A Política da boa vizinhança 

Vista externa noturna de um prédio residencial com janelas de vidro iluminadas, mostrando detalhes da vida cotidiana em diversos apartamentos.

O que é ser um bom vizinho? 

Seria a disposição de ajudar um vizinho contando com a reciprocidade no futuro, ou quem sabe salvar um desconhecido de um perrengue inesperado? Ou, talvez, resuma-se apenas em ser educado e discreto o suficiente para passar despercebido. Ou é ser aquele vizinho tão presente que já faz parte da família? 

Muitas são as atitudes que podem qualificar o que é ser um bom vizinho, mas uma regra com certeza é premissa para todas elas: na política da boa vizinhança, quem chega depois respeita quem veio primeiro. 

1. OXXO, O VIZINHO DE TODOS NÓS 

Loja de conveniência OXXO iluminada durante a noite, com destaque para o letreiro vermelho e branco e uma promoção de água mineral 2x$26 no topo da entrada.

Resolvi trazer neste artigo a reflexão sobre um vizinho um tanto espalhafatoso, polêmico e onipresente em vários bairros da cidade, pelo menos para quem mora no estado de São Paulo. 

A rede mexicana OXXO desembarcou no Brasil em 2020 e, neste ano, completa cinco anos de operação no país com um crescimento expressivo. 

Foi assim: de um dia para o outro, piscamos os olhos e a paisagem das nossas esquinas mudou. As fachadas vermelhas e amarelas alardearam: “Oi, somos seus novos vizinhos e somos muitos.” Não faltaram memes reforçando a mudança na paisagem. 

Meme humorístico com pintura clássica editada. Um alienígena com o logo da loja OXXO na cabeça é segurado por uma figura feminina, com os dizeres: “Meu Deus, uma esquina. Me solta que eu vou inaugurar”.

Desde a inauguração da primeira unidade em Campinas, no interior paulista, a marca expandiu numa velocidade quase que exponencial, com uma média de uma loja a cada dois dias.  

São 600 lojas espalhadas pelo estado de São Paulo, incluindo a capital, o interior e a Baixada Santista. O modelo de negócio, baseado em se fixar em lugares de grande concentração e fluxo de pessoas, começou com o marketing “aberto 24 horas por dia”, mas recentemente mudou a estratégia e, segundo os estrategistas de marketing, decidiu aproximar a marca da sua vizinhança.

A ideia de explicar a pronúncia “Ó quis sô” e aproximar a marca do dia a dia da vizinhança é boa, mas estratégias à parte, qual é o real impacto da proliferação de “Ó quis sôs” pelos bairros de São Paulo? 

Podemos elencar alguns dos principais: 

  • Fechamento de pequenos comércios: A concorrência com a OXXO pode levar ao fechamento de vendinhas e mercadinhos de bairro, que não conseguem competir com a estrutura e os preços da rede. No México, estimativas indicam que, a cada loja OXXO aberta, entre cinco e sete pequenos comércios fecham. 
  • Monocultura comercial e perda de identidade local: O crescimento massivo da OXXO pode levar à padronização do comércio, reduzindo a diversidade e descaracterizando bairros que antes tinham estabelecimentos únicos e familiares. 
  • Concorrência desleal: A OXXO se beneficia de poder de compra e logística eficiente, garantindo preços mais baixos e estoque variado, algo que pequenos comerciantes não conseguem igualar. Além disso, existem questionamentos sobre possíveis benefícios fiscais e subsídios que facilitam a rápida expansão da rede. 
  • Evasão de renda da comunidade: Diferente das vendinhas de bairro, que reinvestem o dinheiro localmente, a OXXO faz parte de um grande conglomerado (FEMSA), e o lucro gerado é direcionado para fora das comunidades onde opera. 
  • Impacto nas relações sociais: Os mercadinhos de bairro geralmente estabelecem laços com a vizinhança, oferecendo fiado, atendimento personalizado e um senso de comunidade. Com a substituição por lojas padronizadas e impessoais, essa dinâmica social é, sem dúvida, enfraquecida. 
  • Precarização das condições de trabalho: Relatos indicam que a OXXO opera com equipes reduzidas, exigindo que poucos funcionários desempenhem múltiplas funções, como caixa, reposição de estoque e limpeza. Além disso, há denúncias sobre baixos salários, alta rotatividade e falta de benefícios comparáveis aos de supermercados maiores, o que pode resultar em sobrecarga e instabilidade para os trabalhadores.
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2. PODERIA SER BEM DIFERENTE

Recentemente, escrevi um artigo sobre o pacote da hospitalidade japonesa e citei as Konbinis, as famosas lojas de conveniência.

Sem dúvida, elas são um guia prático de como a hospitalidade, a valorização da identidade local e a preservação da cultura do país podem se manifestar numa cidade. 

Se traçarmos um paralelo com a rede OXXO, podemos perceber de maneira bem clara o quanto elas, apesar de serem entendidas como lojas de conveniência, são completamente distintas. Isso fica claro no primeiro segundo em que entramos em cada uma delas. Nos “Ó quis sôs” da vida, o que encontramos são produtos genéricos de qualidade duvidosa e, o pior, por um preço igualável a qualquer hipermercado. Como diria minha mãe: “…que vantagem Maria leva?”. Trata-se puramente de uma relação de necessidade de emergência X presença física. Poderia ser o OXXO, poderia ser um posto de combustíveis, poderia ser uma vending machine, ou seja, a relação de vizinhança no sentido afetivo da palavra não existe. É só uma questão de praticidade momentânea, não há nenhum laço estabelecido. 

3. VITALIDADE COMUNITÁRIA 

O comércio local desempenha um papel fundamental na vitalidade comunitária, influenciando diretamente a economia, a identidade cultural e a coesão social de uma região. Aqui na consultoria, tratamos esse tema como uma das 12 dimensões da cidade antifrágil. Falar de priorizar o comércio local é falar de: 

  • Fortalecimento da economia local: As vendinhas, padarias, quitandas, mercadinhos, empórios do bairro geram ganhos para toda a comunidade, contribuindo para a circulação de dinheiro dentro da região e estimulando o desenvolvimento econômico sustentável. 
  • Preservação da identidade cultural: O comércio local é um pilar para o fortalecimento da identidade comunitária. Ao apoiar negócios locais, os consumidores contribuem para a preservação das tradições, culturas e valores que definem a comunidade. Esses comércios oferecem produtos e serviços que refletem as particularidades regionais, diferenciando a comunidade de outras e fortalecendo o senso de pertencimento e coesão social. 
  • Criação de empregos e melhoria da qualidade de vida: Apoiar o comércio local é mais do que uma prática econômica; é um investimento na saúde e prosperidade da comunidade. Negócios locais são responsáveis por uma parcela significativa dos empregos formais, contribuindo para a redução do desemprego e melhoria da qualidade de vida dos moradores. 
  • Estímulo à inovação e sustentabilidade: Comerciantes locais, devido ao seu conhecimento íntimo da comunidade, são mais adaptáveis às necessidades específicas dos clientes. Essa proximidade permite a oferta de produtos e serviços inovadores e personalizados. A valorização do comércio local também promove práticas sustentáveis. Ao reduzir a necessidade de transporte de longa distância, o consumo regional diminui a pegada de carbono.
  • Fortalecimento do senso de pertencimento: Comerciantes locais frequentemente participam ativamente de eventos comunitários e contribuem para o fortalecimento dos laços e da convivência social. A presença de feiras livres, por exemplo, mantém viva a relação humana direta, essencial para a construção de uma comunidade unida e resiliente. 

Em síntese, o comércio local é uma das ferramentas mais poderosas para a saúde e vitalidade de uma comunidade. Ele impulsiona a economia, preserva a cultura, cria empregos, estimula a inovação e fortalece os laços sociais.

A divisão entre expansão e saudação

Na pandemia, os pequenos comércios foram duramente afetados por não estarem preparados e equipados tecnologicamente para tempos de distanciamento compulsório. Muitos não aguentaram e tiveram que fechar as portas. Mas, por outro lado, os que resistiram tiveram um papel fundamental. Esses sim foram nossos verdadeiros vizinhos: nos acolheram, nos acalentaram e nos possibilitaram o exercício mínimo do senso de comunidade em tempos tão difíceis. 

O OXXO que me perdoe, mas nada substitui uma saudação calorosa do tipo: “Dona Mariane, seu cereal preferido chegou, tá separado aqui!” 

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Futuros das cidades e as mudanças climáticas: o impacto da retirada dos EUA do Acordo de Paris

Homem de terno escuro e gravata vermelha, sentado na mesa presidencial do Salão Oval da Casa Branca, com os braços cruzados e expressão séria. Ao fundo, cortinas douradas, a bandeira dos Estados Unidos e o selo presidencial.

Em janeiro de 2025, Trump anunciou novamente a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, repetindo sua decisão de 2020, revertida por Biden após 77 dias. A nova retirada tem um grande impacto global. Sendo os EUA uma das maiores economias do mundo e um dos principais emissores de gases de efeito estufa (GEE), a decisão representa um retrocesso significativo nos esforços internacionais para conter a crise climática e impacta diretamente o futuro das cidades, uma vez que agrava problemas urbanos derivados das mudanças climáticas. 

Trump adota uma postura negacionista em relação às mudanças climáticas e acredita que o Acordo de Paris prejudica a economia dos EUA. Ele demonstra pouca preocupação com o aquecimento global, o que se reflete em sua política energética, fortemente baseada em fontes não renováveis, especialmente o petróleo. 

Sua abordagem traça um caminho para os EUA que vai na contramão da crescente preocupação global com a agenda ambiental. Os impactos das mudanças climáticas já são cada vez mais evidentes, manifestando-se em ondas de calor, chuvas intensas, enchentes e queimadas. 

O Acordo de Paris é um tratado internacional adotado em 2015 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), em Paris, com o objetivo de combater as mudanças climáticas. Ele foi assinado por quase todos os países do mundo e representa um compromisso global para limitar o aumento da temperatura média do planeta bem abaixo de 2°C, preferencialmente 1,5°C, em relação aos níveis pré-industriais. 

O que é COP?

A Conferência das Partes (COP) é o principal evento global sobre mudanças climáticas, realizado anualmente sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Durante a COP, líderes mundiais, cientistas, ONGs e o setor privado discutem estratégias e acordos para combater a crise climática.

A próxima COP 30 será realizada no Brasil, na cidade de Belém, em 2025. Essa escolha tem grande relevância porque: 

  • Amazônia como epicentro climático: desempenha papel crucial na regulação climática global e na absorção de carbono.
  • Pressão para políticas de conservação: reforça a necessidade de medidas mais eficazes para proteger a Amazônia e combater o desmatamento.
  • Visibilidade internacional: destaca o Brasil nas discussões ambientais, impulsionando políticas públicas e investimentos em sustentabilidade. 

Mas por que o Acordo de Paris é importante?

  • Reduz o impacto das mudanças climáticas: busca mitigar efeitos do aquecimento global, como secas, tempestades, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade. 
  • Estabelece metas claras de redução de emissões: os países signatários devem apresentar Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), revisadas a cada cinco anos. Durante a COP 30, os países devem apresentar suas NDCs atualizadas. 
  • Fomenta o financiamento climático: prevê US$ 100 bilhões anuais para ajudar países em desenvolvimento a implementar políticas climáticas e desenvolver economias sustentáveis. 
  • Promove a transição para energias limpas: incentiva investimentos em energias renováveis, eficiência energética e tecnologias sustentáveis. 
  • Garante cooperação global: é um compromisso coletivo de quase todos os países, promovendo esforços conjuntos para reduzir emissões. 
  • Pressiona governos e empresas a agir: influencia políticas públicas e práticas empresariais, incentivando a adoção de estratégias sustentáveis e inovações ecológicas. 

Importante: o acordo não impõe obrigações, sendo responsabilidade de cada país estruturar suas políticas públicas para cumprir as NDCs acordadas.

​​Relatório da Lacuna de Emissões do PNUMA 

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal autoridade ambiental da ONU. Desde 2010, anualmente lança um documento sobre as emissões de GEE no globo. Suas análises foram essenciais para embasar as negociações internacionais que culminaram no Acordo de Paris durante a COP21

Atualmente analisa a diferença entre as emissões globais de GEE e as metas estabelecidas no Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5°C ou 2°C.  

O relatório de 2024 destaca que as emissões continuam em ascensão, colocando em risco as metas do acordo. Para limitar o aquecimento a 1,5°C, seria necessária uma redução de 42% até 2030 e 57% até 2035. Abaixo é destacado os principais emissores de gases de efeito estufa: 

Tabela que destaca os principais emissores de gases de efeito estufa
Fonte: PNUMA, 2024 

Apesar de alguns países terem reduzido suas emissões, os níveis globais ainda são elevados, podendo resultar em um aquecimento de até 3,1°C até o fim do século, com impactos devastadores, como ondas de calor extremas, aumento do nível do mar, secas severas e crises econômicas e ambientais. O relatório reforça a urgência de medidas mais ambiciosas para evitar danos irreversíveis. 

Então qual o impacto da saída dos EUA do Acordo de Paris?  

Sendo o segundo maior emissor de GEE do mundo, sua saída reduz a pressão internacional por cortes de emissões, enfraquecendo ainda mais os esforços globais de mitigação climática, especialmente porque o Acordo de Paris é um compromisso voluntário, não uma obrigação.  

Isso pode ampliar a lacuna de emissões e dificultar ainda mais o alcance das metas climáticas estabelecidas. Ainda mais, com os EUA planejando intensificar os investimentos em fontes de energia não renováveis nos próximos anos, aumentando ainda mais as emissões de GEE. 

Diante da incerteza global e do agravamento das mudanças climáticas, torna-se cada dia mais indispensável pensar em cidades e territórios à prova de futuros. 

Como as cidades podem e devem agir? 

O impacto das mudanças climáticas já é visível em muitas cidades brasileiras, e a tendência é que esse cenário se agrave ainda mais, dado os rumos globais que o problema vem tomando, como a saída dos EUA do Acordo de Paris.  

Um exemplo recente é Voçoroca, no Maranhão, que decretou estado de calamidade pública devido ao avanço da erosão, ameaçando mais de 1.200 pessoas. Da mesma forma, as enchentes no Rio Grande do Sul e as ondas de calor recordes destacam a necessidade urgente de adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos. Esses casos evidenciam como a falta de planejamento territorial e de infraestrutura resiliente pode agravar os impactos climáticos e colocar comunidades inteiras em risco. 

Imagem aérea mostra uma enorme cratera de erosão próxima a um bairro residencial com casas de telhado vermelho, evidenciando o risco geológico iminente para a comunidade.
Credito: www.folhape.com.br

Para enfrentar esses desafios, o primeiro passo é compreender como a rede de espaços públicos das cidades está ajudando ou Para enfrentar esses desafios, o primeiro passo é compreender como a rede de espaços públicos das cidades está ajudando ou piorando os impactos climáticos. Um exemplo inspirador vem de Andernach, na Alemanha, onde o espaço público foi transformado em uma cidade comestível, promovendo segurança alimentar e resiliência climática. Desde 2010, a cidade substituiu áreas verdes ornamentais por hortas e pomares acessíveis à população, reduzindo ilhas de calor, melhorando a permeabilidade do solo e tornando os espaços urbanos mais adaptáveis a eventos climáticos extremos. A iniciativa também fortalece a biodiversidade e incentiva a participação comunitária na gestão ambiental. 

Como podemos analisar se os espaços urbanos são à prova de futuros? 

Estamos desenvolvendo um documento com Critérios para Lugares à Prova de Futuro, que será disponibilizado ainda este ano, para auxiliar cidades na análise e adaptação de seus espaços urbanos. O documento parte de critérios urbanísticos e ambientais para analisar redes de espaços públicos e identificar deficiências, orientando cidades a avançarem em direção à antifragilidade. Um de seus eixos centrais é o de mudanças climáticas, que avalia como os espaços públicos podem promover resiliência e adaptação, uma vez que são peça-chave na mitigação dos impactos das mudanças climáticas. 

A ideia é não apenas diagnosticar, mas também demonstrar como os espaços públicos podem ser protagonistas na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, ajudando a construir territórios mais equilibrados, diversos e antifrágeis. 


Fontes:  
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (PNUMA). Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2024: Chega de calor… por favor! Nairobi: PNUMA, 2024. Disponível em: unep.org
Imagem1- Saul Loeb/AFP – Donald Trump 
Imagem2- Folha de Pernambuco.

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Novo Centro Administrativo de SP: Lições para Lugares à Prova de Futuro

Renderização do projeto do novo Centro Administrativo de São Paulo, mostrando edifícios modernos cercados por áreas verdes com árvores e espaços abertos, inseridos no contexto urbano da cidade.

O governo do estado de São Paulo anunciou um ambicioso projeto estimado em R$ 5 bilhões para construir sua nova sede administrativa no Campos Elíseos, bairro central da capital paulista. O projeto promete não apenas revitalizar a região, como valorizá-la para atrair investimentos imobiliários no entorno e, assim, transformar a área em um novo polo no coração da cidade. 

Gostando ou não (para deixar claro: não gostamos), quando cidades de importância global como São Paulo lançam empreitadas desta proporção, muitos outros lugares observam e, frequentemente, aplicam soluções semelhantes sem o devido filtro de escala e conexão com sua realidade. Antes de qualquer coisa, projetos como este são uma oportunidade para refletir, em tempo real, sobre o que pode funcionar ou não na criação de lugares adaptáveis e à prova de futuro

Nesse contexto, é preciso questionar: o projeto do novo centro administrativo do governo paulista está preparando a cidade para lidar com as incertezas do amanhã ou apenas dando uma nova roupagem para abordagens ultrapassadas e incapazes de criar valor à longo prazo?

6 desafios cruciais para o projeto do novo Centro Administrativo de SP

Para responder a essa pergunta, calçamos as lentes da antifragilidade para analisar os aspectos fundamentais do projeto e identificamos seis pontos que merecem atenção especial: 

1. Falta de participação

O projeto, que prevê a remoção de 600 famílias, foi desenvolvidosem a participação ativa de moradores, comerciantes e entidades não só da área diretamente afetada como do seu entorno. A população local também não teve a oportunidade de dialogar de forma significativa com os agentes públicos responsáveis pela execução das remoções. 

Mesmo aqueles que conseguiram realizar o cadastro, não receberam garantias concretas de atendimento habitacional adequado, isto é, não sabem para onde vão, quando vão e em quais condições. Essa falta de transparência e participação são posturas que aumentam a insegurança jurídica dos atingidos e a desconfiança popular em relação ao projeto.

2. Impactos socioeconômicos

O governo planeja ocupar o Palácio dos Campos Elíseos, onde hoje funciona o Museu das Favelas, um equipamento simbólico e culturalmente relevante para cidade. O projeto também prevê uma esplanada para criar um “percurso desobstruído e convidativo” que exigirá a desativação do Terminal Urbano Princesa Isabel, por onde circulam 18 linhas de ônibus essenciais que conectam o centro da cidade a áreas mais afastadas. 

Na medida em que não está claro se o museu continuará aberto após a implementação do novo centro administrativo, nem quais serão as alternativas de operação das 18 linhas que passam pelo Terminal Princesa Isabel, é inevitável questionar se a valorização do projeto ocorrerá às custas de quem vive e circula no bairro.

3. Impactos imobiliários

Ao buscar “valorizar” a região, o projeto visa atrair maior interesse do setor imobiliário para a construção de novos empreendimentos habitacionais, voltados principalmente para a classe média. Na prática, essa nova oferta tende a elevar os valores de aluguéis residenciais e comerciais, tornando a permanência no bairro economicamente inviável para moradores de baixa renda e pequenos comerciantes que mantêm negócios na área e no entorno.  

Dessa forma, o processo de valorização pode acabar excluindo justamente aqueles que historicamente deram vida e identidade ao Campos Elíseos. Ou seja, a remoção não se limitará “apenas” às 600 famílias que residem nas quadras a serem desocupadas.

4. Sem retrofit

Projetos que promovem demolições em larga escala costumam fragmentar o território não apenas na paisagem e na arquitetura, mas também nos laços comunitários e sociais que sustentam a vida local. No caso do Campos Elíseos, existem diversos edifícios já construídos e integrados à malha urbana que poderiam ter sua infraestrutura adaptada para novos usos, reduzindo impactos ambientais, sociais e culturais. 

Em vez de derrubar casas para construir prédios, o foco poderia estar em promover um retrofit dos imóveis abandonados ou subutilizados que já fazem parte do tecido urbano da região. Além de preservar a memória local, essa abordagem fortaleceria a identidade do bairro, em vez de apagá-la em nome de um desenvolvimento que, conforme pontuado acima, pode excluir quem já pertence ao lugar.

5. Desconexão com o futuro do trabalho

Cada vez mais, as relações profissionais dispensam a necessidade de presença física em escritórios, acompanhando uma tendência global de expansão do trabalho remoto. Diante desse cenário, surge uma questão crucial: quantos dos 22 mil funcionários previstos para ocupar os novos prédios do centro administrativo permanecerão em regime 100% presencial nos próximos anos e décadas?

Além de correr o risco de nascer obsoleto frente às transformações no mundo do trabalho, o projeto pode contribuir para um novo esvaziamento da área em um futuro não tão distante. Investir em estruturas físicas massivas, sem considerar a flexibilidade e a mobilidade que o futuro exigirá, pode ser um passo em falso em um mundo que avança a passos largos rumo à desterritorialização.

6. Ausência de sustentabilidade

Uma das justificativas apresentadas para a construção da nova sede é a redução dos custos de manutenção dos imóveis que atualmente abrigam as funções administrativas do governo. Contudo, este argumento não considera os custos ambientais e econômicos da desativação das sedes atuais, nem os resíduos gerados pela demolição dos edifícios existentes na área do projeto e os impactos ambientais gerados pela construção civil em obras desta dimensão. 

A ausência de soluções sustentáveis e ambientalmente conscientes em um projeto para o centro de uma cidade já tão densamente ocupada e carente de iniciativas que equilibrem desenvolvimento e preservação ambiental, vai na contramão de um esforço global de cidades cada vez mais comprometidas em reduzir impactos, especialmente tendo em vista a mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

    Da PPP aos 4Ps: três projetos que sinalizam que o futuro das cidades precisa de pessoas envolvidas

    Frente a todas essas fragilidades, o projeto da nova sede administrativa perde a oportunidade de posicionar a cidade e o estado de São Paulo como modelos de adaptação aos movimentos de transformação urbana já em curso. Em diferentes partes do mundo, experiências atentas a eventos como as mudanças climáticas, os fluxos migratórios e a digitalização do trabalho – para citar apenas alguns dos mais conhecidos – têm respondido de forma assertiva aos desafios e sinais que o futuro já está emitindo para nós. 

    O ponto em comum dessas respostas bem-sucedidas está na integração das pessoas aos processos. Cada vez mais, as populações urbanas desejam fazer parte de projetos que conectem inovação às suas necessidades e fortaleçam o senso de pertencimento.  

    Em outras palavras, o modelo de parcerias público-privadas (PPP) já não é suficiente. É preciso adicionar um novo “P” a esse processo – o “P” de Pessoas. 

    Os três cases a seguir ilustram como parcerias para a adaptação urbana podem ser lideradas tanto pelo público como pelo privado e, por que não, pelas pessoas também:  

    Kensington Market Community Land Trust (Toronto, Canadá)

    A história do bairro Campos Elíseos é semelhante à de bairros antigos em grandes cidades: uma trajetória de glamour, abandono e “revitalização”. Da sua criação pela elite cafeeira no século XIX à transformação em refúgio de trabalhadores e migrantes marginalizados, o bairro hoje flerta com a promessa de uma nova valorização, mesmo que isso custe o deslocamento forçado de quem habita e trabalha no bairro há muito tempo.  

    Até alguns anos atrás, esta era a história e o destino de Kensington Market, bairro central de Toronto, mas a comunidade local encontrou uma rota alternativa através do modelo de Community Land Trust (CLT), conceito que foca na aquisição de terras doadas ou compradas por organizações comunitárias para atender às necessidades e prioridades dos moradores e comerciantes locais.  

    Geridas por moradores, stakeholders e poder público, os CLTs colaboram diretamente com a comunidade para planejar e decidir o uso da terra, priorizando a garantia de habitação acessível, proteção da especulação imobiliária e manutenção da identidade local sem deslocar moradores e comerciantes. 

     Grupo de moradores em frente a um prédio no Kensington Market, Toronto, segurando uma faixa com os dizeres 'Community Owned Kensington', representando a iniciativa comunitária de preservação local.
    FOTO: KENSINGTON MARKET COMMUNITY LAND TRUST 

    Capital Europeia Verde (Nantes, França)

    Enquanto muitas cidades lutam para conciliar crescimento econômico e sustentabilidade, Nantes emergiu como um modelo de transformação urbana verde através de um amplo programa de retrofit residencial. Com a missão de melhorar a eficiência energética de seu parque imobiliário envelhecido, a gestão municipal desenvolveu uma abordagem inovadora que combina tecnologia, inclusão social e participação comunitária. 

    A estratégia previa retrofit em 3.500 residências, com foco em domicílios de baixa renda, através de uma plataforma que conecta proprietários, profissionais e autoridades. As intervenções incluem isolamento térmico, implementação de energias renováveis e sistemas de gestão energética inteligentes, e fazem parte de uma série de políticas ambientais que renderam à cidade o título de “capital europeia verde”.  

    Ao priorizar a participação de moradores e oferecer financiamento acessível, Nantes demonstra como a gestão pública pode liderar projetos de grande escala de forma inclusiva, melhorando a qualidade de vida na cidade sem comprometer a permanência da população ou sua identidade arquitetônica. 

    Casal andando de bicicleta ao longo do rio em Nantes, França, com esculturas circulares modernas ao fundo, representando o compromisso da cidade com sustentabilidade e espaços urbanos acessíveis
    FOTO: LA CITÉ – NANTES 

    Instituto Porto Seguro (Campos Elíseos, São Paulo)

    A natureza das empresas que operam no mercado imobiliário é buscar o lucro acima de qualquer coisa, mas a Porto Seguro demonstrou que o setor privado também pode ser um agente de transformação urbana positiva. No coração do próprio bairro Campos Elíseos, a seguradora investiu na restauração de diversos imóveis, incluindo um casarão histórico de 1895, não apenas preservando o patrimônio arquitetônico, mas também criando espaços de convivência e cultura para a comunidade local. 

    Muito além de um retrofit, o projeto inclui parcerias com organizações sociais e culturais. Juntas, elas ajudaram a transformar o espaço em um centro de atividades gratuitas para a população, como oficinas, exposições e eventos. Como resultado, a iniciativa não apenas recuperou edifícios históricos da cidade, mas também criou oportunidades de desenvolvimento social e econômico para os moradores do entorno.  

    Uma prova de que se o objetivo é realmente valorizar o bairro, até mesmo o investimento privado pode contribuir sem demolir o patrimônio histórico e envolvendo a comunidade em vez de deslocá-la ou removê-la. 

    Fachada de edifício histórico restaurado em Campos Elíseos, São Paulo, cercado por árvores e com prédios modernos ao fundo, destacando a preservação do patrimônio arquitetônico.
    FOTO: BLOG DA PORTO SEGURO 

    Lições do Novo Centro Administrativo de SP para pensar lugares à prova de futuro 

    O novo centro administrativo do governo paulista revela um ponto importante. Mesmo com grandes investimentos, gestores ainda tomam decisões que se tornam obsoletas em pouco tempo. Isso ocorre, sobretudo, quando ignoram as reais necessidades das pessoas envolvidas. Além disso, muitas dessas escolhas desconsideram a urgência de tornar os lugares adaptáveis às transformações que, inevitavelmente, os futuros trarão. 

    A chave reside em colocar as pessoas no centro do processo, conforme as experiências bem-sucedidas mundo afora confirmam. Lugares à prova de futuro e antifrágeis são construídos quando cada decisão é tomada de forma compartilhada e equilibrando necessidades imediatas com uma visão de longo prazo. 

    Como projetos de transformação urbana podem fortalecer comunidades e identidades, em vez de deslocá-las ou apagá-las? Além disso, de que forma tecnologias emergentes e práticas sustentáveis podem se integrar à criação de espaços mais adaptativos? Mais importante do que encontrar respostas imediatas é aprender a conviver com essas perguntas e com muitas outras. A partir disso, a lição se torna clara: precisamos superar o pensamento linear tradicional e adotar uma visão de desenvolvimento verdadeiramente orientada para os futuros possíveis.

    Artigo escrito em colaboração por Emannuel Costa e Camila Kato.

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    Explorando os Futuros dos Lugares: O Que é e Como Aplicar o Place Strategic Foresight© 

    Uma paisagem futurista e iluminada ao anoitecer, destacando estruturas altas e brilhantes semelhantes a árvores artificiais com iluminação dourada e vermelha. Essas estruturas têm copas compostas por padrões geométricos e metálicos, lembrando uma fusão entre natureza e tecnologia. Ao fundo, vê-se um grande edifício moderno com um design icônico de três torres conectadas no topo por uma estrutura horizontal. O céu azul contrasta com a iluminação vibrante da cena urbana, criando uma atmosfera de inovação e arquitetura visionária.

    Desde que o ser humano começou a sonhar com o amanhã, tentamos prever o que teremos pela frente. Das profecias dos oráculos gregos às simulações mais modernas com inteligência artificial, o futuro sempre nos fascinou e desafiou. Mas e se, em vez de tentar prever um único futuro (lembrando que o futuro não só é imprevisível como plural), pudéssemos explorar vários cenários e nos preparar para cada um deles? É aqui que entra o conceito de Place Strategic Foresight©.

    O que é Place Strategic Foresight©?

    Em linhas simples, o Place Strategic Foresight© é a aplicação do pensamento prospectivo(foresight) às cidades, regiões e países. Novamente, não se trata de previsão, e sim, de exploração, propondo ferramentas para imaginar futuros alternativos e criar estratégias para que os lugares não apenas sobrevivam, mas prosperem em diferentes cenários, ao mapear possibilidades e construir opcionalidades — soluções que garantam antifragilidade e adaptação a incertezas. 

    Este conceito nasce da interseção entre três disciplinas: place branding, placemaking e strategic foresight. Enquanto o place branding foca em consolidar a identidade de um lugar e sua comunicação com o mundo, o placemaking cria experiências reais e tangíveis para as pessoas nos espaços-públicos/ coletivos. O strategic foresight adiciona a capacidade de pensar no longo prazo, explorando múltiplos futuros potenciais. Juntas, essas abordagens transformam a forma como entendemos os desafios e as oportunidades dos lugares.

    De onde vem essa ideia?

    O estudo dos futuros é antigo. Ele remonta às utopias do Renascimento e à Revolução Científica, mas ganhou fôlego no século XX, impulsionada por figuras como Gaston Berger e Alvin Toffler. No entanto, o Place Strategic Foresight© deriva do Futurismo Estratégico (Strategic Foresight), que surgiu como resposta às incertezas do mundo contemporâneo, marcado pelo conceito VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Ao aplicar essa ferramenta a lugares, criamos uma abordagem mais contextualizada e colaborativa.

    Como funciona?

    O Place Strategic Foresight© segue etapas bem definidas, começando pelo entendimento profundo do lugar — sua identidade, cultura, vocações e desafios atuais. Esse trabalho inicial, desenvolvido através do place branding, forma a base para os próximos passos. 

    1. Mapeamento do ambiente incerto: Aqui, é feita uma coleta ampla de sinais fracos e fortes, tendências e incertezas que podem impactar o lugar. Sinais fracos são aqueles indícios iniciais de grandes transformações, enquanto sinais fortes já são mais evidentes e amplamente reconhecidos. 

    2. Análise dos sinais: Os dados coletados são decantados, classificados e interpretados para identificar oportunidades e ameaças. 

    3. Criação de cenários: São explorados diferentes futuros baseados nos sinais e tendências identificados. Esses cenários podem incluir desde futuros absurdos e improváveis até os plausíveis e preferíveis. 

    4. Backcasting: Este processo inverte a lógica do planejamento tradicional. Em vez de partir do presente para o futuro, é feito um recuo dos futuros desejáveis até o presente, identificando os passos necessários para alcançá-los. 

    5. Implementação de estratégias: Baseando-se nas visões criadas, são definidos fatores críticos de sucesso e planos de ação. Isso inclui opções flexíveis para lidar com as incertezas do caminho.

    Conexões com Place Branding e Placemaking 

    O Place Strategic Foresight© potencializa o place branding ao fornecer um arcabouço para projetar a identidade de um lugar não apenas com base no presente, mas também nos futuros potenciais. Por exemplo, ao identificar cenários preferíveis, é possível alinhar a narrativa de uma marca-lugar com as aspirações da comunidade e as tendências globais. Além disso, o foresight agrega maior resiliência ao place branding, preparando a marca-lugar para responder às dinâmicas imprevisíveis do mundo contemporâneo. 

    No caso do placemaking, o Place Strategic Foresight© enriquece a criação de experiências tangíveis. A partir dos cenários projetados, é possível planejar lugares que não apenas atendam às demandas atuais, mas também sejam adaptáveis para as necessidades futuras. Por exemplo, um parque pode ser planejado para funcionar como espaço de lazer hoje e como refúgio climático em um cenário de aquecimento global. Assim, o foresight e o placemaking trabalham juntos para criar lugares que sejam relevantes, dinâmicos e preparados para vários futuros.

    Benefícios para o setor público 

    O Place Strategic Foresight oferece ferramentas poderosas para governos municipais, regionais e nacionais. Cidades podem antecipar demandas de infraestrutura, como habitações mais resilientes ou sistemas de transporte sustentáveis. Destinos turísticos, por sua vez, podem planejar experiências que alinhem atrativos naturais às expectativas do visitante contemporâneo. 

    A participação comunitária é essencial nesse processo, garantindo que as soluções não apenas reflitam as prioridades dos governantes, mas também as aspirações da população.

    Benefícios para empreendedores imobiliários

    Para o mercado imobiliário, o Place Strategic Foresight© é uma ferramenta essencial na criação de bairros planejados. Em vez de construir com base apenas nas demandas atuais, os empreendedores podem projetar de forma a atender a futuras demandas de sustentabilidade, mobilidade e qualidade de vida.

    O resultado da junção de place branding, placemaking e Place Strategic Foresight© é a criação de lugares “à prova de futuro”. 

    Exemplos de impacto na prática 

    1. Regiões rurais em transformação: Ao usar Place Strategic Foresight©, é possível identificar formas de integrar tecnologias verdes para fortalecer economias locais e evitar a migração em massa. Isso também ajuda a preservar a identidade cultural dessas regiões. 
    1. Centros urbanos densos: A aplicação do P.S.F em megacidades pode orientar soluções para problemas de mobilidade e habitação, priorizando espaços verdes e edifícios multifuncionais. 
    1. Destinos turísticos inovadores: Um exemplo seria uma região que se posiciona como destino ecológico ao integrar práticas de turismo sustentável alinhadas a cenários futuros.

    Uma abordagem essencial para o século XXI 

    Em última análise, o Place Strategic Foresight© é sobre antifragilidade, mas também sobre aspiração. Ele nos ajuda a navegar as incertezas do presente com um olhar otimista e estruturado para o futuro, garantindo que lugares estejam prontos para os desafios e possam aproveitar as oportunidades que estão por vir.  

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    Pensar dessa forma, é adotar a incerteza como premissa projetual.

    Pense no futuro como um leque de possibilidades — algumas assustadoras, outras empolgantes. O Place Strategic Foresight© nos oferece as ferramentas para explorar esse leque e moldar os lugares de acordo com os futuros que queremos ver e protegê-los daquilo que eles poderiam se tornar. 

    Hospitalidade para além da simpatia como percepção da marca-lugar

    Rua movimentada em Osaka, Japão, com a icônica Torre Tsutenkaku ao fundo, cercada por letreiros vibrantes em japonês, lojas tradicionais e restaurantes. O cenário colorido inclui estátuas e murais chamativos, enquanto pedestres caminham e exploram o ambiente urbano animado.

    We don’t speak English

    A frase escrita, em letra cursiva, na primeira página de um simpático restaurante em Osaka rendeu um jantar que harmonizou o umami da culinária japonesa com o que eu, pessoalmente, considero o principal ativo do país: a hospitalidade e portanto a marca do lugar.  

    Osaka e o restaurante simpático 

    Rua movimentada em Osaka, Japão, iluminada por letreiros neon vibrantes e fachadas coloridas de restaurantes e lojas. A cena noturna mostra pedestres caminhando, turistas tirando fotos e um ciclista passando, enquanto a icônica estátua dourada de Billiken e diversos elementos tradicionais japoneses decoram o ambiente.
    Osaka, Japão

    Era noite, 5 graus que passavam despercebidos diante do desejo de desvendar Osaka. Afinal, seriam só quatro dias para absorver toda a enxurrada de informações visuais, auditivas, culturais e por aí vai. 

    Tinha sido um dia intenso. Eu, Caio e Luiza estávamos exaustos, porém totalmente entregues àquela instigante cidade. Caminhávamos aleatoriamente em direção ao hotel, com a missão de encontrar um lugar para comer e, finalmente, voltar para dar uma “morridinha” até o novo amanhecer. Foi então que nos deparamos com uma portinha e, do lado de fora, um cardápio num cavalete. Nos aproximamos e, num rápido passar de olhos, conseguimos identificar: tonkatsu, omelete… Perfeito! 

    Entramos em um passo manso e ouvimos a típica saudação vinda de trás do balcão. No Japão, qualquer estabelecimento recebe quem entra com um sonoro “Irasshaimase” em uníssono. Mas, desta vez, apenas uma pessoa disse a frase. Ela atendia um único cliente sentado à sua frente. 

    Fomos encaminhados para uma das duas mesas alojadas no fundo do restaurante e, enquanto tirávamos os casacos, já fomos fisgados pela névoa quente que exalava o cheiro de comida boa. 

    O mesmo senhor que nos saudou nos trouxe a água (sempre cortesia em qualquer restaurante), as toalhinhas umedecidas para limpar as mãos e o cardápio. 

    Hospitalidade in natura 

    Cardápio artesanal de um restaurante japonês, feito com páginas de papel kraft plastificadas, contendo fotos dos pratos, descrições escritas à mão em diferentes idiomas e preços em ienes. As mãos de duas pessoas folheiam o cardápio, que apresenta opções como peixe cru fatiado e peixe cozido com acompanhamentos.

    Ah, o cardápio… Esse me levou diretamente aos tempos de escola, quando colecionava papel de carta. Tínhamos uma pasta onde colávamos os papéis e seus envelopes em uma base de cartolina ou papel kraft, protegíamos com plástico e enfeitávamos com letras e desenhos coloridos. O cardápio era exatamente assim, mas, no lugar dos papéis de carta, estavam fotografias impressas de cada prato, com a descrição escrita à mão, em letras coloridas e enfeitadas. Logo na primeira página, uma frase se destacava do resto: We Don’t Speak English

    A frase era quase um pedido de desculpas, e o que vinha a seguir (as fotos, os desenhos e todo o capricho) era uma forma de compensação pelo hipotético desconforto que nós, turistas, poderíamos sentir. 

    Cidade turística não é sinônimo de hospitalidade

    Agora convido vocês a um exercício (que fizemos ali naquela noite enquanto escolhíamos os pratos): se estivéssemos em Paris e pegássemos um cardápio com a mesma frase escrita, como ela seria interpretada? 

    A conclusão é óbvia e seria validada pela primeira bufada do garçom ao esperar um de nós fazer o pedido. 

    Isso nos faz refletir sobre a tal hospitalidade, tão propagada por diversas capitais e cidades turísticas. Toda cidade adora proclamar aos quatro ventos que é hospitaleira, mas de que hospitalidade estamos falando? E, principalmente, como ela se manifesta em cada lugar? Certamente não existe apenas um tipo de hospitalidade, e, certamente, existem cidades que definitivamente não são hospitaleiras, como é o caso da tão cobiçada Paris.

    Hospitalidade singular

    No Japão, a hospitalidade não está no sorriso escancarado, no abraço ou na simpatia exagerada. A hospitalidade está simplesmente em como a cidade funciona:  

    • Nas konbinis onipresentes, que te entregam tudo o que você precisa – de comida a um kit de higiene básico.  
    • Nos didáticos mockups de pratos na porta dos restaurantes, que acabam com a barreira da língua.  
    • Nos banheiros públicos que são mais dignos do que o da nossa própria casa.  
    • Na cultura desse povo

    Pequenos gestos de grande impacto

    Em qual capital do mundo um taxista correria o risco de parar o trânsito para avisar a turista distraída que seu gorro caiu no chão? A experiência foi tão impactante que, por alguns segundos, fiquei ali, segurando o gorro resgatado e pensando: isso é a marca desse lugar. 

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    Essas experiências positivas e autênticas contribuem por alavancar a indústria do turismo em números galopantes.  

    Em março do ano passado o país bateu um record ao receber quase 3,1 milhões de visitantes, o maior número mensal desde o início dos registros, em 1964.  

    O Japão nos deu uma aula prática de tudo o que sempre falamos aqui na consultoria: a marca de um lugar é o sentimento que temos em relação a ele, e esse sentimento é único, singular. 

    Nos despedimos do Japão com a certeza de que o que vivemos lá só poderia – e só poderá – ser experimentado lá. 

    P.S.: Passei a viagem inteira procurando um letreiro gigante com um I Love Tóquio, mas não achei… 

    Foto de capa: Caio Esteves.

    O caso “Emilia Pérez” e a relação com senso de pertencimento e futuros das cidades.

    Imagem promocional do filme "Emilia Pérez", tema central do artigo sobre autenticidade e representatividade para criar lugares à prova de futuro

    Diversas premiações internacionais apontaram “Emilia Pérez” como o principal rival de “Ainda Estou Aqui”. Com o tempo, o filme se transformou em um estudo de caso sobre autenticidade, representatividade, senso de pertencimento e, principalmente, sobre como não abordar a identidade de um lugar.

    O longa-metragem foi inicialmente aclamado por críticos no mundo todo. No entanto, nas últimas semanas, tanto o filme quanto sua equipe se envolveram em polêmicas que geraram reações negativas, especialmente entre latino-americanos. Fernanda Torres, indicada ao Oscar de melhor atriz por “Ainda Estou Aqui”, decidiu se pronunciar. Pediu que os brasileiros respeitassem o trabalho de Karla Sofía Gáscon, protagonista de “Emilia Pérez”, que também está entre as indicadas.

    Mas como uma discussão aparentemente restrita ao universo do cinema e suas premiações se relaciona diretamente com place branding e futuro das cidades? 

    Emilia Pérez: um retrato controverso

    Muitas vezes, obras cinematográficas são mais do que mero entretenimento, especialmente quando se propõem a contar histórias e transmitir mensagens, baseadas em memórias e ideais. Este parecia ser o caso de “Emilia Pérez”, um musical cuja trama se passa no México e conta a jornada de uma narcotraficante trans que, ao se aposentar, realiza cirurgias de afirmação de gênero e passa a buscar justiça pelos desaparecidos da violência do tráfico, da qual era participante. O enredo que, à primeira vista, aborda temas relevantes está se consolidando como um exemplo de falta de autenticidade. 

    À medida que o filme foi acumulando prêmios e indicações, diversas avaliações negativas começaram a surgir sobre a profunda desconexão entre a obra e a realidade que ela tenta retratar, não só da crítica especializada, mas principalmente de espectadores latino-americanos.  

    Os principais pontos de crítica

    Em outras palavras, a comunidade que detém a memória dos desaparecidos, parte tão importante na história mexicana, não se reconheceram na narrativa apresentada. Dentre os principais problemas apontados sobre o filme neste sentido, destacam-se: 

    1. México, mas não no Méxic:. A equipe filmou “Emilia Pérez” nos arredores de Paris, e não em solo mexicano. A escolha se deve ao fato do próprio diretor do filme (Jacques Audiard) ser francês e preferir trabalhar com sua equipe habitual
    1. Pesquisa superficial: Audiard também é responsável por outras polêmicas. Em uma entrevista, confessou não ter dedicado muito tempo pesquisando sobre o México antes de rodar o filme, pois acreditava “já conhecer o suficiente” sobre o país. Mais recentemente, afirmou que “o espanhol é um idioma de pobres e imigrantes”
    1. México, mas sem mexicanos: Falta de mexicanos na equipe de produção e, principalmente, no elenco. Questionado sobre isso, Audiard tentou justificar a escolha de atrizes não-mexicanas por questões financeiras
    1. Diálogos não-naturais: Consequentemente, há um entendimento compartilhado entre falantes nativos de espanhol de que as nuances de fala nos diálogos entre os personagens não soam natural para os mexicanos, o que ajuda a entender porque o filme foi mais bem recebido pelo público que não fala espanhol. 
    1. Falta de sensibilidade: Uma das principais insatisfações dos mexicanos é a maneira leviana que o filme retratou os desaparecimentos relacionados ao narcotráfico, um assunto extremamente sério e sensível na história do país. Além disso, organizações LGBTQIAP+ também manifestaram críticas à maneira superficial que a realidade e a luta da comunidade trans foi retratada

    A resposta da comunidade

    Evidentemente, a sequência de más decisões e declarações infelizes não poderia resultar em outra coisa, senão uma profunda crítica à falta de representatividade e à maneira que o filme tratou assuntos tão sensíveis para o povo mexicano.  

    Uma resposta criativa dada por eles veio na forma de um curta “Johanne Sacreblu”, que satirizou “Emilia Pérez” mostrando como seria se um grupo de mexicanos fizesse um musical sobre a França, abordando todos os estereótipos deste país sem responsabilidade e sem nenhum francês no elenco. 

    Grupo de pessoas fantasiadas com roupas e maquiagens típicas da cultura francesa, acenando bandeiras da França em uma calçada, em clima festivo
    Foto: Youtube Camila D. Aurora (Camiileo) 

    Senso de pertencimento: o que aprender com “Emilia Pérez” para criar lugares à prova de futuro

    O caso “Emilia Pérez” transcende o cinema para ilustrar uma situação que serve na mesma medida para produtores de Hollywood, gestores públicos, empreendedores imobiliários, e qualquer um que queira trabalhar com lugares e memória: as pessoas são e serão, sempre, o ponto de partida e o ponto de chegada. A comunidade precisa participar ativamente da concepção e da implementação de qualquer projeto. Como afirma Caio Esteves, em seu livro “Place Branding”: 

    “No place branding a identidade se torna ainda mais importante e consideravelmente mais complexa: sem identidade não existe place branding.” (ESTEVES, 2016) 

    Pensar em lugares como os autores de “Emilia Pérez” é pensar de fora para dentro, sem considerar a comunidade e seus ativos, sentimentos e percepções. É muito provável que as pessoas não se sintam parte, nem se reconheçam no projeto. Os lugares dependem de comunidades com senso de pertencimento forte para poderem estar preparados para os mais incertos futuros. 

    Ao escolher diretor, elenco e equipe não-mexicanos, o projeto “Emilia Pérez” falha desde sua concepção e resulta em um filme desconectado da realidade e da memória de um povo. Embora parte da crítica americana e europeia tenha ignorado a falta de autenticidade, a comunidade latino-americana percebeu o problema. Com sua vivência da dor de não ser ouvida nem reconhecida, ela decidiu se pronunciar, tanto nas redes sociais quanto em veículos de mídia tradicional. 

    Escutar, entender e pertencer

    Para compreender um lugar, é preciso ouvir as pessoas do lugar. Do contrário, o resultado será sempre retratos superficiais e não-autênticos. “Emilia Pérez” é um lembrete de que participação e engajamento da comunidade sobre quem se fala não é opcional. Sem ela, não há senso de pertencimento. E sem pertencimento compartilhado, projetos e lugares são frágeis e poucos preparados para lidar com os futuros. 

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    Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

    Cidades Comestíveis: Um Futuro para as Cidades? 

    Cidade comestível de Andernach, pessoas andando entre as plantações que estão integradas aos jardins da cidade.

    O conceito de Cidades Comestíveis (Edible Cities) representa uma abordagem inovadora para o planejamento urbano. Ele propõe integrar a produção de alimentos à paisagem e ao cotidiano das cidades. Mais do que hortas comunitárias, essa ideia busca transformar os espaços urbanos em sistemas produtivos. Dessa forma, promove a soberania alimentar, fortalece a resiliência climática e aproxima as pessoas dos recursos naturais.

    Um dos grandes diferenciais da proposta das Cidades Comestíveis está no incentivo à participação comunitária nas práticas de agricultura urbana. Além disso, valoriza a reutilização de recursos locais, como resíduos orgânicos e água, e estimula a criação de espaços verdes que contribuem para a qualidade de vida urbana. Essa abordagem, por sua vez, se articula com a proposta contemporânea de infraestrutura verde. Ela repensa a forma de conectar áreas recreativas e Soluções Baseadas na Natureza (SBN). 

    O que são Soluções Baseadas na Natureza (SBNs)?  

    SBNs são originalmente definidas como soluções que são inspiradas e apoiadas pela natureza e que simultaneamente proporcionam benefícios ambientais, sociais e econômicos e ajudam a construir resiliência. 

    As referências de iniciativas de Edible Cities destacam, como ponto chave, o envolvimento direto e duradouro das práticas produtivas com os cidadãos em processos sociais. Esse engajamento, por sua vez, cria um senso de pertencimento, à medida que a participação vai desde a concepção conjunta (co-criação) até a co-implementação e a co-gestão, a longo prazo, desses espaços verdes produtivos. Além disso, esses lugares permanecem em constante evolução e transformação (Säumel et al., 2019).

    Os impactos das mudanças climáticas são cada vez mais evidentes. Enfrentar esse cenário exige soluções que articulem produção de alimentos, preservação ambiental e qualidade de vida nas cidades. Esse desafio se torna ainda mais urgente quando lembramos que cerca de 80% da população brasileira já vive em áreas urbanas. E esse número continua a crescer. Em escala global, as projeções indicam que todas as regiões do planeta estarão ainda mais urbanizadas até 2050 (FAO, 2018). Como pensar o futuro cada vez mais urbano?

    A agricultura urbana, ao aproximar a produção de alimentos dos consumidores, reduz significativamente as emissões de carbono associadas ao transporte de longa distância. Além disso, a incorporação de vegetações comestíveis em espaços públicos promove a regulação climática local, melhora a permeabilidade do solo, reduz o impacto de enchentes, aumenta a biodiversidade e proporciona uma conexão mais direta entre os moradores e o meio ambiente. As Cidades Comestíveis, surgem como uma abordagem integradora, capaz de mitigar os efeitos das mudanças climáticas e melhorar as condições urbanas.  

    A Alemanha é uma das precursoras na sistematização do conceito “Edible Cities”, combinando inovação, políticas públicas e pesquisa interdisciplinar para integrar a produção de alimentos a estratégias urbanas sustentáveis.  

    Andernarch

    Um exemplo inspirador desse modelo é a cidade de Andernach, na Alemanha. Desde 2010, Andernach vem transformando áreas antes ornamentais em plantações de frutas, legumes e ervas, todas abertas à colheita gratuita pela população. A partir dessa mudança, a cidade passou a integrar a produção de alimentos ao tecido urbano. Como resultado, a iniciativa cria um ciclo de benefícios que se estende por diversas dimensões.

    1. Sustentabilidade e clima: Andernach reduz emissões, melhora a qualidade do ar e transforma áreas urbanas em sumidouros de carbono.
    1. Proximidade e resiliência: A produção local de alimentos torna a cidade mais auto suficiente e menos vulnerável a crises climáticas e interrupções na cadeia alimentar.
    1. Inclusão e comunidade: O livre acesso aos alimentos fortalece a equidade, promove um senso de pertencimento e engaja a população em práticas sustentáveis.
    Duas mulheres comendo morangos colhidos dos jardins comestíveis da cidade.
    Fonte: https://www.andernach-tourismus.de/en/andernach/the-edible-town
    1. Educação e conscientização: As plantações se tornam espaços pedagógicos, aumentando a conscientização sobre o impacto das escolhas alimentares na crise climática. 
    1. Saúde pública e qualidade de vida: Promove o consumo de alimentos frescos e saudáveis, enquanto transforma os espaços públicos em áreas de convivência e lazer. 

    Modelo de centros urbanos

    Andernach mostra claramente o potencial transformador das cidades comestíveis. Além disso, serve como exemplo concreto de como os centros urbanos podem se adaptar às mudanças climáticas. Essa iniciativa mostra que as cidades podem, de fato, assumir o protagonismo na construção de futuros mais sustentáveis. Produzir alimentos perto de onde as pessoas vivem, por exemplo, fortalece a resiliência urbana, melhora a qualidade de vida e cria uma nova relação entre as comunidades e o ambiente.

    O caso de Andernach nos desafia a repensar a cidade como um organismo vivo, capaz de alimentar não apenas seus habitantes, mas também o equilíbrio entre sociedade e natureza. 

    Fonte: SÄUMEL, I.; REDDY , S.E.; WACHTEL, T. Edible City Solutions — One Step Further to Foster Social Resilience through Enhanced Socio-Cultural Ecosystem Services in Cities. Sustainability, 11(4), 972. 2019. 
    FAO.(2018-a). Transforming food and agriculture to achieve the SDGs: 20 interconnected actions to guide decisionmakers. FAO.https://www.fao.org/documents/card/en/c/I9900EN/ 
    Foto de capa: https://urbangreenbluegrids.com/projects/the-bible-city-andernach/

    Juventude e futuros: Qual é a preocupação e como está sendo solucionada? 

    “Vista aérea de um grupo de estudantes uniformizados caminhando em um ambiente escuro e urbano, com iluminação parcial no chão.

    Quem nunca ouviu que os jovens são o futuro da nação? É uma fala muito comum, mas será que, ao fazer essa afirmação estamos pensando em quais são as possibilidades de futuro e se estamos preparando a juventude para eles?  Primeiro é importante entender quem compõem a juventude, quais lugares ocupam e como se percebem (ou são percebidos) na sociedade.  

    A juventude é definida em três etapas: 1) jovem adolescente, são aqueles de 15 a 17 anos; 2) jovens jovens, de 18 a 24 anos; e por fim 3) jovens adultos, de 25 a 29 anos. Diferente da noção de criança e adolescente instituída pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que é analisado o desenvolvimento psicológico dos indivíduos, a noção sobre juventude se relaciona também com aspectos sociais e econômicos, ou com a ideia de que são responsáveis e possuem certo nível de independência, ou seja, estão passando pelo processo de amadurecimento e reconhecimento de si na sociedade, ou seja, estão encontrando seu lugar no mundo. 

    Mas de que maneira as guerras, crises econômicas e climáticas e todo o senso de escassez e incertezas afetam a juventude?  

    “Com o avanço da pandemia, a situação se tornou ainda mais grave, ampliando os índices de jovens sem oportunidades de trabalho e também da evasão escolar, com uma parcela significativa da população sofrendo impactos em seu processo educacional. Todo este contexto tem forte influência no desenvolvimento da população jovem. Caso este cenário não seja revertido, o Brasil vive o risco de ter uma geração perdida e pode desperdiçar a oportunidade de alavancar o seu crescimento utilizando como força motriz a maior população de jovens da sua história” 

    Abramo (2024) nos mostra que existe uma ausência de perspectiva de futuro para os jovens que é percebido pelos nem nem (nem estuda, nem trabalha). Basicamente, o que analisamos é um esgotamento da juventude que, se quer, consegue vislumbrar um futuro e sonhar com mudanças significativas e positivas em seu contexto social. 

    Em contrapartida, existe uma parcela da juventude sendo capturada pelos conselhos de coachs e pela ideia de que o enriquecimento é fácil, que seguir com os estudos não é uma boa ideia, que o pensamento consegue transformar realidades e que as universidades não servem pra nada, afinal ninguém ganha dinheiro enquanto está estudando, mas gasta com mensalidade, materiais, alimentação, transporte etc. 

    Ou seja, temos grupos opostos e que não dialogam. Assim como as políticas públicas pensadas para a juventude porque elas não conseguem compreender as mazelas, dúvidas e incertezas que os assolam. Pelo contrário, existe uma tentativa resolver os prováveis problemas do futuro com ideias do passado e do presente. 

    E, de que maneira esse abismo geracional se apresenta? 

    Infelizmente, a dificuldade de diálogo entre as gerações é muito comum porque existe um apego ao passado, a ideia de que a vida precisa continuar como sempre foi. Então quando as ideias e o modo de fazer se transformam ou se adaptam à novas necessidades há uma descrença. 

    A juventude ocupa diferentes lugares, mas nem sempre encontra respeito ou validação para suas opiniões. Muitas vezes, quem tem mais experiência usa essa condição para deslegitimar as percepções e ideias dos jovens. Para essas pessoas, a vivência prática importa mais do que o conhecimento teórico ou científico.

    Por isso é tão comum, em alguns momentos ouvirmos que a juventude está perdida, que os jovens não trabalham como antes, que não se importam com nada ou o famoso “na minha época era diferente”, mas é importante ter em mente que as demandas atuais também são diferentes. 

    Desejar que os comportamentos se repitam seria um grande erro! 

    O excesso de telas, todas as crises (ambiental, climática e econômica) e todas as revoluções tecnológicas são exemplos de situações que se transformaram em problemas gravíssimos e afetam toda a população, em todas as idades. Essas mudanças mostram que as vivências, necessidades e problemas de hoje diferem dos do passado. Usar soluções antigas para enfrentar os desafios dos futuros não faz sentido, especialmente para crianças e jovens, que enfrentarão os maiores impactos.

    A ausência da juventude na elaboração de projetos e políticas públicas escancaram a gravidade da situação. 

    Temos como exemplo a Reforma no Ensino Médio, uma proposta muito interessante porque tenta aproximar a escola e seus conhecimentos das vivências e realidades da juventude. Entretanto, a juventude não se interessa pelas disciplinas eletivas. Os profissionais da educação não têm preparo para ministrá-las. A carga horária não corresponde à realidade dos jovens da escola pública. As disciplinas “normais” perdem tempo de aula. E, em cidades pequenas, com uma ou duas escolas de ensino médio, os estudantes não têm poder de escolha.

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    Sendo assim, o abismo com a juventude aumentou. 

    Por fim, é importante pensar a juventude e os futuros com um olhar ampliado. Precisamos lembrar que a juventude vai habitar os futuros mais do que nós. Por isso, ela deve idealizar as múltiplas possibilidades que a aguardam e atuar diretamente nos processos.

    Referências: ABRAMO, Helena. Políticas Públicas de Juventude: reconstrução em pauta. Mapas e caminhos de políticas públicas de juventude: qual é a bússola de reconstrução? Ação Educativa, São Paulo, 2024 
    Foto de Capa: Pixabay.

    A Geração Beta vem aí: como criar lugares à prova de futuro para eles?

    Geração Beta usando óculos de Realidade Aumentada em ambiente urbano futurista, ilustrando a fusão entre mundo físico e digital nas cidades do futuro

    A partir de 2025, testemunharemos a emergência de uma nova geração que desafiará tudo o que entendemos sobre comportamento urbano, identidade e pertencimento: a Geração Beta. Nascidos entre 2025 e 2039, estes indivíduos constituirão 16% da população global até 2035 e não apenas serão os responsáveis por conduzir o mundo para o próximo século, mas também os primeiros a viver em um mundo onde a distinção entre físico e digital simplesmente não existirá.

    Imagine um cotidiano em que:

    • A inteligência artificial e a realidade aumentada são tão naturais quanto uma ligação telefônica.
    • Viver simultaneamente nos mundos físico e digital é a norma, não a exceção.
    • As interações sociais fluem naturalmente entre espaços tangíveis e virtuais sem nenhuma sensação de ruptura.

    Diante deste cenário, uma pergunta crucial se impõe: que tipos de lugares precisamos construir para acolher essas novas formas de interação e pertencimento de uma geração que habitará simultaneamente o físico e o digital?

    Do analógico ao digital: rumo à Geração Beta

    Como um millennial nascido nos anos 80, minha experiência de vida sempre abrangeu duas realidades complementares, porém distintas. A infância foi 100% analógica. Para conversar com amigos, era preciso combinar antes ou tentar a sorte de aparecer na casa de alguém e tocar a campainha. Na adolescência, vi de perto a revolução das comunicações e das redes sociais. Com Orkut, MSN e até mensagens SMS, era possível socializar por horas sem sair de casa. Ou marcar encontros com mais precisão e menos improviso.

    A revolução da internet foi determinante para a minha geração, mas a linha entre o físico e o virtual sempre foi clara. Agora, para a Geração Beta, essa distinção será obsoleta. Navegar entre realidades será tão instintivo quanto um pássaro alterna o voar e o pousar.

    Esta mudança não diminui a importância do espaço físico. Pelo contrário, adiciona novas camadas à nossa compreensão de identidade e comunidade. A questão é: como preparar nossos ambientes urbanos para essa nova realidade?

    4 Cenários para Cidades da Geração Beta

    É uma pergunta impossível de responder de maneira prescritiva, porque como dizemos por aqui, pensar no futuro singular é pensar no passado. No entanto, podemos explorar alguns cenários bastante iminentes, com base em tudo que sabemos por enquanto. Longe de ser uma lista definitiva, aqui estão algumas possibilidades principais:

    1. Flexibilidade como Norma

    Esqueça a hegemonia da funcionalidade do espaço. Em vez disso, os lugares serão definidos por sua capacidade adaptativa, ou seja, pela habilidade de se reinventar continuamente, conforme as demandas das comunidades que os habitam. Parece algo muito disruptivo agora, mas para os Betas, esse será o mínimo esperado de um espaço verdadeiramente útil e relevante: menos funções pré-determinadas e mais possibilidades de uso e exploração.

    2. Cotidiano Aumentado

    Se a premissa de comportamento da Geração Beta é transitar fluidamente entre os mundos físico e digital, precisamos assumir de partida que as experiências em realidade aumentada estarão muito além de smart glasses individuais e totens interativos em espaços públicos: as cidades deverão responder em tempo real às necessidades, emoções e interações de seus moradores e visitantes. A questão não é se viveremos em um mundo aumentado, mas como utilizaremos esta tecnologia para criar espaços tão responsivos quanto as possibilidades digitais que os envolverão.

    3. Pertencimento Desterritorializado

    Os Betas serão a primeira geração para quem o senso de pertencimento não poderá ser medido apenas pelo limite territorial do bairro e da cidade. O melhor amigo poderá estar a um oceano de distância física e, no entanto, ser tão parte do dia a dia quanto um colega de turma da escola presencial (se é que ela ainda vai existir nos moldes como a conhecemos hoje…). Essa mudança de paradigma incide em, desde já, pensar nos lugares menos como pontos num mapa e mais como destinos de comunidades intencionais.

    4. Sustentabilidade Integrada

    Quando os Betas chegarem à fase adulta, uma das pautas globais em alta será a comemoração do centenário da Conferência de Estocolmo (1972), considerada o primeiro grande fórum de discussão ambiental da história. Até lá, a sustentabilidade não será mais um ideal em debate, mas a própria essência do modo de vida urbano. Para essa geração, a incorporação de tecnologias regenerativas nos ambientes construídos deverá ser tão óbvia quando a necessidade de um projeto hidráulico ou elétrico.

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    O segredo reside em ser adaptável aos futuros incertos

    Mas, se todos esses cenários são incertos por definição, a própria ideia de preparar lugares para lidar com futuros diferentes não é paradoxal?

    Não, porque como dissemos, o objetivo não é prever ou prescrever cada detalhe do futuro (aliás, o nome disso é futurologia, e definitivamente essa não é a especialidade da casa!!!), mas trabalhar a capacidade de adaptação e antecipação do lugar frente às incertezas.

    Mais do que a promessa de uma mudança demográfica e comportamental, a chegada da Geração Beta é uma oportunidade e um convite para reavaliarmos como estamos projetando e interagindo com os lugares que habitamos. Quanto mais cedo um bairro, cidade ou região entender sua posição neste processo e agir, mais preparado estará para lidar com as muitas incertezas e crises que aparecerão pelo caminho.

    Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

    Foto de Capa: Pixabay.

    Cidades e lugares no mundo pós-normal

    Ilustração suave de duas pessoas sentadas à beira-mar com uma cidade ao fundo, em tons claros e atmosfera tranquila.

    Estamos trancafiados em nossas casas há mais de um mês, algumas cidades do mundo há quase dois meses. O cenário global mudou, ruas ficaram desertas, destinos turísticos abandonados, praças desocupadas, a natureza parece finalmente respirar em pleno antropoceno.

    Pouco se sabe sobre o futuro, sobre o novo normal, ou pós-normal como prefiro chamar. Fomos submersos por uma pandemia, e sem mesmo conseguir subir para tomar um pouco de ar, várias outras ondas nos acertaram. Em meio a rodopios, tentando estabilizar o corpo e evitando bater as costas na barreira de coral em águas rasas, também nos acertaram a revolução digital, face mais óbvia dos resultados pós-normais.

    Não foram poucos, pra minha surpresa, que se depararam com novas formas de trabalho, vídeo-conferências, plataformas digitais de gestão de projetos, diminuição de escritórios, tudo aquilo que já vinha sendo discutido e posto em prática há pelo menos 5 anos (numa perspectiva conservadora) atropelou os desavisados. Muitos agora também sentem o prazer de fazer reuniões importantes de pijama. Flexibilização de horários, trabalho remoto, que mundo novo se descortina a nossa frente diriam os mais tradicionais para quem o Vale do Silício não passasse talvez de uma região da Califórnia como qualquer outra, bem sem graça diga-se de passagem.

    Ou seja, a pandemia nos esfregou na cara decisões que deveriam ter sido tomadas há tempos, ou pelo menos levadas em consideração. Até agora nada disso é novidade.

    Posicionamento de cidades e lugares

    Igualmente não novidade é a ideia de se pensar em posicionamento de cidades e lugares, criando vetores de resiliência econômica (e agora sanitária também) conhecido como place branding, mais uma das tarefas renegadas ao famoso: “Na volta a gente compra”.

    Muito provavelmente você nunca ouviu falar desse conceito. Não se preocupe, no caso do place branding você faz parte de 99,9% da população mundial. Quanto ao 0,1% que sobra, essa fração se divide em achar que place branding é marketing, design e publicidade, afinal, ter branding no nome não ajuda em nada, convenhamos.

    O fato é que a abordagem existe há pelo menos 20 anos, ainda que pouco difundida como o DataCaio acabou de apresentar. Você que leu “branding” no nome deve estar se perguntando qual a relevância desse texto em meio a uma crise sanitária sem precedentes na história contemporânea. Não seria hora de pensar em água corrente, saneamento e hospitais para todos? Que mané place o que…?

    Sim, você tem razão…em parte.

    Como não pretendo ficar trancado em casa para sempre, muito menos vendo pessoas morrerem aos montes todos os dias, imagino, torço, se fosse religioso rezaria, pra um dia o pesadelo acabar, o quanto antes diga-se. E é justamente nessa perspectiva de pós-pandemia que escrevo esse texto. Imagine os desafios das cidades e países na retomada após meses estagnados, sofrendo prejuízos incalculáveis (de vidas principalmente) e diante de uma realidade que não se conhece.

    O que fazer quando tudo isso passar?

    O mundo inteiro foi nivelado, uns mais afetados, outros menos, mas o fato é que como poucas vezes na história da humanidade, o mundo todo está, ainda que com nuances, na mesma situação, no mesmo barco, sem motor e principalmente sem GPS. Diante disso fica a pergunta de um milhão de dólares: O que fazer quando tudo isso passar?

    A resposta parte de um pressuposto pouco confortável, não seremos mais os mesmos. Parece que quanto a isso não existe muita dúvida; não sabemos ao certo como seremos mas sabemos que tudo será diferente. O mundo já passou por outras crises, piores até, e se recuperou, mas a sociedade sempre passou por transformações crise após crise. Também há quem diga que essa pandemia não será a última, e que os intervalos entre elas serão menores. O que podemos aprender com isso?

    Abuso aqui das perguntas porque, por enquanto as temos em abundância, exatamente na situação oposta as respostas. Podemos aprender que é preciso preparar-se para os futuros problemas, e que, esses futuros problemas serão, certamente, diferentes dos problemas anteriores e com isso, as soluções anteriores se mostrarão ineficientes.

    O mundo, ou grande parte dele, sempre teve aversão ao risco. O medo da incerteza dispara o dilema instintivo: lutar ou fugir. A Covid-19 nos mostrou que a segunda opção é inválida. Pela primeira vez na história não há alternativa, não há jato particular, helicóptero executivo, iate luxuoso que burlem quarentenas ou ainda, nos levem a um destino seguro. Simplesmente não existe destino seguro, em nenhum lugar do mundo, nesse começo de 2020.

    Apropriação da informação, evolução e progressividade

    Precisamos começar a pensar em mecanismos mais eficientes na luta contra futuras crises, ou se preferirem, sistemas antifrágeis. Antifragilidade é a capacidade que vai além da resiliência, e ao invés de retornar a condição anterior ao evento negativo, aprende com ele, se readapta, e, essa é a parte interessante do conceito: melhora, evolui. Nassim Taleb quando cria o termo, o compara ao processo de investigação presente nos órgãos de aviação civil em todo o mundo. A única certeza que se tem ao presenciar um acidente de avião é que aviões continuarão a sofrer acidentes, mas não pelo mesmo motivo, ou seja, a cada acidente aéreo, voar fica mais seguro. O sistema se apropria da informação e evolui, progressivamente.

    Venho trabalhando há alguns anos na aplicação desse conceito para as cidades, no que chamei de “cidade antifrágil”.

    Durante a pandemia foi impossível não pensar o que será dos lugares, das cidades, dos países, e como o place branding e a ideia de “cidade antifrágil” poderia ajudar nesse momento tão crítico. Depois de um bom período de negação (notoriamente a primeira etapa de qualquer crise) entendo que esse, pelos piores motivos possíveis, é finalmente o momento dessa discussão. Pela primeira vez ela será vital, necessária, ou entendida como necessária e, mais do que isso, não será confundida com nenhuma outra expertise, já que agora, discussões não podem entregar uma solução para esse problema enfrentado pelos lugares, que é, em última instância, muito maior do que uma crise de percepção.

    Os lugares precisarão reinventar-se, reencontrar-se. Identidade e vocação nunca foram tão importantes. Entender o que as pessoas pensam, como elas se comportam nesse mundo pós-normal é vital. Mais do que isso, envolvê-las no processo é essencial.

    Pensando nisso elenquei 6 pontos a serem considerados pelas cidades e países.

    1- Transparência é essencial

    Uma das coisas que aprendemos com a pandemia é a necessidade de informações claras e coesas. Informações desencontradas, além de criar mais incertezas, contribuirão para uma reputação negativa do lugar, interna e externamente.

    A tecnologia, poderosa aliada das cidades, países e governos em geral, será ainda mais importante no pós-normal. Trocamos parte de nossa privacidade por segurança depois do ataque as torres gêmeas em 2001, agora abriremos mão de um pouco mais de privacidade em nome da saúde. É essencial termos certeza do que será feito com nossos dados, outrora privados.

    Não existe solução tecnológica viável sem existir transparência nos processos.

    2- As pessoas são atores e não meros espectadores

    Outra lição obtida no pós-normal é que os cidadãos não são meros coadjuvantes. Enquanto grande parte dos fracassos ocorreram diante de decisões governamentais desastradas, exemplos de sucesso emergiram da comunidade. Redes de apoio foram criadas, movimentos solidários se espalharam pelo mundo.

    O detalhe desse momento histórico que vivemos é que esse movimento solidário não se deu na esfera pública, na verdade vimos uma verdadeira guerra por respiradores e máscaras. Ela se deu na esfera das comunidades. Nunca foi tão evidente a necessidade de inclusão das pessoas no processo decisório. Comunidades fortes, com sólido senso de pertencimento, saíram-se melhor do que comunidades onde o senso de pertencimento simplesmente não existia.

    Dar voz as pessoas é, em grande parte, contribuir na criação de comunidades fortes, mas ao mesmo tempo não basta só escutar, é preciso engajar, colaborar, cocriar.

    Nesse ponto, esse item se soma ao item 1, transparência é essencial, e a tecnologia é o caminho para criação de ferramentas mais amigáveis e eficientes para a gestão das comunidades, sejam elas físicas ou virtuais, se é que é possível separá-las a essa altura.

    3- Identidade e vocação farão a diferença

    Se durante anos venho falando da importância desses elementos no fortalecimento dos lugares, a pandemia tratou de evidenciar essa prioridade. As cidades e países foram forçadamente comoditizados. Hoje, somos todos mais ou menos iguais. Ruas vazias, cidades sem vida, medo generalizado, incertezas a respeito do futuro.

    Mais do que nunca os lugares precisarão buscar sua identidade, para que, através dela, possam retomar sua posição diante do pós-normal. Será preciso mais do que nunca saber quem se é e o que se pode oferecer. Todos buscarão novos critérios como segurança sanitária, e claro, é dever de todos os lugares prover essa segurança, esse é o esperado, mas, o que mais?

    Voltada a nova normalidade, os lugares estarão ávidos para retomar o tempo perdido, atrair turistas, investimentos, talentos, tudo ao mesmo tempo, o mundo todo. Esse fluxo enorme de oferta gerará uma grande incerteza, qual lugar escolher? Ou pior, será que quero escolher o que quer que seja e arriscar sair da segurança da minha casa?

    Essa é a hora da diferenciação, e portanto, da identidade e vocação. Quem tiver isso mais claro sairá na frente, e o momento de pensar isso é enquanto os mercados estão fechados. Claro que salvar vidas é prioridade, pensar nas estratégias de pós-normal é ação paralela, porém essencial para a retomada pós-crise. Antes que alguém me acuse de insensível, é importante entender que, novas fontes, ou antigas fontes de receita reestruturadas contribuem e muito no estado de bem estar social, aliás, elas servem pra isso mesmo.

    4- Entender a desterritorialização é urgente

    Tão importante quanto preparar os lugares do ponto de vista físico, será entender que os lugares, como nunca antes, tornaram-se também digitais. O mesmo Tsunami da revolução digital que afogou o mundo corporativo, também afogou os lugares. Como nunca antes, lugares se tornaram ideias, e se esticarmos a corda, culturas.

    É possível experimentar a Finlândia de São Paulo, a Alemanha do Rio de Janeiro, e num caso real, experimentar as sempre brilhantes Ilhas Faroe, de qualquer lugar do mundo, controlando os moradores, que, ao usarem câmeras nas cabeças se comportam como se estivéssemos em um video game. Ou seja, se não podemos ir aos lugares, teremos que levar os lugares até as pessoas.

    Os lugares terão que lidar com essa nova realidade. Chinatowns serão coisa do passado, não precisaremos mais do território, ou melhor, talvez as cidades não devam depender tanto assim de seu hardware nesse futuro incerto.

    5- Por mais incerto que seja é preciso uma visão de futuro

    A única certeza que temos é que a Incerteza é o termo mais usado atualmente. Ainda que não possamos prever o futuro, por mais que tentemos, é necessário, ao menos, termos uma visão. Uma visão de lugar e, sim, uma visão de futuro.

    É preciso começar pelo mais fácil, ou seja, uma visão do “presente”que envolva a identidade e claro, a colaboração. Visões são sempre compartilhadas, e claro, como já entendemos, cocriadas.

    A partir da visão compartilhada é possível projetarmos nossa visão de futuro, o que proporemos para os próximos anos, décadas. Uma visão de futuro impossível de esquecer nos dias atuais é a do pequeno país da antiga república soviética, a Estônia, mas como já falei dela aqui mesmo uma centena de vezes, usarei um outro exemplo, quase tão bom quanto, CAAS, ou City as a Service, que aborda a cidade de Helsinki como um serviço. Ainda que a ação, super bem sucedida, tenha sido uma campanha de marketing, para atrair talentos, a ideia pode tomar uma proporção ainda mais surpreendente no mundo pós-normal.

    Se minha cidade é um serviço, será que preciso estar necessariamente no meu território para oferecê-lo? Mas claro, para sabermos que serviço é esse devemos voltar a todas os itens anteriores, em especial o número 3.

    6- Processos e sistemas menos frágeis

    E o gran finale da nossa lista é a antifragilidade, claro, no fundo a ideia que permeia todas as outras ideias. É preciso pensar em sistemas, plataformas, ferramentas mais amigáveis e dinâmicas, lembrando que segundo vários especialistas, essa pandemia não será a última.

    É preciso entender, e não se trata mais de clarevidência, que as novas ameaças virão do futuro, e portanto, as ferramentas do passado não serão mais capazes de combatê-las.

    Entender que não temos as respostas e, portanto, nem soluções, é a melhor atitude a ter nesse reboot pelo qual o mundo foi submetido.

    “Ipse se nihil scire id unum sciat“, o socrático “só sei que nada sei” nunca soou tão atual.

    Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
    Foto de Capa:
    Lee Kyutae, aka Kokooma.

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