-estar, felicidade e significado

Se antes terrenos longínquos eram extremamente problemáticos, e a ideia de segunda moradia (aquela de veraneio, férias, fim de semana) era um segmento praticamente abandonado, agora a desterritorialização, trouxe um novo fôlego para esses empreendimentos, agora, afinal, podemos, pelo menos alguns de nós, morarmos como segunda residência e trabalharmos como primeira. Importante aqui ressaltar que embora esse processo dê nova vida a vetores de cidade até então esquecidos, a necessidade por uma vida comunitária precisa ser reforçada. Além da necessidade de criação das micro centralidades outro elemento deve ser levado em conta, o significado.

Se sempre buscamos por uma vida com significado, podemos dizer que em grande parte nossa felicidade (como sinônimo para bem-estar) depende do significado que damos as nossas vidas. Ao longo da minha trajetória no place branding, sempre imaginei que essa seria a principal colaboração da disciplina confundida comumente com marketing ou design. Afinal falamos de identidade e significado é o resultado desse alinhamento de identidades que podemos chamar de identificação.

Os novos empreendimentos pós-pandemia precisam não só olhar para os aspectos práticos e racionais da vida cotidiana, mas também, ou principalmente, para os aspectos emocionais e intangíveis, para os quais a tecnologia ainda não conseguiu grandes resultados.

Planejamento e a conexão com a sociedade

As novas comunidades planejadas devem buscar exatamente o que o seu nome propõe, ou seja, serem comunidades de fato. Agora, o que nos une enquanto comunidade, algo que na verdade sempre nos uniu mas que o excesso de ruído impedia de enxergar, é a identificação com o lugar. Essa identificação nasce da conexão com as pessoas que vivem ali. Segundo a geografia humanista, o lugar existe quando as pessoas atribuem significado ao que antes se comportava apenas como espaço, um território sem identidade.

Outro destaque vai para o uso do termo planejado. Tradicionalmente, quando pensamos em algo planejado, como os móveis de uma cozinha, pensamos em algo feito sob medida. Algo que funciona naquele lugar específico e que não pode ser transferido para outro. Por um lado, esse pensamento é absolutamente correto, afinal, cada lugar é único e sua identidade e singularidade intrasferíveis, por outro, é preciso entender que esse planejamento precisa prever uma certa informalidade, um dinamismo capaz de promover sua adaptação ao cenário incerto que se aproxima. Planejamento aqui não é a característica hermética em si, e sim, planejado para se adaptar e principalmente evoluir.

A cultura e a influência de Shakespeare nas cidades e sociedade

Comunidades planejadas devem ser lugares vibrantes, que na minha opinião, são lugares com pessoas, significado e atividade, que formam um tripé onde a ausência de qualquer um dos apoios torna a estrutura instável e inviável.

Se até pouco tempo os bairros planejados eram bolhas, agora a solução é serem cada vez mais cidade, e se cidades são pessoas como diria Shakespeare, comunidades planejadas não tem absolutamente nada a ver com território, área, terreno e sim com cultura, significado e claro, pessoas.

Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa:
Celyn Brazier

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Os 5 porquês do place branding

Crianças brincando em chafarizes em um espaço urbano, com uma escultura metálica espiralada ao fundo, em imagem em preto e branco.

Muitos me perguntam como seria “vender” place branding num país que ainda não entende direito nem o que é branding.

Em primeiro lugar, está claro para mim que as “cidades” estão na moda e passam a ser o centro da discussão no mundo todo — e o Brasil também começa a se inserir neste universo.

A ideia veio com a sobreposição de outras duas disciplinas, o placemaking e a comunicação. O placemaking, que qualifica espaços públicos, seria uma forma de trabalharmos o “brand experience” e a comunicação seria a forma de trabalharmos o “brand expression”. Dessa forma fecharíamos o ciclo: identidade + experiência + expressão; ou ainda: pensar + fazer + comunicar.

Da teoria à prática: a construção do identity placemaking

Foi com essa ideia que desenvolvemos o identity placemaking, que trabalha tanto as questões conceituais quanto as projetuais, levando o conceito até a sua materialização no espaço público e sua comunicação. Esse framework faz a transição entre o intangível e tangível, criando experiências palpáveis, replicáveis e comunicáveis — algo absolutamente necessário aos possíveis contratantes.

Com isso ficou muito mais fácil convencer quem quer que seja. Ouvimos certa vez que o place branding transforma capital do lugar em capital político, e também acreditamos nisso.

Esse capital político também tem um enorme poder de atração e sedução, uma vez que ele facilmente pode se tornar um legado do político ou grupo político que teve a visão, o espírito inovador capaz de ser um “early adopter” de um pensamento já em curso e com bons exemplos em muitas partes do mundo, mas ainda um pensamento quase que desconhecido por nossas bandas — e, afinal, nada como atiçar o bom e velho ego e ainda transformar os lugares!

Mas vamos aos cinco porquês do place branding:

1. Transformar capital do lugar em capital político

Sabemos que a qualidade de um lugar pode ser medida, em grande parte, pela qualidade dos seus espaços públicos. Quando um lugar reconhece seu potencial, reforça sua vocação e qualifica seus espaços públicos, ele tende, consequentemente, a ser lembrado. Além disso, gera uma população orgulhosa, fortalecendo o senso de pertencimento e criando as condições necessárias para transformar espaços em lugares.

2. Criar um ideia capaz de engajar pessoas e, por que não?, eleitores

place branding parte sempre de dentro pra fora. No caso dos lugares, isso tem ainda mais importância. A criação de uma ideia comum (e não única) tem capacidade de aderência de diferente segmentos da comunidade, agora unidos por um ideal compartilhado. A participação de todos legitima e qualifica o processo, além de reforçar o senso de pertencimento.

3. Criar uma visão inovadora

A preocupação com as cidades ainda é uma ideia nova no país. A relação entre cidades, marcas, engajamento e comunicação, dentro de um mesmo guarda-chuvas é inovadora. Os lugares que entenderem essa necessidade automaticamente se posicionarão como inovadores. Mas, é importante lembrar, não basta falar, é preciso fazer.

4. Inserir no mapa

Seria muita inocência pensar que as cidades não enfrentam concorrência. Na prática, elas disputam pela atração e retenção de talentos, por investimentos, por indústrias e, ainda que não exclusivamente, por turistas. Por isso, um lugar com uma identidade clara, uma oferta sólida e coerente, passa a ter muito mais oportunidades e possibilidades reais de sucesso.

5. Melhorar e experiência nas cidades

E por fim, o motivo mais óbvio, o place branding qualifica os espaços públicos e melhora consideravelmente a experiência nos lugares. É importante entender que ele não é privilégio de grandes cidades com grandes potenciais econômicos. Essa abordagem é útil em qualquer dimensão de lugar. Na verdade, quanto mais aparentemente desinteressante for um lugar, maior a necessidade desse trabalho — afinal, vender uma cidade com um Torre Eiffel não é exatamente difícil.

A PLUS

Meu nome é Caio Esteves e sou CEO da PLUS | PLACES FOR US, a primeira agência brasileira dedicada a construir e fortalecer marcas-lugar. Especialista em branding com mais de doze anos de experiência na construção de marcas, também sou diretor da CEB+D, agência multidisciplinar de branding e design, membro do Insitute of Place Management de Manchester (IPM) na Inglaterra, colunista e membro do conselho consultivo do Congresso City Nation Place, colaborador da publicação Place Branding and Public Diplomacy. Sou também coordenador do 1º MBA de Place Branding do país e professor no curso Branding Innovation nas Faculdades Integradas Rio Branco em SP e professor de Branding nos cursos de pós-graduação e MBA do IED-SP e do MBA Branding na faculdade Alfa- GO.

Além dos projetos de Place Branding em andamento, a PLUS está presente na discussão mundial de Place Branding e Placemaking, com participações em duas edições do Future of Places (Argentina e Suécia), prévias para o UN HABITAT 2016 (ONU), apresentação de artigo no II Congresso Internacional de Marcas (Brasil) e como única presença brasileira no CityNationPlace, congresso internacional de Place Branding em Londres. Também faz parte do IPM, Institute of Place Management, vinculado a Manchester Metropolitan University.

Texto Extraído do Site: Site Medium.
Foto de Capa:
Caio Esteves.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Place branding: quando lugares tornam-se marcas estratégicas e autênticas

Colagem artística com o Pão de Açúcar, Ponte Estaiada e igreja barroca brasileira, sobrepostos por ícones de mapas e geolocalização, representando cidades e tecnologia no Brasil.

O papel da gestão de marca vai além do âmbito corporativo e comercial. Entenda mais sobre place branding e seu impacto positivo em pessoas e lugares

Através de uma comunicação ágil e direta, desenvolvimento do turismo global, expansão de conteúdos digitais focados em lifestyle e relações cada vez mais próximas e multiculturais, cidades, estados e países tornam-se mais do que o destino dos sonhos: eles passam a agir ativamente na construção de memórias, marcam momentos importantes e buscam transcender as experiências efêmeras que muitas vezes constituem relações entre pessoas e lugares.

Nessa estratégia de crescimento coletivo – que busca por autonomia e desenvolvimento –, o place branding é essencial para transformar lugares em marcas que criam contatos positivos e transformadores.

Cultura, personalidade e reconhecimento

Assim como as pessoas, lugares possuem histórias. Com base em culturas, tradições e vivências, cada localidade explora o futuro enquanto respeita e preserva seu passado. Em seu ecossistema, desenvolve a comunidade ao mesmo tempo que cidadãos e organizações devem participar dessa construção em sintonia.

Antes de entender como a estratégia ajuda a transformar lugares em marcas, precisamos compreender que a base desse trabalho é feita por pessoas em uma cultura de múltiplo conhecimento que valoriza o ser humano e sua integração à comunidade

No Brasil, por exemplo, cidades do norte do país são totalmente diferentes das sulistas – não apenas em questões ambientais e climáticas, mas também nas atitudes comportamentais, costumes, tradições e, até mesmo, religiões. Essa diversidade impacta a forma como o país é visto não apenas por visitantes de outros países, mas, também, pela própria população, que contempla sua cultura, defende suas tradições e valoriza como seus representantes atuam a partir dessas diferenças.

“Cidadãos são engajados quando desempenham um papel ativo na definição de questões, consideração de soluções e identificação de recursos e prioridades para ação.” Jeannette Hanna, estrategista de branding.

Fazer place branding e criar marcas-lugares, nome dado aos locais que implementam essa estratégia, obtendo sucesso significa, antes de tudo, atuar com o pensamento voltado às particularidades de cada território, colocando sua população como principal aliada nas mudanças. Esse processo se desdobra desde as atitudes governamentais até a definição de um novo propósito para essa marca-lugar.

O que é place branding?

Agora que você entende a base da criação e implementação dessa estratégia, compreenda o que ela significa.

Equação visual representando Place + Brand = Marca-lugar, conceito de place branding.

Branding 

Branding é a concepção de imagens positivas e intencionais para marcas a partir de um processo contínuo de gestão, que permeia o dia a dia e também as ações estratégicas e táticas de todos que as representam. 

Place branding

Nesse sentido, marcas-lugares são localidades – como cidades, estados ou países – que incluem a gestão de marca como suporte, unindo a visão comercial, a administração populacional e as atividades de marketing, design e posicionamento. 

“Muito mais do que belas imagens, o place branding trabalha com o conceito, a ideia central que move (e perpetua) um lugar.” Caio Esteves, autor do livro Place Branding

Com uma visão representativa do desenvolvimento econômico, político e cultural das regiões, essa estratégia de gestão estipula o propósito e a essência do local em questão, assim como em um projeto de marca. 

O papel de ativação do projeto começa, primeiramente, com a identificação das vocações do lugar, compreendendo quais valores importam e quais características o simbolizam. Em seguida, passa-se à potencialização das identidades, reconhecendo seus papéis e formatos. Por fim, o lugar é fortalecido com o uso do branding, somado a outras estratégias de marketing e design, o que permite estruturar de forma consistente a comunicação da marca-lugar.

Diagrama circular mostrando áreas interdisciplinares que compõem o Place Branding, como sociologia, marketing, urbanismo e gestão pública.

Gráfico “O tamanho da encrenca” do livro Place Branding de Caio Esteves

As esferas que apoiam o place branding voltam-se a diversas faces de desenvolvimento, indo das particularidades sociológicas às técnicas de marketing aplicadas na comunicação. 

Como a gestão trabalha cada ponto de atenção?

Tendo como exemplo a sustentabilidade, as estratégias são ativadas em frentes como:

  • Inovação sustentável;
  • Prioridade aos pedestres;
  • Transportes alternativos;
  • Investimento em preservação do meio ambiente;
  • Diversidade de energias;
  • Hortas comunitárias;
  • Campanhas de preservação;
  • Cuidado e integração a espaços verdes.

As ações de cada frente do place branding são orientadas por duas estruturas desenvolvidas na estratégia: a essência e o posicionamento da marca-lugar, que direcionam suas formas de pensar e agir. 

Place branding, place marketing ou place management?

Apesar de parecerem nomes diferentes para a mesma estratégia, place branding, place marketing e place management são ações distintas que compõem a gestão das marcas-lugares. 

Place branding: método de planejar, desenvolver e construir o posicionamento de marca para o lugar. 

O place marketing: meio que aborda e cria ações de marketing voltadas às necessidades e desejos dos públicos-alvo. 

O place management: processo de manutenção, modificação e desenvolvimento do projeto ao passar do tempo, buscando manter as diretrizes construídas no posicionamento. Em alguns casos, esse trabalho é feito por um brand manager

O place branding, portanto, atua como um definidor para a base da comunicação e propósito do lugar, transformando as ações que já existem e estipulando os racionais necessários para manter essa essência no futuro.

Benefícios do place branding

Entendendo que o place branding tem seu início nas pessoas e que se desenvolve para várias áreas da administração local, descubra agora quais são os principais benefícios dessa estratégia:

Identidade definida

Com sua identidade visual estipulada, a marca-lugar pode comunicar-se de forma única, tendo voz própria e autenticidade.

Proximidade da população

Com um povo orgulhoso de suas raízes, a cidade, estado ou país pode estar mais próximo de seus moradores e contar com a colaboração dos cidadãos para aplicar e evoluir esse novo posicionamento.

Economia aquecida

Como consequência da comunicação unificada, dos objetivos pautados em conjunto e da divulgação empoderada pela marca-lugar, o aumento dos negócios e o fortalecimento do comércio local acontecem.

Maior qualidade de vida

Através das atitudes alinhadas e colaborativas, empresas, cidadãos e órgãos públicos trabalham com objetivos claros e um posicionamento único, aumentando a qualidade de vida através da atuação conjunta. 

Atitudes alinhadas ao propósito

O posicionamento da marca-lugar serve como um guia de atitudes, projetos e comunicação que permite maior racionalização nas tomadas de decisões.

“Fazer com que pessoas se conectem a um local através de experiências relevantes e positivas é uma das principais funções do place branding. Esse processo que integra passado e futuro atua na união de pessoas e no desenvolvimento de lugares.” Cleiton Nass, diretor criativo e novos negócios no Firmorama

Além disso, locais que adotam estratégias de place branding tendem a alinhar suas características com as diretrizes da Project for Public Spaces (PPS). A PPS é uma organização interdisciplinar, sem fins lucrativos, que atua no planejamento de lugares públicos por meio do placemaking. Esse alinhamento contribui para que esses lugares se tornem mais bem-sucedidos.

Segundo a organização, o sucesso de um lugar se garante a partir de quatro grupos de atuação:

  • Sociabilidade: senso de lugar por convivência;
  • Usos e atividades: lugares usados e reusados para seus objetivos;
  • Acessos e conexões: lugares que possuem fácil acesso de conexão física e visual;
  • Conforto e imagem: sensações de segurança e limpeza, e boa apresentação visual.

Cases de place branding:

Agora que você conhece a base teórica dessa estratégia de gestão de marca, é possível avançar para a prática. A seguir, apresentamos cases de sucesso já consolidados no cenário internacional. 

Nova Iorque

Iniciado nos anos 60, o “I love NY” é um dos casos de place branding mais bem definidos e acatados ao passar dos anos. O “slogan” que apareceu como apoio à diminuição da imagem violenta da cidade, acabou tornando-se orgulho dos moradores.

O slogan é visto em diversos pontos da cidade.

Peru

Com o posicionamento de que “existe um Peru para cada um”, o país se estabeleceu como um lugar de esplendor, diversidade e hospitalidade, não apenas em sua comunicação, mas, também, nas ações de turismo e economia.

Peru é um dos cases de sucesso mais recentes do place branding.

Las Vegas

“O que acontece em Vegas, fica em Vegas” – que nasceu como “o que acontece aqui fica aqui” – é um dos slogans mais conhecidos do mundo, repetido em diversos países e até mesmo em obras cinematográficas. Ele colabora para o place branding do lugar que transmite, principalmente nos hotéis e empresas turísticas, a ideia de que lá tudo é possível.

Com uma abordagem de liberdade, a cidade de Las Vegas possui uma vida noturna animada.

Texto Extraído do Site: Firmorama.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.