Narciso quer colocar um telão na São João com a Ipiranga

Quadro resumo:

Um vídeo falso com telões na São João com a Ipiranga viralizou, não por enganar, mas por revelar o desejo por uma cidade mais espetacular do que real. O texto questiona essa lógica e alerta para o risco de substituir a cidade vivida por uma versão pensada para quem só olha de fora.

Às vezes me arrependo de economizar 8 reais na hora de escolher a categoria de carro para chamar no aplicativo. Era fim de tarde de uma quinta-feira abafada, a marginal estava parada e abarrotada de gente louca pra meter o pé da cidade. Para quem não sabe, em São Paulo, as quintas viraram as novas sextas, que por sua vez agora são o dia semioficial de fazer home office.

O ar denso se misturava a sirenes de ambulância e buzinas de moto avisando intermitentemente “cê não é nem louco de mudar de faixa”. Mas pedir a cortesia de ligar o ar-condicionado não é uma opção quando se está na categoria econômica. Resignado, abaixei os vidros à meia altura, puxei o telefone do bolso e fui rolando os feeds esperando alguma coisa que me entretesse pelos próximos 53 minutos que o GPS prometia.

Foi quando o vídeo apareceu, já com centenas de comentários empilhados: a esquina da São João com a Ipiranga coberta de telões do topo dos prédios ao chão, um time-lapse de guindastes trabalhando para pendurar outdoors descendo pelas fachadas. Um cenário cyberpunk, impossível e deliberadamente falso. O próprio governador Tarcísio de Freitas alertara que o vídeo fora produzido por inteligência artificial, com a promessa de que “em breve, será realidade”.

Mas não vai ser. Não tem como ser. Não daquele jeito.

Até o momento em que parei para escrever, a postagem havia passado dos 21 mil comentários e 12 mil reposts. Um engajamento que revela que as pessoas continuaram fazendo o mesmo que eu: assistindo o vídeo sabendo que é falso.

Quando milhares de pessoas compartilham uma mentira que sabem ser mentira, o problema deixa de ser a mentira. Desinformação pressupõe que alguém foi enganado. Aqui, ninguém foi. O que circulou foi um desejo coletivo de acreditar numa cidade que não existe, sobreposto à que temos. Para muita gente, a sobreposição artificial parece melhor que o original.

A questão da “Times Square de São Paulo” já rendeu o suficiente para que cada um tenha escolhido seu lado.  Mas ver aquela esquina irreconhecível mudou de patamar o que estava sendo discutido. A cidade do vídeo não estava diferente do jeito que uma cidade muda quando cresce, mas do jeito que muda quando alguém decide que ela precisa ser outra coisa.

Posso dizer isso com alguma propriedade.

Como morador do centro, passo pelo cruzamento da Ipiranga com a São João com alguma frequência, é meu caminho da roça quando estou voltando para casa da zona norte. Em dias comuns, o que se vê na esquina mais famosa de São Paulo não aparece em postagem de turista: motoristas de aplicativos esperando o sinal abrir — e agora você já sabe como identificar quais são da categoria econômica —, pessoas atravessando na diagonal olhando atentamente para todos os lados porque nunca se sabe de onde pode vir a surpresa, e entregadores de bicicleta desviando de buracos na calçada que provavelmente estão ali desde antes do Boulevard São João existir como ideia.

Na esquina da São João com a Ipiranga, trabalhadores e moradores usam aquele cruzamento como qualquer outro. É exatamente para isso que ele serve para quem pertence ao centro de verdade.

Confesso que nunca dei muita bola para o valor caetanesco do lugar, nem mesmo quando vinha a São Paulo a passeio ou a trabalho sonhando em fazer da poesia concreta das esquinas daqui minha morada. Não por descuido, mas por saber de antemão que há coisas que paulistanos não fazem porque não precisam. Esses lugares existem para visitantes riscarem do checklist coisas que comprovam que conheceram São Paulo e agora têm propriedade para falar “essa cidade é uma loucura, não sei como esse povo aguenta” sem saber que, para quem mora aqui, o centro também é a padaria que serve café da manhã à meia-noite e é a indiferença no olhar de quem anda pelas ruas se reconhecendo nos próprios trejeitos.

O centro de São Paulo, assim como acontece em qualquer grande cidade, é produzido em uma trama infinita, que se acumula todos os dias e por isso mesmo não pode ser recriada. Pode ser substituída, o que é exatamente o que o vídeo propunha: não uma reforma, mas uma troca da esquina tal qual seus usuários a usam pela esquina dos que não frequentam e não vão frequentar, mas acham legal porque o projeto é moderno.

Fiquei pensando nisso pelo resto dos 53 minutos de viagem.

Quando cheguei em casa já havia escurecido por completo. Na rua, a movimentação de quinta começava a tomar as calçadas, com mesas ocupadas, gente esperando do lado de fora e o cheiro de fritura se misturando à conversa alta. O tipo de cena que eu mesmo não noto mais, porque está sempre lá.

Mas naquela noite notei. E por um segundo me peguei imaginando como minha rua ficaria com o tratamento do vídeo, com telões descendo pela fachada do meu prédio. Tratei de dissipar a cena horrível da minha cabeça, envergonhado de mim mesmo por me permitir aventar a possibilidade de uma versão da minha própria rua que nunca existiu e que, se existisse, expulsaria metade das pessoas que estavam nela naquele momento — inclusive eu, provavelmente.

O problema da mentira, mesmo quando sabemos que é uma mentira, é que o desejo que ela aciona é real.

Há uma diferença entre a cidade que existe de fato e a cidade que parece existir só para você. A esquina da São João com a Ipiranga, ou a minha rua repleta de bares com pessoas a perder de vista, existem no primeiro sentido. Mas o vídeo prometia o segundo: de que aquele lugar, renovado e transformado, vale a pena ser visto, mesmo que você nunca o frequente. Quando o real não cumpre esse contrato afetivo, o simulacro não precisa convencer ninguém. Ele só precisa preencher o vazio de quem olha de fora.

O sujeito que compartilhou o vídeo não mora no centro e provavelmente nunca vai morar. Não porque não possa, mas porque ele não quer mesmo. Ele quer a versão do centro que aparece no vídeo: limpa, espetacular e sem um barulho que parece um funk de mal gosto sendo tocado em algum boteco mal frequentado. Mas ele quer isso à distância e não está nem um pouco inclinado a pagar para ver.

Na cabeça dele, o vídeo mostra exatamente como São Paulo deveria ser, porque ele já viu isso em outros lugares, de Nova York à Tóquio, nem que seja nos filmes e no Globo Repórter. Para ele, a experiência e a imagem da experiência são a mesma coisa, porque ele não mora nem frequenta, então a única coisa que lhe resta é a opinião. Quando o governador promete que “em breve será realidade”, essa é uma promessa feita a esse sujeito.

Para quem reduz o espaço urbano a produto de consumo, a cidade que funciona mas não se espetaculariza é uma cidade que ainda não chegou lá. O que o projeto do Boulevard São João faz, acima de tudo, é dar essa promessa de chegada. Mais uma promessa, como tantas outras que se acumulam ano após ano, mandato após mandato. E que nunca chegam, porque ninguém que mora lá pediu.

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Escrito por:
EMANNUEL COSTA - Doutor em planejamento territorial, Emannuel é especialista em comportamento urbano e head de pesquisa e tendências na N/Lugares Futuros, onde pesquisa o que as cidades fazem antes de saber que estão fazendo.