Crie junto à comunidade e stakeholders a visão que orientará as ações do lugar.
Crie uma visão compartilhada
“Uma visão de futuro ajuda a alinhar expectativas,estabelecer estratégias, objetivos e, tão importante quanto, métricas de sucesso.” 1
Antes de tudo, uma visão compartilhada entre a comunidade e os stakeholders é essencial para alinhar esforços em uma única direção. Com isso, otimizamos o investimento de recursos e energia em uma ideia já pactuada pela comunidade. Essa visão torna-se capaz de orientar todas as ações, do planejamento urbano ao desenvolvimento econômico, passando pelo marketing e até pelo design.
Vale destacar que não estamos falando de algo semelhante à visão e missão tradicionais do marketing. Em muitos casos, esses conceitos apenas enfeitam recepções de empresas. Ou são compostos por termos genéricos, ou expressam uma arrogância inalcançável. Em alguns casos, pior ainda: ninguém entende o que significam ou por que estão ali.
A visão no Placemaking.ID® é a manifestação da Ideia central da marca-lugar, sendo ela o conceito que materializará essa ideia central no ambiente urbano, compartilhado, comum. É a partir da ideia central que alinhamos a visão pela qual o lugar se organizará, a sua promessa, singularidade e diferenciação. É através da visão que o lugar cumpre o seu propósito e concretiza sua promessa.
Vale lembrar que falar em visão é falar em identidade e vocação, nem todos os sonhos são possíveis em todos os lugares, é preciso uma análise criteriosa levando em conta viabilidade e impacto.
Lembre-se:
Se a visão não for compartilhada, ela não passa de uma ideia.
Fuja da armadilha dos modismos, o que pode ser tendência de mercado hoje, pode não fazer nenhum sentido para o seu lugar, nem hoje, e nem no futuro.
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
ERA UM DIA ENSOLARADO. Busquei na internet e vi que o ano era 2013. Não tinha percebido que tanto tempo havia se passado. Após pousar em Florianópolis, ainda muito cedo, seguiram comigo até um bairro que, naquele momento, parecia muito distante. O trânsito pesado da Ilha de Santa Catarina, chamado de “fila”, para surpresa de um paulista que supostamente entende de trânsito, parecia aumentar ainda mais a distância.
Visitantes de todos os lugares costumam ir até Pedra Branca. Vão em busca da consolidação de ideias que ainda hoje são raras no mercado imobiliário brasileiro. Ideias que, em muitos casos, exigiriam de dez a doze horas de voo para serem experimentadas em outras partes do mundo. Naquele dia, eu era mais um desses visitantes.
Viajei em missão com outros empreendedores de São Paulo, meus clientes, numa época em que eu ainda dava os primeiros passos no place branding. Naquele momento, tanto esse conceito quanto o do Novo Urbanismo exigiam muitas horas dentro de um avião apertado para serem vivenciados de verdade. Lembro-me do Passeio Pedra Branca ainda em construção, com uma única operação comercial. Lembro bem da praça central, do mega estande de vendas. Eu não parava de pensar onde aquilo poderia chegar, com uma comunidade estruturada e engajada. Saí de lá ansioso para ver o lugar em todo o potencial, o qual, naquele momento, eu já imaginara.
Estilo Show de Truman
Quando me convidaram para escrever esse texto, fiz um rápido retrospecto de quando voltei à Cidade Pedra Branca, em 2019, para uma palestra sobre meu livro (Place Branding, Editora Simonsen, 2016). A surpresa foi enorme: o que eu tinha imaginado lá atrás havia se concretizado. As ruas vivas, os estabelecimentos comerciais funcionando e atividades, várias atividades, tantas que perguntei se eram figurantes contratados só para me impressionar, ao melhor estilo Show de Truman. Claro que não. Até porque não teriam motivo para me impressionar – eu já compartilhava da ideia muito antes do que eles imaginavam.
É com essas memórias que escrevo esse breve texto sobre a vida comunitária, em um momento antagônico a tudo que escrevi até agora, ou, pelo menos, aparentemente antagônico. E é sobre esse paradoxo que desenvolverei as próximas linhas. Por alguns longos meses em 2020, no Brasil e no mundo, todos nos recolhemos a nossas casas. A pandemia e a mistura de medo do contágio com o desejo de solidariedade com os mais vulneráveis nos tirou de circulação, literalmente.
Os lugares tiveram sua vida ceifada, sem muitos avisos. Se um lugar é feito pelas pessoas (assim como deveria ser feito para as pessoas), como diz a geografia humanista, cidades, bairros, calçadas, praças sem pessoas são lugares mortos. De uma hora para outra, o mundo todo se transformou num enorme “não lugar”, que, no conceito do antropólogo francês Marc Augé, é um lugar transitório, sem significado suficiente para ser um lugar de fato. As cidades transformaram-se exatamente nisso, ou seja, trânsito, passagem e caminho, para o supermercado, para a farmácia, e, nos piores casos, para o hospital.
Comunidades engajados pré-pandemia
Se, por um lado, a vida comunitária no espaço coletivo acabou, ao menos momentaneamente, por outro, percebeu-se que as comunidades continuavam ativas, provavelmente mais ativas do que antes. Mas como isso é possível? Temos dois fatores que podem explicar esse fenômeno. O primeiro é bastante óbvio. Comunidades estabelecidas e engajadas antes da pandemia, continuaram engajadas durante a pandemia. A ausência de um espaço físico para o encontro não foi determinante para sua sobrevivência. Aliás, presenciamos inúmeras vezes a eficiência das comunidades engajadas nesses tempos difíceis, de almoços coletivos em varandas a rodízio de compras para pessoas mais vulneráveis, como idosos e portadores de doenças crônicas.
O segundo ponto, menos óbvio, foi justamente a constatação de que as comunidades independem do espaço físico para existirem. Não chega a ser uma novidade, mas foi um comportamento acelerado pelo isolamento social. Se a cidade é o lugar do encontro por excelência e esse encontro passa a ser virtual, proporcionado pela tecnologia, podemos presumir que a cidade se desmaterializou. Presenciamos comunidades não mais formadas pela quadra ou pela rua, mas pelo mundo todo, via tecnologia. Não foram poucas as interações com Europa, Estados Unidos, Escandinávia. De repente, o mundo se transformou naquela aldeia global que McLuhan previa ainda nos anos 60 do século passado.
Desterritorialização e seus fundamentos
Embora ainda não saibamos como será o comportamento urbano no mundo pós-normal, algumas lições já foram aprendidas. Entre elas, entendemos que as comunidades têm um papel fundamental na nossa vida cotidiana. Por isso, fortalecer esses laços se tornou essencial. Não apenas para a nossa felicidade, mas, talvez agora, também para a nossa sobrevivência. Outra lição fundamental é a desterritorialização. As cidades e os lugares não são exclusivamente geográficos ou territoriais; são cada vez mais ligados ao comportamento, à identificação. Para isso, eu busco meus pares, onde quer que eles estejam, por meio da tecnologia. Não precisamos mais da praça para isso, ou, pelo menos, dependemos menos dela. Tão importante quanto pensar em equipamentos públicos “físicos”, o momento nos mostra que precisamos pensar numa outra forma de encontro, de espaços púbicos, agora também virtuais. E não, não teremos carros voadores por aí… pelo menos não agora.
Sobre o autor e fontes
* Arquiteto e urbanista, Caio Esteves possui MBA em Branding pela Universidade Anhembi Morumbi (2006). Fundou a Places for Us em 2015, primeira consultoria especializada em Place Branding do Brasil. É autor do livro “Place Branding”, publicado em 2016, referência no tema no país. É colaborador e jurado do City Nation Place, congresso internacional de Place Branding em Londres; membro do Institute of Place Management de Manchester-UK e do Research Panel do The Place Brand Observer; associado ao International Place Branding Associaton (IPBA) e revisor convidado do Place Branding & Public Diplomacy.
Idealizador e coordenador do MBA Place Branding das Faculdades Integradas Rio Branco (SP), e professor de branding e place branding em diversas outras universidades do país. Palestrante nacional e internacional em eventos sobre marcas-lugar e ambientes inovadores, qualidade dos espaços públicos, place branding e placemaking, é também colaborador frequente de sites e portais como The City Fix Brasil, O Futuro das Coisas, Archdaily e Place Brand Observer.
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Texto Extraído do Site: Revista Area. Foto de Capa: Caio Esteves.
Millennials, geração X, desmaterialização do varejo e do trabalho, lowsumerism, consciência ecológica, novas matrizes de mobilidade: o mundo anda em constante mutação, acelerado, dinâmico e por vezes errático.
Diante dessa perspectiva, as previsões de futuro são, na mesma medida, incertas e necessárias.
Nunca foi tão fundamental olhar para frente, em uma busca desesperada por antecipar o que logo se tornará obsoleto, numa espécie de “auto-hacking” para tornarmos obsoletos a nós mesmos, e, com isso, acharmos soluções antes que seja tarde demais.
Esse movimento acelerado faz com que soluções antes inovadoras se tornem anacrônicas numa velocidade assustadora. O que era disrupção ontem, hoje é mainstream e, o que é mainstream hoje, amanhã fará parte da memória, algo tão anacrônico quanto os tênis quadriculados, walkmans ou aparelhos de fax.
Estamos trocando produtos por experiências, e isso não chega a ser nenhuma novidade, como explica a jornalista Hiroko Tabuchi:
“Os analistas dizem que uma mudança mais ampla está em andamento na mente do consumidor americano, estimulada pela popularidade de um conjunto crescente de estudos científicos que parecem mostrar que experiências, não objetos, trazem a maior felicidade. A Internet está cheia de histórias do tipo “Compre experiências e não coisas” que poderiam dar pesadelos aos executivos do varejo. Millennials – aqueles jovens de 20 e 30 que os vendedores desejam – preferem gastar seu dinheiro em férias fora da cidade, em refeições com amigos, em academias de ginástica e, claro, com seus smartphones, segundo sugerem muitas pesquisas.”
É no comportamento, não só de consumo, que basearemos a discussão desse texto, tendo como objeto principal a relação das pessoas com os shopping centers, chamados de “templos do consumo” ( CERVEIRA FILHO,1999 ) e provavelmente o símbolo máximo de um momento de consumo exacerbado, um modelo que agora precisa ser, ele próprio, hackeado, e quando penso em hacking, não consigo deixar de lado o amigo Carlos Piazza, o atormentador-mor do mainstream:
“O cenário de transformações é acelerado, desmassificado e desmaterializado. Não obstante tudo isto, o cenário se mostra também muito acelerado no processo de desintermediação, que no caso do varejo é algo com o qual se deve aprender muito e rápido. Aliado a isto devemos assumir que o processo de aceleração também faz com que produtos e serviços fiquem muito menos importantes do que as experiências de consumidores na visão integral do processo de consumo, antes, durante e depois…
Mas se as coisas tendem a se desmaterializar, o que fazer com os gigantes shopping centers?
Antes de responder isso é preciso entender o cenário no momento da invenção dos shoppings, aliás, essa própria invenção é controversa. Para muitos, o “shopping center” nasceu em Paris, por volta de 1852, com o “Bom Marché”, mas só a partir dos anos 50 se popularizou nos Estados Unidos, com a inauguração do Country Club Plaza, em Kansas City.
Já para os mais radicais, o shopping não é uma invenção nada nova e tem sua origem nos bazares persas, como o de Isfahan, que data do século X, no Oxford Covered Market, de 1774, na Inglaterra e no Galleria Vittorio Emanuelle II, de 1828, na Itália.
No Brasil, o primeiro shopping inaugurado foi o Iguatemi, em 1966 em São Paulo.
“A partir da década de 50 do século passado, os centros de compras se formaram em muitos países, proporcionando um notável desenvolvimento econômico, social e cultural. DINAH (2001) relata que, os fatores preponderantes à época que levaram ao surgimento do shopping center foram: o aumento do poder aquisitivo da população; a descentralização da população para zonas periféricas, bem como a grande expansão automobilística norte-americana, a qual fez sentir a necessidade de os centros comerciais disponibilizarem um grande espaço de estacionamento para automóveis.” – MARTINAZZO, Silvana.
O surgimento dos shoppings nos Estados Unidos tem relação direta com a questão urbana. Essa questão, por sua vez, está ligada à expansão do carro como principal meio de mobilidade. Ou seja, o posicionamento original do shopping center se aproxima da lógica do subúrbio. Ambos prometem facilidade, comodidade e segurança em um ambiente controlado. Em última instância, oferecem um percurso social “próximo aos meus pares”.
Nesse sentido, tanto o shopping quanto o subúrbio são estandarizantes, diminuindo a relação com o diferente, abafando a pluralidade, que, nesse momento, confunde-se com insegurança.
“Toda grande cidade tinha um centro comercial com lojas de departamentos, lojas de especialidades, bancos e cinemas. Contudo, quando as pessoas começaram a se mover para as periferias das cidades, esses centros comerciais, com seus problemas de fluxo de automóveis, estacionamento e crimes, começaram a perder negócios. Os negociantes situados nos centros das cidades começaram a abrir filiais em shopping centers regionais, e o declínio dos centros comerciais continuou.” – KOTLER & ARMSTRONG (1994) apud MARTINAZZO, Silvana.
Shopping centers e a retomada das cidades
Talvez estejamos chegando próximos ao movimento oposto que gerou a popularização do modelo de shopping center. Num cenário onde a vida se concentra cada vez mais nos centros urbanos, e mais do que isso, nas centralidades dos centros urbanos, os problemas causados pelo modelo vigente da “era de ouro” dos shoppings, como trânsito, demora nos deslocamentos e consequente menos tempo para família e lazer, tornaram-se inviáveis.
Hoje, os shoppings representam bolhas espalhadas pelas cidades, característica igualmente preocupante para outros segmentos como os condomínios fechados residenciais e comerciais. O modelo de deslocamento “entre-bolhas” e “inter-bolhas” dá sinais de exaustão. Mover-se do seu condomínio-clube, para seu escritório-shopping, no seu automóvel particular e individual com ambiente e temperatura controlados já não parece ser o sonho de consumo das novas gerações.
Na realidade, as novas gerações aparentemente não só não querem possuir seus próprios carros, como estão repensando o próprio conceito de consumo de bens materiais.
Como diz James Gamblin, colunista da revista Atlantis: “O que acontece é que as coisas que nós possuímos, especialmente se forem caras, nos obrigam a nos preocupar com elas”. Aos poucos, o mercado imobiliário começa a entender esse processo, especialmente após o sucesso do Airbnb. A indústria automobilística também sente esse impacto. O avanço do car-sharing e o uso crescente de modais alternativos, como a bicicleta, forçam o setor a repensar seus modelos de negócio. Mas, e os shoppings? Existe saída?
Muito além do estacionamento grátis
Se pensarmos nos shoppings como amontoados de lojas, com fast-foods e cinemas, provavelmente eles estarão sujeitos ao esquecimento, como uma relíquia de um passado não muito distante.
Uma das características de um shopping, qualquer um, ou pelo menos, a maioria, é que são tratados, como não-lugares.
O termo não-lugar, cunhado por Marc Augé ( 2012) é usado para nos referirmos a lugares transitórios que não possuem significado suficiente para serem definidos como “um lugar”. Os exemplos clássicos são quartos de hotel, aeroportos, rodoviárias, supermercados, etc.
Se o consumo tende a se desmaterializar, se a necessidade de intermediários deixará de existir, e os shoppings ainda são tratados sob o aspecto da materialidade, da transitoriedade ou, pior ainda, da generalidade, é preciso repensar urgentemente o modelo vigente.
O que fazer diante de uma perspectiva de falência de 15% dos shoppings nos Estados Unidos nos próximos 10 anos (Green Street Advisors), ou ainda, com a ociosidade de 35% das lojas dos shoppings no mesmo país, percursor do modelo atual de centros de compras e entretenimento?
Tendências de acordo com o NoVarejo
O portal NoVarejo aponta 3 tendências para o futuro dos shoppings, sendo elas:
1- Geofencing: um aplicativo rastreia o consumidor colhendo informações para comparar o comportamento e adaptar o mix de lojas para a suas necessidades;
2- Food is the new fashion: as praças de alimentação podem promover uma experiência melhor, se transformadas em “food halls”;
3- Buy online and pick up in store: o consumidor compraria em casa e pegaria seu produto na loja.
Certamente, todas essas hipóteses podem ser caminhos para uma sobrevida do shopping center, mas todas elas ainda o tratam como não-lugar, ou pior, como “bolha”.
Com a busca por identificação, tanto por parte das marcas quanto das audiências, surge uma mudança de foco. Mais importante do que entender o percurso do consumidor no shopping é entender quem ele é e quais são suas características identitárias. Aliás, se os shoppings continuarem tratando suas audiências apenas como consumidores, já terão um problema por si só.
Os shoppings precisam mudar o papel que desempenham na vida das pessoas. Quando elas visitam esses “ainda não-lugares”, estão procurando experiências que vão muito além das compras. Será que as pessoas que frequentam shoppings devem continuar sendo vistas como “consumidoras”?
Mudar de “praça de alimentação” para “food hall” fará pouca diferença se nesse novo espaço (e não lugar, prestem atenção) o que for oferecido não fizer sentido dentro de um contexto específico, cultural, principalmente. É muito mais uma questão de paradigma do que de forma.
Quanto a pegar os produtos na loja, provavelmente prejudicará os empreendimentos maiores, mais afastados dos centros, pois já imaginou ter que pegar o carro, dirigir uma distância razoável, pagar estacionamento, só para pegar um produto que poderia ter sido entregue em casa?
Todas as soluções imaginadas pelo segmento sofrem do mesmo mal, não enxergam além do segmento!
Siga os sinais ou a brigada de incêndio devidamente identificada
Uma das possibilidades é uma mudança paradigmática em relação ao modelo atual de shopping center. É preciso conectá-lo com a cidade, com as pessoas, com as marcas e não fechá-los em bolhas. É preciso transformá-los em LUGARES!
Torná-los lugares significa carregá-los de significado, significado encontrado nos lugares, ou melhor, nas pessoas que fazem os lugares. Nada adiantará mudar a área de alimentação de nome, se nessa área, a oferta for a mesma de qualquer outro shopping de qualquer outro lugar. Um lugar é resultado de uma (no mínimo) singularidade, uma característica distintiva e indissociável daquela cultura local.
Antes de tudo é preciso compreender as pessoas que usam e formam aquele lugar (o lugar onde o empreendimento está). Entender como elas se relacionam e como querem se relacionar com a cidade, como é possível criar essa conexão, como integrar shopping, pessoas e cidade.
Dessa forma, o empreendimento passa a fazer parte de um ecossistema maior, chamado cidade, com uma relevância e função específicas nesse tecido urbano, ou seja, um equipamento urbano permeável, convidativo, ancorado nas características identitárias regionais e ao mesmo tempo atento ao que acontece ao redor.
No final do século XX foi a vez dos museus se reinventarem, chega a vez do outrora todo-poderoso shopping center.
Bibliografia: AUGÉ, marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 9 ed. Campinas, SP: Papirus, 2012 CERVEIRA FILHO, Mario. Shoppings centers. Direitos dos lojistas. São Paulo: Saraiva, 1999.
Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas. Foto de Capa: Vincent Callebaut Architectures.
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Por muito tempo, imaginou-se que o turismo seria a única possibilidade de “marcarmos” um lugar, uma ideia que favorecia o hardware dos lugares, ou seja, seus aspectos físicos.
Era preciso que um lugar fosse “belo” para que pudesse ser trabalhado. Em outras palavras, se sua cidade não tivesse a beleza do Rio de Janeiro, de Paris, de Amsterdã ou de Estocolmo, você estaria fadado ao ostracismo ou a ser um destino “underground”. Nesse momento, como tudo girava em torno do turismo, ou os lugares eram destinos (belos) ou não eram destinos.
Foi preciso muito tempo e algumas crises econômicas globais para que esse conceito fosse revisto. Agora entende-se que o turismo é apenas um dos vetores e não o único vetor capaz de qualificar um lugar como uma marca-lugar.
Inovação e criatividade como vetores de crescimento
Aqui, nesse artigo vamos abordar um vetor de desenvolvimento bastante atual, menos glamoroso do que o turismo, mas provavelmente mais eficiente: a inovação.
Sim, essa ideia batida, tão usada e tão pouco explicada. Um termo que parece servir para tudo e ser desejado por quem quer que seja, independentemente do segmento de atuação, como se a inovação fosse a garantia suprema de sucesso.
Então, qual o papel da inovação na cadeia da economia criativa? Como se dá a sua relação íntima com a questão dos lugares? E o que é economia criativa?
No caderno de inovação da FGV/EASP, economia criativa aparece como “o conjunto de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade, gerando valor econômico”. Hoje, segundo a mesma fonte, o Brasil conta com cerca de 243 mil empresas formais nessa área. Juntas, elas empregam quase 1 milhão de pessoas e respondem por 2,7% do PIB. Isso não é pouca coisa. O termo economia criativa surgiu no Reino Unido. John Howkins condensou o debate no bestseller Economia Criativa: Como Ganhar Dinheiro com Ideias Criativas, lançado em 2001.
“A economia criativa abrange todo o ambiente de negócios que existe em torno da indústria criativa, aquela baseada em bens e serviços criativos.” – Fonseca, Ana Carla
“A implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas.”
Possivelmente a explicação mais simples e convincente para o conceito de inovação seja a do UK Innovation Report que diz: “Inovação é a exploração bem-sucedida de novas ideias”
Ou seja, não basta só uma boa ideia, ela precisa ser factível, implementada e gerar resultados positivos, econômicos ou sociais.
Mas o que isso tem a ver com o lugar?
O place branding é um processo que identifica vocações, potencializa identidades e fortalece lugares através do ponto de vista das pessoas. Dessa forma, fica fácil entendermos que um dos resultados tangíveis desse processo é a clareza a respeito dos possíveis vetores de crescimento econômico de um lugar.
Um exemplo usado em 100% das referências a um “lugar inovador” é o bom e velho Vale do Silício. Há que diga quem ele surgiu no começo do século XX, com os laboratórios associados à origem do rádio. Durante os anos 1940 e 1950, o reitor da Universidade de Stanford incentivou professores e graduados a criarem suas próprias empresas. Muitas delas nasceram dentro do próprio campus. Naquele momento, a universidade atuava como âncora do lugar que se tornaria o polo de inovação mais famoso do planeta. O sucesso do Vale se conecta diretamente à universidade local. Foi ali que criaram o Stanford Research Park, com instalações alugadas para empresas de alta tecnologia.
Estudo e validação
Mas o fator mais relevante não está na localização geográfica nem nas características físicas do lugar. O que realmente importa são as empresas. Ou melhor, as pessoas que circulam ali. Pessoas com uma vocação clara, que souberam evoluir, acompanhar as transformações e responder às novas necessidades. Essa vocação tem pouco em comum com a era do rádio, que, supostamente, deu início a essa corrida.
A origem desse posicionamento, voltado para tecnologia de ponta, foi clara desde o início. Ainda que tenha se formado de forma orgânica, ele seguiu uma lógica de cima para baixo. O próprio reitor de Stanford escolheu quais empresas ele queria ali. E assim foi feito. Hoje, a pergunta é outra. São as marcas que validam o Vale? Ou é o Vale que valida as marcas? Isso importa? Talvez não.
O fato é que o lugar se tornou tão relevante que qualquer pessoa gostaria de fazer qualquer coisa lá, só para se sentir ou se declarar inovadora. Isso, por si só, confirma o Vale como uma marca-lugar poderosa. Um lugar de inovação. Ou até mesmo o lugar de inovação.
Construir um “lugar de inovação”
A inovação é um conceito sistêmico. Pouco adianta que existam meia-dúzia de empresas inovadoras num lugar sem os serviços necessários ao seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, isso não impede a criação desse ambiente.
Quando identificamos a vocação para a inovação, por meio de uma pesquisa profunda, de uma análise detalhada do potencial local e regional e de um mapeamento de demandas e necessidades, conseguimos desenhar e criar um polo de inovação. Nesse momento, o placemaking se torna uma ferramenta essencial.
“O placemaking é um conceito cunhado pela ONG norte-americana Project for Public Spaces (PPS) para definir os processos de desenho colaborativo de espaços públicos que levam em conta os desejos, interesses e necessidades das comunidades locais. Seus alcances foram estudados sob a perspectiva de diversos temas presentes em nossas cidades, como ecologia, psicologia, sustentabilidade, resiliência, entre outros.”
Sabe-se que o ecossistema criativo/inovador está intimamente relacionado com a juventude. Não que um quarentão não possa ser inovador, mas é da natureza do jovem o processo disruptivo, questionador, que, muitas vezes, leva à inovação. As novas gerações lidam cada vez mais com o conflito entre o próprio umbigo, aquilo que é bom para si, e o propósito do que fazem, aquilo que é bom para o mundo. Sendo assim, não basta criarmos amontoados de prédios, desconectados das cidades. O próprio conceito de polo de inovação tende a ser mais ecossistêmico e, portanto, mais interligado com as cidades, mesmo a Apple criando seu novo campus, o Apple Park, totalmente voltado para dentro, o que faz algum sentido, já que a empresa de Cupertino não é exatamente famosa pelo seu traquejo social.
Diferente da Apple, a conexão entre empresas criativas com a cidade deve criar espaços públicos de qualidade, confortáveis, humanos, promotores do encontro. Essa é, inclusive, uma das oportunidades para as marcas que compõe a economia criativa criarem vetores de identificação com suas audiências, não só através de produtos e serviços, mas também da qualificação das experiências cotidianas de suas audiências.
Inovação e conexão
Um bom exemplo de como a inovação pode se relacionar com a cidade e, ao mesmo tempo, requalificar toda uma região é o projeto 22@Barcelona. Esse projeto transforma 200ha de área industrial em um distrito, com uma excelente infraestrutura e mais de 3 milhões de metros quadrados de espaços modernos, tecnológicos e flexíveis, para a concentração estratégica de atividades intelectuais.
O projeto se alinha com a estratégia adotada pela cidade de “Barcelona, Cidade do Conhecimento”. Isso significa que, mesmo com o vetor poderoso do turismo, Barcelona ainda procura outros vetores de crescimento e fortalecimento, como a economia criativa, o que comprova que uma cidade resiliente não se apoia só em um segmento econômico.
Além da relação com a cidade, o 22@Barcelona tem outras características relevantes, como o seu uso misto, alinhado com a tendência mundial de se morar próximo ao trabalho, minimizando o tempo gasto com o percurso casa-trabalho, e sistemas de incentivo que favorecem as atividades que se caracterizam por utilizar o “talento” como principal recurso produtivo.
No bairro, é possível ver prédios “high tech” e ao mesmo tempo crianças brincando de amarelinha pintada no asfalto, em um desenho urbano que privilegia as pessoas e as bicicletas em vez dos carros.
Se tudo isso ainda não bastasse, a região ainda conta com âncoras fortes, como o Museu del Disseny, shopping center, centro cultural e ícones arquitetônicos marcantes como a Torre Agbar de Jean Nouvel.
Desenvolvimento e planejamento urbano
Como quase tudo que envolve o planejamento urbano e a discussão das cidades, é preciso apropriar-se de uma perspectiva estratégica, sistêmica. Nem só a arquitetura, com seus ícones, nem só inversão de prioridades em relação aos modais de mobilidade, nem só políticas de incentivo, ou nem só o que quer que seja.
A economia criativa e a inovação são vetores de desenvolvimento econômico viáveis para muitos lugares, além de possuírem força suficiente para alavancar a retomada de bairros degradados, como vimos na Espanha e em diversos outros países. Um ponto importante a ser notado é que o pensamento sistêmico também é um elemento que conecta esses lugares às cidades. Parques tecnológicos são, segundo a definição de LOFSTEN & LINDERLOF, 2002:
“Um ambiente que reflete a suposição de que a inovação tecnológica tem origem na pesquisa científica e que os parques podem fornecer o ambiente catalisador necessário para a transformação da pesquisa pura em produtos comercializáveis”
Parques, muitas vezes isolados dos centros urbanos, tendem a perder a conexão com a cidade, ligando-se prioritariamente às universidades e às empresas de forma secundária.
Cidades criativos e inovadores, é tudo igual?
Nessa segunda década do século XXI, talvez seja a vez das “cidades criativas” ou “cidades inovadoras”, onde os conceitos centrais e de posicionamento não mais se concentram intramuros, mas ocupam uma região mais abrangente da cidade, que, ainda que delimitada a um bairro ou conjunto de bairros vizinhos, tem características mais permeáveis, mais integradas com o tecido urbano, onde os usos se misturam, onde a cidade pulsa. Afinal, você ainda quer dirigir quilômetros para chegar a uma área isolada, diminuindo sua possibilidade de convívio social, ou você prefere trabalhar dentro de uma cidade onde a vida acontece ao seu redor?
Ao mesmo tempo, o que esse seu lugar tem de especial enquanto lugar? Como ele se posiciona? A inovação é sempre igual? A criatividade é sempre igual?
Queremos ser o Vale do Silício de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza etc., ou queremos entender como nós mesmos somos capazes de produzir inovação?
Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas. Foto de Capa: Cortesia Modacity.
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
Existe pouco consenso a respeito da origem das cidades. Os palpites vão de 10.000 anos a 4.000 A.C, de Jericó, na Palestina, até cidades na revolução neolítica. O que parece unânime é a origem da cidade como centro de comércio e fortificação contra inimigos.
O começo das cidades, para muitos, coincide com a domesticação das plantas e animais, e com isso, uma maior permanência nos lugares.
A cidade, local de estabelecimento aparelhado, diferenciado e ao mesmo tempo privilegiado, sede da autoridade, nasce da aldeia, mas não é apenas uma aldeia que cresceu. Ela se forma como pudemos ver. quando as indústrias e os serviços já não são executados pelas pessoas que cultivam a terra, mas por outras que não têm obrigação, e que são mantidas pelas primeiras com excedente do produto total…
A cidade, centro motor desta revolução, não só é maior que a aldeia, mas se transforma com uma velocidade muito superior. Ela assinala o tempo da nova história civil: as lentas transformações do campo (onde e produzido o excedente) documentam as mudanças mais raras da estrutura econômica; as rápidas transformações da cidade ( onde é distribuído o excedente) mostram, ao contrário, as mudanças muito mais profundas da composição e das atividades da classe dominante, que influem sobre toda a sociedade. Tem início a aventura da “civilização”, que corrige continuamente suas formas provisórias.” (BENEVOLO, Leonardo. 2015)
Mais recentemente a revolução industrial e a Segunda Guerra Mundial foram responsáveis pela intensificação dos processos de urbanização.
O homem dominou o fogo há cerca de 500 mil anos. O Homo sapiens existe há aproximadamente 150 mil anos. E nossa história cultural tem, mais ou menos, 30 mil anos. Diante disso, podemos dizer que a formação das cidades é um fato recente. Ainda mais quando consideramos a urbanização brasileira, que só começou depois da década de 1940.
Hoje, estima-se que mais da metade da população mundial se concentre em cidades.
As cidades já foram a solução, o problema e hoje, ao que parece, as cidades são a oportunidade. A oportunidade de conexão, de troca, de apoio, de prosperidade, de felicidade.
Mas qual será o próximo passo?
Quando pensávamos na cidade do futuro, 30 anos atrás, pensávamos nos Jetsons, carros voadores, automatização de tudo, afinal, quem não queria a Rosie?
As cidades se modificaram, muita coisa mudou, é fato. Mas, estamos ainda longe do clássico da Hanna Barbera.
Hoje, quando pensamos em futuro, um termo que comumente vem às nossas cabeças é o “smart city”, afinal, parece óbvio que, diante dos avanços das learning machines e A.Is da vida, as cidades também devam ser “inteligentes”. Mas, o que é uma cidade inteligente? ou melhor, o que faz uma cidade inteligente?
As pessoas usam o termo “smart city” de forma bastante abrangente. Por isso, sua definição continua inconsistente. Em quase todas as vezes em que ouvimos esse termo, a palavra “smart” poderia ser substituída por “technologic”. Aliás, essa prática se tornou tão comum que, ao pensar em “smart city”, já imaginamos uma empresa de ICT tentando vender alguma solução. E, de fato, é isso que geralmente acontece.
Não à toa o termo foi usado pela primeira vez em 1990, quando o foco era a importância do ICT na infraestrutura das cidades. O Instituto da California para Smart Cities foi o primeiro a focar em como as comunidades poderiam se tornar inteligentes e como as cidades poderiam ser projetadas para implementar tecnologia de informação. (ALBINO,BERARDI e DANGELICO, 2015)
Muitos criticaram o fato do conceito estar muito alinhado ao pensamento tecnológico, uma orientação muito técnica.
A discussão sobre o termo “smart” ao invés de “intelligent” também é digno de nota. Para Nam e Pardo ( 2011) a palavra “smart”, na linguagem do marketing, é mais “user-friendly” e menos elitista que “intelligent”. Outra possibilidade de interpretação, segundo os mesmos autores, é a que supõe que “smart” contém o termo “intelligente” embarcado, uma vez que a “smartness” só é alcançada quando um sistema inteligente se adapta ao usuário.
No campo do planejamento urbano, a inteligência é tratada como uma reivindicação normativa e uma dimensão ideológica, ser mais inteligente implica direções estratégicas. Governos e agentes públicos, em todos os níveis, estão abraçando a noção de inteligência para distinguir suas políticas e programas para objetivar o desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico sólido e uma melhor qualidade de vida para os seus cidadãos”. (CENTER OF GOVERNANCE, apud Albino, Berardi e Dangelico).
Mais importante do que o foco exclusivo na tecnologia é entender o sistema que envolve uma abordagem de cidade inteligente.
Smart Infrastructure: serviços da cidade como água e energia, com tecnologia inteligente embarcada.
Smart Transportation: Sistema de transporte potencializado com sistemas de controle e monitoramento em tempo real.
Smart Environment: Inovação e ICT para proteção e gestão de recursos naturais.
Smart Services: Tecnologia e ICT para saúde, educação, turismo, segurança
Smart Governance: Governo inteligente acompanhado por participação e engajamento
Smart People: medidas que potencializem a criatividade e inovação aberta
Smart Living: inovação que potencialize qualidade de vida no espaço urbano
Smart Economy: tecnologia e inovação para fortalecer o desenvolvimento de negócios, empregos e crescimento urbano.
Inteligência X felicidade
Não é exatamente novidade o que a tecnologia pode fazer para melhorar a vida dos seres humanos, das bugigangas que usamos no dia-a-dia, da “wearable technology”, que nos fazem sentir mais modernos, jovens e conectados, até sistemas de prevenção de terremotos e demais desastres naturais que podem salvar milhares de vidas. Enquanto o senso comum acha que a tecnologia afastou as pessoas do contato (com base no contato pessoal como parâmetro ) outra vertente de pensamento acredita que a tecnologia aproxima as pessoas.
“A sociedade da informação deve ser um lugar onde a tecnologia é usada para melhorar a satisfação com a vida e apoiar os nossos objetivos individuais e coletivos, e não para desgastá-los ou prejudicá-los”. Elizabeth Sparrow
Pode parecer, muitas vezes, que o assunto “smart cities” começa e termina na própria tecnologia, diferente do que sugere Sparrow na citação acima.
A pergunta que fica é, do que adianta toda a tecnologia se isso não nos fizer mais felizes?
Mas o que uma cidade precisa fazer para ser feliz?
Primeiro de tudo, deve suprir as necessidades básicas como comida, abrigo, segurança, e depois, Montgomery (2013) elenca uma série de possibilidades:
“A cidade deve maximizar a alegria e minimizar dificuldades Deve levar-nos para a saúde, em vez de doença Deve criar resiliência contra choques econômicos ou ambientais Deve ser justa na forma como distribui espaços, serviços, mobilidade, alegrias, dificuldades e custos. Acima de tudo, deve nos permitir construir e fortalecer os vínculos entre amigos, famílias e estranhos que dão sentido à vida. Vínculos que representam as maiores realizações e oportunidades da cidade. A cidade que reconhece e celebra o nosso destino comum, que abre as portas à empatia e cooperação, irá nos ajudar a enfrentar os grandes desafios deste século.”
O termo “serendipty” que significa felizes descobertas ao acaso, tão usado no universo das startups, hubs e coworkings, na verdade está na própria natureza da cidade. O que é uma cidade senão o palco de encontros, ou como disse Shakespeare em Coriolanus:
“O que é uma cidade senão as pessoas? ”
John Helliwell (appud Montgomery, 2013) mostrou que a rede que conecta confiança e satisfação de vida se estende também ao senso de pertencimento.
O autor compara ao triângulo perfeito:
– As pessoas que dizem que sentem que “pertencem” a sua comunidade são mais felizes do que aqueles que não o fazem.
– As pessoas que confiam em seus vizinhos sentem um maior senso de pertencimento.
– O senso de pertencimento é influenciada pelo contato social.
Na linha de pensamento de Helliwel, podemos dizer que, se a tecnologia pode ser responsável pelo contato social, então, ela pode realmente ser um agente promotor da felicidade.
Mas como usamos a tecnologia nas cidades até agora?
Songdo, Masdar, Fujisawa, são exemplos constantes quando falamos em smart cities, mas o que elas tem em comum? Fácil, tecnologia.
Songdo, na Coréia do Sul, com planejamento baseado na eficiência energética é um exemplo de novas cidades sustentáveis, com vários aparatos tecnológicos que vão de lixeiras com sensor de wifi a sensores colocados na pista que calculam a velocidade dos semáforos com base no tráfego de veículos. Porém, como é comum onde a tecnologia é protagonista, falta engajamento comunitário.
“Algumas pessoas querem ajustar uma cidade como se faz com um carro de corrida, mas estão deixando os cidadãos fora do processo”, diz Anthony Townsend, diretor do Instituto do Futuro e autor do livro “Cidades inteligentes: grandes dados, hackers cívicos e a busca por uma nova utopia”, em entrevista para a BBC Brasil.
É preciso saber como inserir o conceito de sustentabilidade no cotidiano da população coreana e fazê-las entender a importância de todos estes programas de preservação de recursos naturais e criar na sociedade a responsabilidade ambiental sem depender da tecnologia.” – Anthony Townsend
Songdo também é conhecida como “cidade ubíqua”, uma das classificações das cidades inteligentes, e pretende integrar todo o seu sistema urbano à rede, conectados a um grande centro de controle.
O exemplo japonês
Fujisawa, ou Fujisawa Sustainable Smart Town está localizada a 50KM de Tóquio. Como o próprio sobrenome já indica, é uma cidade inteligente, com o foco no uso eficiente dos recursos naturais. Construída no terreno de uma antiga fábrica da Panasonic, marca que, junto a outras 8 empresas, viabilizaram o projeto de aproximadamente R$1.3 bilhão. A cidade conta com todo o tipo de soluções tecnológicas, desde mostrar ao morador qual eletrodoméstico está consumindo mais energia, a conexão da iluminação pública a central de segurança, que opera de acordo com a quantidade de pessoas que passam na região.
Ainda que conte com um projeto comunitário, Fujisawa parece ter esquecido um pequeno detalhe: o planejamento urbano. Até mesmo o desenho da cidade é orientado pela tecnologia, onde o desenho das ruas prioriza a iluminação natural nas unidades, para com isso, gastar menos energia, num exemplo claro de “Tech- oriented city”, ou, como o próprio nome “comercial” sugere: “ A cidade inteligente da Panasonic”.
Os Emirados Árabes não poderiam ficar de fora
O exemplo árabe da lista é a festejada Masdar City.
Originalmente projetada para ser a primeira cidade “zero-carbono” no deserto dos EAU, com previsão de conclusão para o ano passado, hoje conta somente com 300 moradores, todos estudantes do Instituo de Ciência e Tecnologia.
Concebida há mais de uma década, como um novo exemplo de cidade a ser seguido. Quando a cidade começou, em 2006, o projeto foi promovido como modelo para uma paisagem urbana verde de uso misto: um centro global para a indústria de tecnologias limpas, com 50 mil habitantes e 40 mil trabalhadores.
A Foster + Partners criou uma cidade sem carros, com carros elétricos autônomos, ao estilo Jetsons levando passageiros entre edifícios que incorporam tecnologias inteligentes para resistir ao calor abrasador do deserto e manter os custos de refrigeração baixos.
Tão longe e tão perto
Por mais que os exemplos tecnológicos de Japão, Coréia do Sul e Emirados Árabes sejam sedutores e pareçam saídos de contos de ficção científica, aparentemente o exemplo mais bem sucedido, está muito mais próximo da nossa realidade. Muito longe de sua fama anterior, relacionada à violência e ao tráfico de drogas, a colombiana Medellin, parece ser a bola da vez, não pela tecnologia em si, mas pela forma como ela é usada.
Medellin tornou-se famosa pelo seu design inovador de espaços públicos para combater a desigualdade e promover a paz. Uma estratégia importante adotada pelo governo foi transformar espaços de segregação e crime em espaços para desenvolvimento social e comunitário.
Ao longo da borda rural-urbana, a comunidade construiu um cinturão verde para se envolver na agricultura, conter a expansão descontrolada das favelas e reduzir o risco de deslizamentos de terra. Os moradores locais aprenderam habilidades agrícolas e de construção, o que fortaleceu o senso de pertencimento. Em outro projeto, conhecido como Unidades de Vida Articulada, a comunidade transformou antigos tanques de armazenamento de água em espaços comunais. Esses espaços agora recebem atividades esportivas, recreativas e culturais definidas pelos próprios cidadãos.
Pioneirismo em design
A cidade também foi pioneira no design de “parques biblioteca”, uma combinação de estruturas de biblioteca e espaços verdes. Estrategicamente localizados em bairros de baixa renda, os 10 parques biblioteca fornecem educação e recursos de ICT para 1000-2000 pessoas por dia e tornaram-se centros culturais para comunidades marginalizadas para se juntarem em atividades educacionais, culturais e recreativas.
O exemplo de Medellin comprova que não basta tecnologia, é preciso mais do que isso, é preciso inteligência para usá-la, uma compreensão sistêmica dos problemas locais e uma visão do que se quer alcançar. Essa visão, objetiva e sistêmica, é capaz de transformações mais efetivas e de maior impacto social, econômico e ambiental.
Antes uma das cidades mais violentas do mundo, a Medellín é agora um centro de tecnologia e inovação em toda a América Latina, reduzindo sua taxa de homicídios em 80% em 10 anos, enquanto criou infra-estrutura de transporte, aumentando a sustentabilidade ambiental e estabelecendo orçamentos participativos para o cidadão. Em 2013, foi nomeado “Cidade Inovadora do Ano” pelo Urban Land Institute – em parceria com o Citi e o departamento de Serviços de Marketing do Wall Street Journal – ganhando o título entre mais de 200 outras cidades, incluindo potências globais como New York City e Tel Aviv.
O outro lado
Enquanto a ideia de smart cities se alastra e aparece como a solução de todos os problemas urbanos, há quem diga que ela poderá acabar com a democracia. É inevitável a lembrança de filmes como Minority Report, onde o aparato do estado ubíquo, sabe o que vai acontecer antes mesmo de acontecer, identificando criminosos antes que os crimes ocorram.
No entanto, há críticas distópicas, sobre o que essa visão inteligente da cidade pode significar para o cidadão comum. A própria frase desencadeou uma batalha retórica entre tecto-utopistas e flaneurs pós-modernos: a cidade deve ser um panóptico otimizado ou um caldeirão de culturas e idéias?
E qual o papel do cidadão? A do vendedor de dados não remunerado, contribuindo voluntariamente com informações para uma base de dados urbana que é monetizada por empresas privadas? O morador da cidade é melhor visualizado como um pixel em movimento, viajando para o trabalho, lojas e casa novamente, em uma colorida tela gráfica 3D? Ou o cidadão é uma fonte imprevisível de exigências obstinadas e asserções de direitos? “Por que as cidades inteligentes oferecem apenas melhorias?”, questiona o arquiteto Rem Koolhaas. “Onde está a possibilidade de transgressão?”
A impressão que se tem é que com o aumento da tecnologia, a onipresença de soluções digitais, a cidade deve se comportar como um robô vasto e eficiente, visão originada, não por acaso, pelas gigantes da tecnologia como IBM, Cisco e AG, objetivando os grandes contratos com a municipalidade.
Conclusão
Embora a tecnologia tenha inúmeras contribuições possíveis para as cidades, ela só fará sentido se promover a qualidade de vida das pessoas. Uma sociedade “Tecnocêntrica”, por definição não trará melhorias sensíveis para uma sociedade onde a orientação deveria ser necessariamente “humanocêntrica”. Como em toda a evolução, é preciso avaliar os diferentes pontos de vista e os diferentes aspectos dos impactos causados, e o quanto eles são de fato relevantes.
A tecnologia parece ser o novo diferencial buscado pelos lugares, de bairros a cidades, numa clara tentativa de colocar a própria tecnologia como singularidade.
Nas discussões de place branding, a ideia de cidades inteligentes, por exemplo, surge como a solução definitiva para a diferenciação, como se o simples fato da cidade adotar um sistema interligado, por si só, fosse capaz de mudar algo ou promover alguma melhoria, ou pelo menos, percepção de valor. Todas as cidades podem ser inteligentes? Definitivamente, e, por isso mesmo, a tecnologia não é uma expressão de singularidade.
Enquanto a inteligência for o fim e não o meio, teremos várias cidades com semáforos inteligentes e wifi em espaços públicos, mas que, na essência, não promoverão nenhuma transformação social, a não ser que saibamos porque estamos implantando os sistemas, e mais do que isso, qual o resultado que essa implantação trará e como se alinha com a nossa vocação e identidade enquanto lugar.
Referências
ALNINO,Vito, BERARDI, Umberto e DANGELICO, Rosa Maria. Smart Cities: Definitions, Dimensions, Performance, and Initiatives. Journal of Urban Technology. Vol.22. 2015 ANTHOPOULOS,L.G. Understanding Smart Cities: A Tool for Smart Government or an Industrial Trick? 2017 BENVOLO, Leonardo. História da Cidade. São Paulo. Perspectiva.2015 MONTGOMERY, Charles. Happy city: transforming our lives through urban design.New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013. NAM,T., PARDO,T.A. Conceptualizing Smart City with Dimensions of Technology, People and Institutions. Proc.12th Annual International COnference on Digital Government Research. 2011
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
Quando ouvimos e lemos sobre cidades do futuro, constantemente nos deparamos com o termo cidades inteligentes, ou na sua versão mais comercial, smart cities. Muitos imaginam que a inteligência das cidades tem conexão direta com o seu futuro, ou melhor, que o futuro das cidades está ligado à inteligência embarcada nelas, e que essa inteligência está relacionada exclusivamente à tecnologia, o que embaralha ainda mais o conceito, criando para muitos uma ideia de que futuro/ tecnologia/ inteligência são conceitos indissociáveis, desejáveis e necessários, ou ainda pior, que inteligência e tecnologia serão os grandes responsáveis pelo futuro das cidades (ou, para aqueles mais radicais, essencial para que as cidades tenham um futuro).
Já falei, nesse mesmo espaço, sobre a visão compartilhada por muitos, de que a “sensibilidade” como chamou Carlo Ratti do MIT (ainda que com um viés bastante tecnológico) é tão ou mais importante do que a própria inteligência nas cidades. Ainda que “cidade sensível” (senseable city) não seja um excelente nome, ainda é mais abrangente e assertivo do que “cidade humana”, que ainda que antropocêntrico, sempre dá a impressão que apenas os humanos têm vez, criando um problema com todo o tipo de militância ecológica. Uma cidade sensível deveria ser sensível a tudo e a todos, inclusiva e indiscriminadamente.
Hoje, quando pensamos em futuro, um termo que comumente vem às nossas cabeças é o “smart city”, afinal, parece óbvio que, diante dos avanços das learning machines e A.Is da vida, as cidades também devam ser “inteligentes”. Mas, o que é uma cidade inteligente? ou melhor, o que faz uma cidade inteligente? (Esteves, 2017)
Mas, a grande provocação sobre o futuro das cidades veio de onde se menos esperava. Não foi ideia de um urbanista, de um cientista social ou de um designer. Foi um analista de risco, isso mesmo (se bem que é uma definição um tanto reducionista para esse autor) que trouxe uma ideia, que agora, relaciono com o meu universo de pesquisa e atuação: a cidade. Esse analista de risco se chama Nassim Taleb e é dele uma ideia incomum, embora conhecida empiricamente por grande parte das pessoas, a antifragilidade.
Antifragilidade é o oposto de fragilidade e, segundo o autor, é algo que se beneficia com a incerteza, ou seja, algo que “gosta” da incerteza.
Quando você está frágil, depende que as coisas sigam o exato curso planejado, com um mínimo de desvio possível, pois os desvios são mais prejudiciais do que úteis. É por isso que o frágil precisa ser muito preditivo em sua abordagem, e, inversamente, os sistemas preditivos causam fragilidade. Quando você quer desvios, e não se preocupa com a possível dispersão de resultados que o futuro pode trazer, já que a maioria será útil, você é antifrágil. (TALEB, 2015)
Além da resiliência
Uma das partes mais importantes do conceito de Taleb é a comparação do que ele chamaria de Tríade: fragilidade, resiliência, antifragilidade.
A fragilidade sofre (e eventualmente morre) com a incerteza, com os erros e desvios, e é comparada com o mito da “espada de Dâmocles”, onde nosso protagonista troca de lugar com Dionísio, monarca de Siracusa, cidade mais rica da Scicília, e pode usufruir por um dia, de tudo que lhe era oferecido. Em meio à felicidade que agora ele facilmente aproveitava, recostou-se nas confortáveis almofadas e olhou pra cima e percebeu uma espada apontada em sua direção, presa por um fio da crina de um cavalo, ou seja, tudo parece lindo, mas tudo pode acabar a qualquer momento.
A resiliência, por sua vez, é ligada aquilo que não sofre com a diversidade, e, após enfrentá-la, retorna a sua forma original, ou seja, não se prejudica, mas também não se beneficia com a incerteza. Nessa parte da Tríade, a metáfora usada é o mito egípcio da Fênix, ave que ao morrer era devorada por chamas e delas nascia uma nova Fênix, igual a anterior.
Já a antifragilidade, que por sua vez se beneficia da “desordem” é comparada ao mito grego da Hidra de Lerna, monstro com várias cabeças (de 7 a 10.000 dependendo do autor), enfrentado por Héracles (Hércules na mitologia romana) que ao ter uma de suas cabeças cortada, automaticamente duas novas cabeças nasciam no lugar, ou seja, ela se aproveitava da incerteza, e crescia com ela.
Lembre-se de que o frágil deseja a tranquilidade, o antifrágil cresce com a desordem e o robusto não se importa muito” (Taleb)
Nem é preciso ir tão longe
Um exemplo mais próximo de antifragilidade é a “cultura” startup. No ecossistema inovador, o erro faz parte do processo. Errar, ao contrário do pensamento tradicional, também traz conhecimento e aprimora processos, serviços, produtos e até pessoas.
A ordem é evoluir e não sobreviver.
O “frágil” versus o “robusto” versus o “ágil” versus o “antifrágil”: a natureza busca a antifragilidade.
Em relação à cultura das startups, uma pergunta que ouço há muito tempo se refere sobre a relação entre identidade e volatilidade, afinal, como é possível trabalhar uma identidade de uma empresa (marca nesse caso) se a natureza de uma startup é mudar? Se um dia ela faz aplicativos sobre mobilidade, no outro isso vira um jogo e na semana que vem uma plataforma colaborativa de empreendedorismo social?
A resposta é a mesma, tanto para empresa quanto para cidades, ou mais especificamente, tanto para marcas corporativas quanto para marcas-lugar: Concentre-se nas pessoas.
São as pessoas os elementos imutáveis (teoricamente) da equação. O elo de ligação entre os sócios de uma startup, por exemplo, apresenta dicas poderosas da identidade daquela empresa, que para efeitos comparativos nesse artigo chamaremos de “encontro de pessoas”. O que mantém essas pessoas juntas, hoje fazendo app, amanhã games e semana que vem plataformas são as características identitárias, muitas vezes traduzidas num propósito claro, tão caro à geração dos millennials. Mas, é importante diferenciar identidade de propósito, embora ambos sejam características interiores, o propósito também é coletivo (a identidade pode ser), compartilhado e concretizado externamente.
No final, sempre teremos que responder a mesma pergunta
Saber quem somos, o que quase nunca é fácil, está no centro da questão desse artigo, traduzida em um termo, uma palavra, ao mesmo tempo comum e complicadíssima: identidade.
Para Calhoun,1994 “Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas em que alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida…”
Para as ciências sociais, mais especificamente para Castells (1999)
Não é difícil concordar que do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir do quê, por quem, e para quê isso acontece. A construção de identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso.”
A coisa complica ainda mais quando colocamos mais um elemento nessa discussão: o lugar. Dessa forma teremos a identidade dos indivíduos, e do território, que podemos concluir, lembrando Tuan, que é a soma das identidades dos indivíduos. Assumiremos que essa soma de identidades é capaz de formar uma “identidade de lugar”, sem necessariamente ser construída por algum ente (político, religioso, corporativo etc) com interesses próprios.
A hipótese da identidade
Na experiência empírica (de que Taleb tanto gosta), a prática tem mostrado que o conhecimento dos elementos identitários, supervalorizados pelos cientistas sociais e subvalorizados pelos planejadores urbanos, podem ser responsáveis pela criação de lugares mais vibrantes, harmônicos, com maior senso de pertencimento, e claro, mais resilientes.
E é aqui que tudo começa. Durante anos venho defendendo a resiliência das cidades como o principal objetivo do place branding. A revisão do termo faz sentido à medida que ele está cada vez mais relacionado com a ideia de sustentabilidade, ou seja, embarcado de carga simbólica do universo discursivo da ecologia e meio ambiente. A perspectiva da Tríade de Taleb traz mais um elemento para a discussão: não deveriam as cidades buscar a antifragilidade?
Identidade dos indivíduos +
identidade do lugar +
opcionalidade =
lugar antifrágil
Essa é uma equação, ainda simples, da hipótese da identitidade, onde levamos em conta não só as identidades, mas outro elemento, também levantado por Taleb: a opcionalidade.
Esse conceito é provavelmente o de mais fácil compreensão. Opcionalidade é a possibilidade de diversidade, ou o famoso “plano B” seguido pelas demais letras do alfabeto, ou nas palavras do próprio Taleb: “Não ficar preso a determinado esquema, de modo que se possa mudar de opinião enquanto se segue adiante, com base em descobertas ou novas informações”. Não a toa que a opcionalidade é comparada a figura do flanêur Benjaminiano, que diferente do turista, com suas reservas, aplicativos, vouchers e todo o tipo de parafernália que o prende ao destino, simplesmente “flana” pela cidade, tomando cada decisão de acordo com sua própria vontade e de acordo com as oportunidades que se descortinam a sua frente.
Fragilidade é prisão, antifragilidade é liberdade.
Não raramente nos deparamos com lugares – cidades mais precisamente – que tem apenas uma única vocação definida, ou apenas um produto reconhecido, imaginando que nunca, nenhum outro lugar poderá superá-lo.
Já vimos o que acontece com esse tipo de pensamento, exemplos não nos faltam, sendo Detroit nos Estados Unidos, provavelmente o mais retumbante. Voltada para a indústria automobilística, a cidade, começou a presenciar um êxodo sem precedentes na década de 1960, com demissões em massa na indústria. De dois milhões de habitantes em 1960 a cidade tem hoje 700 mil, tentando, de todas as formas, se reerguer.
Assim como Detroit, que jamais imaginou que a indústria automotiva pudesse sofrer algum tipo de crise, vários outros lugares tem a mesma ilusão da certeza, da perpetuidade das coisas.
Mas como prever o que pode acontecer?
Essa é a grande questão, é difícil prever o que acontecerá. O essencial é criarmos mecanismos e um mindset antifrágil capaz de aprender com os erros e até se beneficiar deles.
Nesse momento a singularidade entra em campo. Pegaremos emprestado esse termo da física, onde define fenômenos tão extremos que as equações não são mais capazes de descrevê-los, ou ainda para definir aquilo que é pouco frequente, ou, por extensão, qualidade que distingue algo dos outros do mesmo gênero, aquilo que não conseguimos prever ou imaginar:
Como podemos ver, o termo singularidade está presente em um futuro discursivo, naquilo que talvez aconteça, um ponto de onde não saberíamos prever o que viria depois (como se em algum momento pudéssemos prever o que quer que fosse)
Como sugiro no gráfico abaixo, podemos propor o seguinte sentido para a construção de um lugar antifrágil, imaginando que a opcionalidade singular pode ter mais ramificações.
Se por anos procurei a resiliência como resultado, agora, a antifragilidade parece uma abordagem a ser seguida. Imagino que uma cidade antifrágil é um lugar com uma identidade (formada ou não pela soma das “pequenas identidades” ). Essa identidade clara e compartilhada, resulta em uma, ou mais, singularidades, que são as formas com que a identidade se manifesta. Quanto mais opcionalidade conseguirmos gerar, de forma alinhada, e portanto autêntica, melhor, ou mais antifrágil o lugar poderá ser.
Conclusão
Esse texto apresenta um primeiro recorte para esse novo conceito, que provisoriamente chamaremos de Cidade Antifrágil. Digo provisoriamente porque o termo ainda não é autoexplicativo e pode parecer facilmente um sinônimo para resiliência.
Nele, embarcamos a reflexão de Taleb junto ao mindset do place branding e da ideia de cidades para pessoas. Ou, como preferimos dizer, lugares orientados pela identidade. Essa combinação busca trazer à tona a discussão sobre o futuro das cidades. De um lado, vemos um êxodo crescente em direção aos grandes centros urbanos. Essa migração parte, principalmente, de populações que não encontram oportunidades suficientes nos seus lugares de origem. De outro, os governos municipais enfrentam uma competição constante por recursos, talentos, turistas e indústrias.
Ainda temos mais perguntas do que respostas, mas a certeza de que é preciso olhar para frente, uma vez que as previsões baseadas no passado já não são mais eficientes (se é que um dia foram), e que o futuro recai sobre nós, pessoas, e ainda, que os modelos de gestão dos lugares, que já são ineficientes, se tornarão obsoletos muito antes do que imaginamos.
Fontes:
TALEB,N.N. Antifrágil. Kindle Edition, 2015 CASTELLS,Manuel. O poder Da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
Pessoas nas ruas, ocupação dos espaços públicos, retomadas dos centros urbanos, vida comunitária. Há algum tempo venho dizendo, com bastante segurança, que a cidade, o urbano, é o representante do Zeitgeist nesse começo de século.
Pra quem não lembra, o alemão dito cujo também é conhecido como “espírito do tempo”, algo que, num conjunto intelectual, social e cultural, representa um determinado período histórico.
Olho pela minha janela, no centro da maior cidade da América do Sul, e vejo tudo, absolutamente tudo, menos pessoas nas ruas, ocupação dos espaços públicos, retomadas dos centros urbanos, vida comunitária.
Não vejo ninguém, nunca, em nenhum horário. Vez ou outra sou surpreendido pelo barulho do escapamento furado de alguma moto de algum entregador, que também passa cada vez menos, ou talvez tenham sido substituídos por ciclistas, quem sabe.
A praça da República, importante ponto de encontro de office boys, moradores de rua, advogados, arquitetos, trabalhadores de telemarketing, auxiliares administrativos, vez ou outra de turistas, e sempre de todos os tipos de hipsters, hoje, pela nesga da minha janela, parece saída de um filme distópico.
Hoje é domingo, dia de feirinha, de movimento, de turistas, de fila quilométrica no rodízio do Almanara art déco, de gente se entupindo pra ver o cartaz em tamanho natural do Olivier Anquier convidando pra entrar em sua padaria descolada, de fila desde o almoço para conseguir um lugar no jantar na Dona Onça, na Casa do Porco, dia de sambão na praça Dom José Gaspar, de balada-rave-modernete no Paribar. Não, Oliviers, Janaínas, Jefersons, Luíses, todos estão em casa, fechados, assim como eu, provavelmente pensando que diabos acontecerá a seguir e muito longe de ter uma resposta plausível.
Será que a pandemia mudará nossa forma de nos relacionar com o espaço-público?
Essa é uma das tantas perguntas que ocupam o meu tempo entre um livro e outro, uma série e outra, uma reunião e outra, na tentativa de levar uma vida minimamente normal.
Uma coisa é certa, e uma certeza já é grande coisa: o mundo virou um grande Não-Lugar. Não-lugar é um conceito do antropólogo francês Marc Augé. Não lugares não possuem características simbólicas suficientes para serem considerados lugares, mas ao mesmo tempo, representa algum nível de relação funcional a ponto de não se caracterizarem espaços. Vale lembrar a diferença entre espaços e lugares, que como já vimos, não são a mesma coisa. Minha leitura para o texto clássico de Tuan é que os lugares são espaços dotados de significado pelas pessoas, logo, sem pessoas, sem significado; sem significado, sem lugar.
O planeta virou um cenário. Pode-se enxergar, pela TV e internet, lugares que as hordas de turistas antes não deixavam. Deu até pra ver a cor da água de Veneza. Nessa paisagem, linda, nada acontece, nada vive, nada mais significa o que significara outrora.
Nosso mundo se voltou para nossa casa- bunker- refúgio.
A casa se tornou espaço-público e privado, num limite invisível, possibilitado como nunca pela tecnologia. Reuniões foram feitas via plataforma digital, turmas se encontraram para bater papo e beber virtualmente, até orquestras deram concertos, cada um da tranquilidade de sua casa.
A desmaterialização do trabalho não é tema recente, mas ele nunca teve tão em pauta como agora. Será que as empresas manterão seus escritórios gigantes, seus horários fixos, suas centenas de reuniões presenciais? Não dá pra saber. O que se sabe é que o movimento nômade-digital tomou uma outra proporção, não mais por podermos estar em todos os lugares e produzindo, mas por nos proporcionar não estar em lugar nenhum que não seja a nossa casa, ou seja, vivemos um anti-nomadismo, ainda que digital.
O mundo se tornou a nossa casa, e nossa casa, por sua vez, o centro do mundo.
Isso nos deixa diante de uma encruzilhada, será que sentimos tanta falta assim um dos outros a ponto de todos irmos pra rua e nos abraçarmos quando tudo isso acabar, voltarmos a ocupar os cafés na calçada, movimentar o comércio de rua, andar, andar e andar pela cidade?
Minha suspeita é que sim, e que nunca daremos tanto valor a isso quanto num futuro próximo.
Caso contrário, voltaríamos ao século XIX. Naquele período, a Revolução Industrial amontoou trabalhadores próximos às fábricas, o que aumentou drasticamente a densidade de cidades como Londres. No entanto, essas cidades ainda não contavam com as condições tecnológicas e sanitárias necessárias para suportar tal crescimento. Como consequência, consolidou-se uma ideia que perduraria por mais de um século: a de que a cidade representava o mal, o lugar da doença. Por outro lado, o paraíso estaria nos subúrbios, na natureza edílica, o mais distante possível do caos urbano.
Esse século tem mostrado, até agora, que a felicidade está ligada à convivência. Está relacionada com a possibilidade dos encontros e com o tempo dedicado ao que realmente importa. Mesmo os condomínios mais afastados começaram a se comportar como centralidades. Isso acontece inevitavelmente. Afinal, por mais que exista o desejo de viver próximo à natureza, a conveniência e a convivência proporcionadas pelos centros urbanos não são fáceis de sacrificar.
Começamos a trocar home theaters sofisticados pelos escassos cinemas de rua, condomínios- clube por uma corrida no parque público, o carro individual pelo transporte compartilhado, até o tamanho das nossas casas mudou drasticamente. Diminuiu e diminuiu, ficou menor que a vaga para nosso carro, e nós lidamos bem com isso. Entendemos que a experiência urbana dos grandes centros era infinitamente mais interessante que a nossa mera e tediosa vida privada. Pelo menos até o mês passado.
A comunidade não é mais uma questão territorial.
Não nos definimos mais apenas pela praça que ocupamos fisicamente. Recentemente, durante uma aula de pós-graduação, um aluno me perguntou se a web poderia ser considerada um lugar. Naquele momento, hesitei. Mas hoje, afirmo com segurança: sim, a web pode ser um lugar, dependendo de como a usamos.
Se as nossas relações comunitárias sempre foram baseadas em características identitárias/culturais, o próprio conceito de territorialização se desfez. Não é preciso estar num mesmo ambiente para se relacionar com “os seus”, nem na mesma cidade, nem no mesmo país.
As comunidades se tornaram virtuais, bem antes do sucesso de Zooms e Hangouts da vida. Nos relacionamos com aqueles com os quais nos identificamos, independente de onde eles estiverem. Essa rede comunitária invisível ficou evidente nesses últimos dias. Meu palpite é que continuaremos a nos encontrar fisicamente, em lugares de identificação, aqueles onde nos sentimos “em casa”, aliás a própria ideia de sentir-se “em casa” nunca foi tão relevante, mas isso não negará a tecnologia.
Aliás, não tem como deixar de citar Naisbitt e Piazza, que apontam: quanto mais tech formos, mais touch seremos. Cada vez mais, a nossa própria ideia de comunidade vai depender da tecnologia. As sociedades digitais já estão em andamento. Um bom exemplo é a pequena Estônia. Hoje, graças a um sistema tecnológico robusto, o país mantém apenas dois documentos impressos em papel. Todo o resto, incluindo a burocracia do dia a dia, é resolvido digitalmente. E com isso, sobra mais tempo para o que realmente importa.
A lição que fica
A lição da Estônia também é semântica. Percebam que eles se comportam como uma “digital nation” e não “smart nation”. Ao mesmo tempo que a tecnologia embarca inteligência, a inteligência não se limita a tecnologia.
Mais uma vez é fácil concluir que tecnologia e humanidade estão inevitavelmente ligadas, o comportamento de uma impacta na outra, até porque, mais do que inteligentes, todos querem ser felizes, seja correndo nas praças e parques, seja dentro de casa.
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
Enquanto as cidades brasileiras já sabem quem serão seus representantes eleitos, os eleitores do Amapá ainda terão o segundo turno. Além do apagão que esse Estado sofreu, esse ano foi marcado por muitas “surpresas”. Escrevo “surpresas”, assim mesmo entre aspas, porque cabe aqui um grande questionamento: Será que é possível ter alguma certeza sequer sobre o futuro?
Se essa era uma dúvida, 2020 tratou de saná-la. Embora a ideia de futuro possa ser essencialmente incerta, para não dizer desconhecida, nos acostumamos a tentar prevê-lo, controlá-lo e domá-lo. Lembro perfeitamente do início da pandemia, quando muitos compararam a situação a um evento Cisne Negro. Eu mesmo cheguei a usar essa expressão. Mas logo mudei de ideia ao ver o próprio criador do termo explicar que aquilo não se encaixava nessa categoria. Segundo ele, diversos estudos já apontavam a possibilidade de uma pandemia. Sem contar o cinema, que mais uma vez antecipou futuros que insistimos em perseguir, mesmo quando fomos devidamente avisados.
O fato é que além de não conseguirmos prever o futuro, também não conseguimos dar muito atenção quando alguém nos avisa sobre ele. Por um lado, finge-se que se tem uma capacidade clarividente e, por outro, simplesmente ignora-se os estudos científicos capazes de, pelo menos em parte, prevê-lo.
Mas o que isso tem a ver com as cidades e os novos prefeitos?
Os novos prefeitos pegarão suas cidades muito diferentes de seus antecessores. Quanto a isso parece não haver mais dúvida. O problema ainda maior é que não só as cidades mudaram, mas o mundo mudou, e, provavelmente, nunca mais será igual ao que foi até janeiro de 2020. Não se trata de uma visão pessimista de mundo, mas uma constatação óbvia, pragmática. O mundo mudou e nós mudamos com ele, ou por causa dele, ou a nossa mudança mudou o mundo, não importa.
Me encontro em meio a pandemia com algumas suposições com embasamento considerável, embora ainda suposições. Seremos mais urbanos, continuando a tendência de alta dos índices de densidade dos centros urbanos, ou retomaremos ao espraiamento, à vida próxima a natureza, ou a alguma ação de marketing bem elaborada que tem seu começo ainda no século XIX? Seremos mais globais ou nos renderemos ao nacionalismo populista? (desculpem, não consigo desassociar essas duas palavras), e talvez a questão mais delicada e importante de todas, seremos mais solidários ou mais individualistas?
Escrevo esse artigo ainda sob o efeito de duas noites muito mal dormidas após assistir ao ótimo e absolutamente indigesto documentário “Cercados”, que conta a labuta dos jornalistas que se expõem diariamente na tentativa de criar canais de informação independentes das redes de fake news que assolam o mundo. Ao mesmo tempo que me indigno, sinto um enorme alívio de estar mais na posição que se tornou alvo fácil de governos e apoiadores.
Mas a indignação com as questões levantadas pelo documentário talvez venha pela certeza escancarada que existe uma grande parte da população alinhada às ideias do atual governo, e nesse momento a dúvida surgiu em forma de insônia: como realizar processos colaborativos e cocriativos com pessoas que de um lado gritam “mito”, imitam toscamente uma mistura de soldados gregos e grupo extremista, ou ainda, imprensa comunista gayzista e de outro a turma que acha que o ex-ministro da justiça é um agente da CIA e que Venezuela e Cuba são exemplos de democracia. Como colocar essas pessoas para trabalhar juntas?
Colaboração é a chave
Se aprendemos alguma coisa nesses trinta anos passados em oito meses, é que não conseguimos fazer tudo sozinhos, até o mais nacionalista populista sabe disso, com a diferença que ele se entrincheira com seus pares e irmãos de pátria (nunca pensei que esse termo faria um dia sentido e muito menos que iria utilizá-lo em um artigo sobre cidade e política). Por não poucas vezes escrevi que as comunidades com maior vitalidade saíram- se melhor no mundo pandêmico do que as comunidades que nem comunidades eram.
Se os processos colaborativos e cocriativos já eram trabalhosos e difíceis, quem dirá agora num mundo polarizado como o atual. Essa tem sido uma pergunta recorrente em palestras Brasil afora, como juntar esse povo que pensa tão diferente? Minha hipótese, que ponho em prática diariamente, e aqui fica a primeira dica para os prefeitos, é encontrar aquilo que junta indiscutivelmente essa turma tão diferente, uma dor conjunta (que geralmente é mais fácil de ser identificada do que um sonho conjunto) e partir daí. Deixe a política partidária-ideológica de lado e concentre-se no ser humano, no indivíduo que está ao seu lado ou à sua frente. Antes de pensarmos de forma coletiva, cultural, subcultural é preciso entender os indivíduos e dar a eles a oportunidade de conexão, criando um novo comportamento, agora diante de um grupo até então desprezível.
Mas isso não é tarefa fácil, é preciso vontade antes de tudo, mas uma considerável dose de persistência e claro, conhecimento. Conseguir a participação das pessoas em algo que podemos chamar de “bem maior” não é fácil. Para isso toda a tecnologia é bem vinda, e para mim, esse é um dos pontos que faz uma cidade ser de fato inteligente. É preciso criar sistemas, ferramentas e plataformas de fácil interação, não só fácil como prazerosa. Não pode ser como reunião de condomínio ou como consulta pública, ou melhor, não pode ser para inglês ver.
Mas já que eu falei de tecnologia
Mas a tecnologia não se limita a unir as pessoas. Mesmo que isso já represente uma grande conquista, é preciso ir além. A cidade se transformou em algo muito maior do que seu território físico, seu hardware. A possibilidade de novas ondas, vírus e lockdowns aponta para uma necessidade recente, embora não inédita. Precisamos repensar a cidade, o bairro, o país e o estado de forma desterritorializada. Ou, como prefiro chamar, precisamos considerar a supraterritorialidade dos lugares.
Há muito se fala sobre a cidade como o lugar do encontro, da interação. Se essa interação não se dá mais fisicamente, ou melhor, presencialmente, então onde está essa cidade? Acho que o primeiro que me alertou para isso foi o amigo e também arquiteto Caio Vassão. Já tinha lido um de seus artigos sobre isso e estressamos esse assunto em meio a uma das “lives para o fim do mundo” que promovi nos momentos mais punks da pandemia.
Como disse, embora não seja uma discussão nova, e já existam alguns ótimos exemplos internacionais como os projetos recentes de turismo virtual das Ilhas Faroé, ou a nação digital do e-Estonia, nosso governo ainda está longe de entender a cidade como um ativo que pode ser também intangível.
Lá vem a intangibilidade mais uma vez…
Num mundo desterritorializado de uma sociedade desmaterializada, o que nos resta é o intangível.
Onde eu estou não importa, o que eu experimento importa. Trabalho, relacionamento, esporte, cidade, país, tudo isso e muito mais foi transformado esse ano.
Aos novos prefeitos é preciso criar novos mecanismos de relacionamento com a cidade, relacionamento interno e externo. Cada vez fará menos sentido ficar numa fila para um serviço público, aliás isso já é uma vergonha, uma vez que a tecnologia para esse tipo de uso está disponível há tempos. Fará menos sentido deslocar-se para a realização de alguma tarefa burocrática, ou ainda, fará cada vez menos sentido visitar uma cidade, estado ou país fisicamente ( ok, exagerei muito aqui pra explicar o meu ponto) pelo menos numa primeira vez, ou ainda, principalmente em momentos de crise sanitária, crise essa que inclusive pode inviabilizar por longos períodos a presença física de visitantes em alguns países específicos.
Se o hardware já não era um grande diferencial há tempos, agora ele precisa de complemento. Esse complemento vem do software ou, mais do que isso, da alma do lugar. É a experiência com essa alma que gera valor aos lugares. Como repito desde sempre, se fôssemos a Nova Iorque apenas para ver a Estátua da Liberdade, gastaríamos dinheiro à toa. Sem contar a energia e a burocracia para conseguir o visto. Bastaria andar alguns quilômetros até a loja Havan mais próxima. E ainda ganharíamos uma visita a Washington de brinde. É com essa alma, esse ativo estratégico intangível que os novos governantes precisam estar atentos.
Essa alma, inclusive, é responsável para suprir as necessidades do “corpo”, entender esse espectro dos lugares é se colocar de forma assertiva e eficiente num mercado ávido por talentos, visitantes, investimentos, recursos humanos e econômicos.
Claro que diferente das empresas, as prefeituras não precisam gerar lucro, mas quanto mais dinheiro elas gerarem, maior deverá ser o estado de bem estar social da população.
O futuro é frágil
A “Cidade Antifrágil” vem sendo meu objeto de estudo e trabalho nos últimos anos. O conceito criado por Nassim Taleb, parte da ideia onde é preciso ir além da resiliência, onde enquanto a resiliência é a capacidade dos elementos voltarem a sua forma original após um evento traumático, a antifragilidade é a capacidade de evoluir após um evento traumático, aprimorando-se ante ao caos.
A minha “fórmula” para a cidade antifrágil, começou com três dimensões e hoje já são doze. Incialmente, identidade do lugar, que nesse artigo abordei como resultado dos processos participativos e do uso melhor a mais frequente da tecnologia e da vocação, e a opcionalidade, diretamente derivada da antifragilidade, que é a criação/identificação de outros vetores de desenvolvimento econômico de um lugar, cidade ou país.
A opcionalidade é outra lição importante de 2020. Quem depositou todas as fichas até então em um único vetor pode não sair muito saudável no fim de toda essa loucura. Esse é um aprendizado para os governos municipais, a diversificação. Claro, diversificação com origem na identidade e vocação do lugar. Não precisa de um grande esforço de criatividade para imaginarmos o que aconteceu com grande parte das cidades turísticas ou majoritariamente turísticas do mundo ao longo desse ano.
Se o futuro é o incerto e frágil, a cidade antifrágil é o presente, dinâmico e adaptável, colaborativo e conjunto, físico e virtual.
Se não se pode combater os problemas do futuro com soluções do passado, é preciso estar apto a combater os problemas do presente com as soluções do presente. Isso não significa uma visão imediatista sob nenhuma hipótese, mas sim a compreensão de que o pensamento estratégico, e última instância, a visão de futuro, passam por projetar ferramentas e sistemas capazes de lidar com o hoje e toda a sua complexidade e velocidade ao invés de tentar prever o futuro, pelo simples fato do presente ser o tempo sobre o qual ainda temos algum controle, diferente do futuro, sempre mutável e incerto.
Na dúvida, aposto minhas fichas em processos gerenciais e decisórios mais compartilhados, próximos e adaptáveis. Quanto às bolas de cristal, bom, deixo-as no universo da fantasia, ainda que o dia-a-dia do nosso país esteja cada vez mais distante de uma realidade plausível.
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Quando a economia brasileira dá algum sinal de melhora, como um dólar mais baixo, por exemplo, o termo commodity volta a circular com frequência. Trata-se do nosso “eterno” tesouro. Segundo o dicionário Oxford, uma commodity é qualquer bem em estado bruto. Geralmente tem origem agropecuária, mineral ou vegetal. É produzido em larga escala mundial, com características físicas homogêneas, independentemente de sua origem, e costuma ser destinado ao comércio externo. Fora do agronegócio, usamos esse termo para definir algo sem nenhum tipo de diferenciação, algo genérico, cuja qualidade não depende da marca ou da origem.
No marketing, durante décadas, tentamos vender produtos com base em seus atributos funcionais e de performance. O sabão que limpa mais branco. O adoçante com menos gosto de corrimão de escadaria de rodoviária. Menos gordura aqui, menos sódio acolá. Essa lógica fazia algum sentido em um mundo onde as pessoas ainda não compartilhavam tecnologia. Também fazia sentido quando o acesso à informação não ocorria de forma mais ou menos igualitária entre os players do mercado. Já na década de 1950, percebemos que as decisões de compra não seguiam um padrão racional. Até então, tratávamos as marcas apenas como uma forma de agilizar o processo de escolha, reduzindo o tempo dedicado à seleção de um produto. Mesmo sabendo disso, ainda continuamos por anos nessa corrente funcional.
De produto genérico à construção de significado
Com maior relevância, desde o começo desse milênio, o branding – ou o pensamento voltado para a gestão estratégica de marca – ganha espaço, entendendo que, mais do que a racionalidade, nossa relação se dá com marcas muito mais do que com produtos. E ainda, mais recentemente, entendemos que não só não compramos marcas como na verdade, muitas vezes, o verbo comprar não se aplica. Aderimos a uma ideia representada por determinada marca e nos relacionamos em função da identificação entre nossa própria identidade e a identidade das marcas disponíveis. Passamos de compradores a cocriadores, em vez de alvos, pessoas, membros de uma comunidade.
Validando a própria identidade
Há quem diga que nos relacionamos com as marcas que validam nossa identidade e nossa personalidade, algo facilmente comprovado ao pensarmos em estereótipos como o carro do tigrão, a bolsa da perua, o tênis do descolado e como esses outros milhares de exemplos nos mais diferentes segmentos do consumo. Será que o mesmo se dá com os lugares?
A resposta simples é um sonoro SIM. Escolhemos onde morar e onde passar as férias, por exemplo, com base naquilo que somos e talvez naquilo que queremos ser na visão do outro. Essa segunda opção tem prazo de validade. Ninguém, ou pelo menos a maioria das pessoas, não está disposta a sacrificar a própria felicidade e identidade em troca de uma percepção positiva da sociedade (menos no Instagram, pois ali vale tudo).
O infindável período pandêmico nos fez repensar e ressignificar uma boa parte de nossas vidas e uma das perspectivas que tiveram especial atenção foi a nossa relação com esses lugares ao nosso redor.
A casa-mundo e o retorno à bolha
Se antes a ideia de lugar se aplicava a cidade ou bairro onde vivíamos, hoje ela certamente se estendeu ou se transferiu para dentro das nossas moradias. Nosso maior período de clausura nos fez questionar uma série de escolhas, internalizamos academia de ginástica, sala de cinema, restaurante, escritório e até a natureza. O termo biofilia, que trata da relação homem/ natureza nunca foi tão presente e ainda que seja um conceito dos anos 1980 parece ter sido cunhado em meados de 2020.
O mercado imobiliário se alvoroçou. Nada era longe demais, desconectado demais, isolado demais. De uma hora pra outra parou de existir “área ruim” e o famigerado “location, location, location” mantra maldito do segmento (pelo menos da forma como era visto/ abordado) foi pelos ares. Quem estava em centros outrora vibrantes cogitou trancar-se em um condomínio-bolha nos cafundós, quem pôde fugiu para as montanhas, para a praia, ainda que tudo não passasse de paisagem.
Se o mundo se voltou para dentro das moradias, qual o futuro das cidades?
Embora fenômenos como a desterritorialização e a desmaterialização, já abordados neste espaço, tenham se acelerado durante o isolamento, isso não significa que passamos por uma desidentificação. Continuamos, em maior ou menor grau, as mesmas pessoas que éramos quando toda essa loucura começou. Nossos valores, caráter e personalidade deveriam permanecer os mesmos, mesmo que nosso comportamento tenha mudado.
Como vimos há pouco, nos relacionamos cada vez mais com ideias ao invés de produtos ou marcas. Um lugar, cidade, bairro é, essencialmente uma ideia ou um conjunto de ideias. Vale sempre lembrar que, sob a perspectiva da geografia humana, o lugar se diferencia do espaço porque carrega significado atribuído pelas pessoas. São as pessoas que constroem o lugar e, no fim das contas, é para elas que ele existe. Afinal, o conjunto dessas pessoas é o que dá identidade ao lugar. Quanto maior for a eficiência dos lugares em comunicar esse seu significado, essa identidade, maiores as chances das pessoas que se identifiquem com ele possam fazer parte dessa comunidade, presencial ou virtualmente. Sim, um lugar é muito mais do que seu território físico – chamo essa ideia de supraterritorialidade.
A cidade-lugar e a cidade-commodity
Todas essas mudanças citadas apontam para a necessidade urgente de repensarmos os lugares. As dificuldades impostas pela pandemia nos fizeram questionar nosso próprio percurso pela cidade. A aceitação de novos comportamentos, como por exemplo, as reuniões virtuais e a popularização de compras cada vez mais cotidianas pela internet nos permitem – ou permitem aqueles que podem – uma relação mais limitada com a cidade. Se antes eu precisava sair de casa para quase tudo, agora, esse quase tudo chega até mim, de forma eficiente e muitas vezes gratuita. Se a cidade não é mais um lugar estritamente funcional, qual será sua nova função primordial?
Minha hipótese é o prazer.
Mas essa reflexão não é só uma relação entre funcionalidade x prazer endereçada à gestão municipal, que agora, além de precisar pensar as características de identidade de suas cidades, precisam propor experiências positivas e preparar seus espaços públicos para esse novo momento.
É também uma questão essencial aos empreendedores e comerciantes. Depois de mais de um ano preso no vai e vem do isolamento social, ao sair na rua, ainda desconfiado, com máscara e litros de álcool gel e andar por um centro brasileiro qualquer, eu pergunto: Quantas dessas lojas me fariam sair de casa novamente? A comoditização já era uma realidade nos produtos, cada vez mais semelhantes, agora os serviços também se tornaram, pelo menos aos desavisados, genéricos, incapazes de criar uma experiência diferente ou melhor do que a compra virtual.
Cidades-lugar ou cidades-commodity?
É preciso atenção a esse novo momento tão delicado. Não se trata mais de abrir ou fechar, se trata também do que se é capaz de oferecer e se essa oferta é capaz de ser percebida como valor.
A mesma reflexão serve as cidades: o que faria alguém sair de sua cidade para ir até outra? Provavelmente teremos cidades-lugar, com identidades bem definidas capazes de criar experiências positivas e com isso atrair turistas, moradores, talentos, e teremos as cidades-commodities, onde no máximo resolveremos aqueles problemas que, por não sermos a Estônia, ainda precisamos de órgãos públicos e da burocracia em geral, saindo de nossas bolhas fora da área urbana, dentro de nossos carros com ar-condicionado e não vendo a hora de voltar para o paraíso, ou pior ainda, viveremos em meio a elas por pura falta de opção.
Talvez, e espero estar profundamente errado, as ruas comerciais não voltem a ser as mesmas, cheias de gente, vibrantes, universos a serem descobertos. Talvez esse distanciamento tenha começado por conta de um vírus e, no final, continue por pura falta de interesse.
E você, o que quer para sua cidade?
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Em meio a tantas mudanças causadas por essa pandemia que parece não ter fim, um comportamento se destacou: a transformação da nossa relação com a moradia. E, por extensão, com a cidade.
Antes, o mercado imobiliário demonstrava quase uma obsessão pelo conceito location, location, location. Hoje, essa ideia, assim como tantas outras, foi colocada em xeque. Passamos quase um ano inteiro dentro de casa. Com a possibilidade de ficarmos ainda mais tempo, a localização da moradia perdeu parte da importância. Falo por mim. Moro há quase uma década no centro de São Paulo e sempre fui apaixonado por esse lugar. Mas, nas minhas incursões semanais pelos arredores, vejo um bairro triste, sem vida.
As ruas antes cheias agora exibem placas de aluga-se. Restaurantes fecharam. Negócios quebraram. O que antes era o coração da cidade virou uma área periférica de uma cidade do Brasil profundo. Melancolia é a palavra que define esse sentimento. Não encontro mais pessoas pelas calçadas. Não ouço mais a confusão de vozes oferecendo chips da Vivo, Tim, Claro e Oi, exatamente nessa ordem. E também, não dá mais para comer um pastel de nata na Casa Matilde. Ou comprar um vinil obscuro no Big Papa. Ou comer uma esfiha cara e maravilhosa, com a barriga encostada no balcão antigo do Almanara da Basílio.
Desterritorialização, e a pandemia
Já falei exaustivamente sobre o processo de desterritorialização que sofremos com a pandemia. Se nossa relação interpessoal se tornou virtual, a cidade, palco até então desses encontros, também se tornou virtual, embora ela não tenha percebido isso, nem os que a gerenciam. Se sempre construímos relações a partir da identificação, por muito tempo essa conexão se refletia nos lugares que habitávamos e frequentávamos. Hoje, essa identificação também ocorre no ambiente virtual, com lugares, pessoas e marcas de qualquer parte do mundo. Mesmo esse conceito de “outro lado do mundo” já foi colocado em xeque. Afinal, vivemos a aldeia global de McLuhan ou, talvez, o metaverso imaginado por Stephenson. Nos tornamos avatares nessa imensa vídeo-conferência que virou nossa vida.
Ao mesmo tempo que mudamos nossa relação com a cidade, voltamos nossa atenção, energia, e o pouco dinheiro que sobrou, quando sobrou, para a nossa moradia. Assisto com um sorriso de canto quando vejo certos influenciadores falando de biofilia como se tivessem acabado de inventar o termo. Ignoram que Edward O. Wilson já o apresentou em 1984, literalmente em outro século. Se passávamos muito pouco tempo em nossas casas, as quarentenas da vida nos fizeram nos aproximar dela, matamos a saudade do genius loci, colocamos plantas, muitas plantas, assassinamos várias, salvamos algumas, fizemos home-gym, home-theater, home-restaurant, home-shopping, homeschooling… aqueles que puderam, óbvio.
A sobrevivência do mercado imobiliário
Em meio a esse cenário caótico, outro segmento permaneceu forte além dos garden centers, o bom e velho mercado imobiliário. Contrariando as previsões mais pessimistas, inclusive a minha, esse mercado manteve seu fôlego e ainda não da sinais de cansaço. Mas afinal, se a cidade se desterritorializou, qual será a nova abordagem, o novo caminho desse mercado tão tradicional e notoriamente avesso a inovação?
Algumas obviedades se apresentaram, home offices gourmet por exemplo, sim me divirto com as invenções marqueteiras desse segmento, afinal elas são abundantes.
Mas além da necessidade de concentrar nossas necessidades e desejos em dimensões cada vez menores é preciso entender e estender a compreensão desse novo momento para muito além das unidades. Se a cidade agora é um lugar de contemplação e experiência e não mais de funcionalidade, é preciso criar conexão entre unidade e bairro, entre bairro e cidade, entre prédio e rua. Um dos aprendizados recentes é a necessidade crescente das micro centralidades, que podemos chamar de comércio e serviços de proximidade. Foram eles que nos salvaram durante os momentos mais duros. Ao entorno dessas pequenas centralidades, não só nos abastecemos como sabemos do que se passa na região, buscamos apoio, oferecemos ajuda, é ao entorno desses pequenos núcleos que a vida comunitária acontece com mais vitalidade.
Bem-estar, felicidade e significado
Se antes terrenos longínquos eram extremamente problemáticos, e a ideia de segunda moradia (aquela de veraneio, férias, fim de semana) era um segmento praticamente abandonado, agora a desterritorialização, trouxe um novo fôlego para esses empreendimentos, agora, afinal, podemos, pelo menos alguns de nós, morarmos como segunda residência e trabalharmos como primeira. Importante aqui ressaltar que embora esse processo dê nova vida a vetores de cidade até então esquecidos, a necessidade por uma vida comunitária precisa ser reforçada. Além da necessidade de criação das micro centralidades outro elemento deve ser levado em conta, o significado.
Se sempre buscamos por uma vida com significado, podemos dizer que em grande parte nossa felicidade (como sinônimo para bem-estar) depende do significado que damos as nossas vidas. Ao longo da minha trajetória no place branding, sempre imaginei que essa seria a principal colaboração da disciplina confundida comumente com marketing ou design. Afinal falamos de identidade e significado é o resultado desse alinhamento de identidades que podemos chamar de identificação.
Os novos empreendimentos pós-pandemia precisam não só olhar para os aspectos práticos e racionais da vida cotidiana, mas também, ou principalmente, para os aspectos emocionais e intangíveis, para os quais a tecnologia ainda não conseguiu grandes resultados.
Planejamento e a conexão com a sociedade
As novas comunidades planejadas devem buscar exatamente o que o seu nome propõe, ou seja, serem comunidades de fato. Agora, o que nos une enquanto comunidade, algo que na verdade sempre nos uniu mas que o excesso de ruído impedia de enxergar, é a identificação com o lugar. Essa identificação nasce da conexão com as pessoas que vivem ali. Segundo a geografia humanista, o lugar existe quando as pessoas atribuem significado ao que antes se comportava apenas como espaço, um território sem identidade.
Outro destaque vai para o uso do termo planejado. Tradicionalmente, quando pensamos em algo planejado, como os móveis de uma cozinha, pensamos em algo feito sob medida. Algo que funciona naquele lugar específico e que não pode ser transferido para outro. Por um lado, esse pensamento é absolutamente correto, afinal, cada lugar é único e sua identidade e singularidade intrasferíveis, por outro, é preciso entender que esse planejamento precisa prever uma certa informalidade, um dinamismo capaz de promover sua adaptação ao cenário incerto que se aproxima. Planejamento aqui não é a característica hermética em si, e sim, planejado para se adaptar e principalmente evoluir.
A cultura e a influência de Shakespeare nas cidades e sociedade
Comunidades planejadas devem ser lugares vibrantes, que na minha opinião, são lugares com pessoas, significado e atividade, que formam um tripé onde a ausência de qualquer um dos apoios torna a estrutura instável e inviável.
Se até pouco tempo os bairros planejados eram bolhas, agora a solução é serem cada vez mais cidade, e se cidades são pessoas como diria Shakespeare, comunidades planejadas não tem absolutamente nada a ver com território, área, terreno e sim com cultura, significado e claro, pessoas.
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