Ojisan Card Game: estratégia de integração intergeracional como resposta ao envelhecimento populacional no Japão 

CAMILA KATO  11.25

O Japão possui uma das populações que mais rapidamente envelhecem no mundo, tornando-se um laboratório vivo para os desafios e oportunidades de uma sociedade em envelhecimento.

Esse ano representa um marco crítico, conhecido como o “Problema de 2025”, quando toda a geração baby boomer japonesa ultrapassará a barreira dos 75 anos, consolidando uma “sociedade super envelhecida”, onde um em cada quatro cidadãos será um “super idoso”.

Esse cenário impõe uma enorme pressão sobre sistemas de previdência social, saúde e o mercado de trabalho. No entanto, um desafio menos visível, porém igualmente crítico, é o isolamento social e a crescente dificuldade de integração da população idosa.

Diante desse cenário, como podemos pensar em estratégias para endereçar a questão de integração intergeracional?

Imagem de sr. Honda, ex-brigadista de incêndio, ao lado da carta feita em sua homenagem dentro do jogo.
FOTO: FNN

O que é Saido Men, o jogo de cartas dos “tiozões”?

Para quem nunca passou pela fase de jogos de cartas como Pokemón, imagine um jogo onde você tem cartas, e cada personagem possui fraquezas e vantagens. Você batalha contra outros jogadores, que também podem trocar cartas entre si.

Saidōsho, cidade na província de Fukuoka criou um jogo similar, mas com um toque especial. Nesse caso, os personagens são os idosos da própria cidade. O jogo ganhou o nome de Saido Men, e foi colocada em prática por uma líder do conselho comunitário local. Ela decidiu evidenciar os homens que trabalhavam como voluntários na comunidade, como uma maneira de valorizar figuras locais emblemáticas.

A cidade segue a tendência do país, de avançado envelhecimento populacional. O “gap” entre os jovens e idosos tende a ficar cada vez maior, com opções de interação cada vez menores. O “jogo dos tiozões” foi pensado a modo de integrar esses dois mundos.

A proposta é simples: transformar os homens voluntários da cidade em personagens, heróis. Cada carta apresenta um “ojisan” (palavra japonesa para “tio” ou “senhor”) com seus pontos de vida (HP) e pontos de magia (MP) baseados em suas habilidades e experiências reais. As crianças colecionam as cartas, fazem trocas e até mesmo “batalham” umas com as outras, utilizando as habilidades únicas de cada personagem.

O jogo, que inicialmente não foi concebido para ser competitivo, foi organicamente adaptado pelas crianças, que criaram um ecossistema de desafios e interações, espelhando a dinâmica de sucessos como Pokémon.

Crianças sentadas à mesa, batalhando com suas cartas do jogo, no centro comunitário.
FOTO: Saidōsho community council/ Nippon.com

Estratégia de fortalecimento do senso de pertencimento: gamificação

Nesse contexto, a gamificação se mostrou uma ótima ferramenta para derrubar as barreiras intergeracionais. Ao traduzir a identidade e o valor comunitário dos idosos para uma linguagem universal e atraente para os mais jovens, o jogo criou uma ponte.

Os resultados foram visíveis. Figuras como o Sr. Honda, 74 anos, ex-brigadista de incêndio; o Sr. Takeshita, 81 anos, mestre do macarrão Soba; e o Sr. Fuji, 68 anos, policial aposentado, tornaram-se celebridades locais. Crianças passaram a reconhecê-los nas ruas, pedir autógrafos e, o mais importante, a interagir com eles.

O jogo não apenas aproximou as gerações, mas também reforçou profundamente o sentimento de pertencimento dos idosos, que se viram valorizados e vistos como parte essencial da comunidade. Esse reconhecimento inspirou novos voluntários a se engajarem, e aumentou o número de eventos comunitários.

Sr. Fukushima, ex-maquinista de trem, segura a carta feita em sua homenagem.
FOTO: Justin McCurry/The Guardian

Integração intergeracional também é questão de saúde pública

O “Problema de 2025” vai além da economia. Isso significa que haverá um pico de demanda por serviço de saúde e cuidados. Podem ser efeitos mais claros, como o aumento de gastos com previdência social, mas também menos óbvios, como um aumento no número de pessoas que precisam abandonar seus empregos para se dedicarem ao papel de cuidadores de familiares, o que impactaria a oferta de mão de obra.

Mas, um ponto importante a ser considerado é que isolamento social e a solidão na terceira idade são questões de saúde pública. Dados de pesquisa indicam que o isolamento social crônico pode aumentar o risco de morte de forma comparável ao fumo e à obesidade, além de elevar significativamente a incidência de demência.

A saúde comunitária depende de uma integração maior e criação de rede de apoio. A sociedade japonesa tem cada vez menos filhos e costuma ter um nível maior de isolamento social, com isso a rede de apoio tende a ser menor. A recomendação é que as conexões entre famílias e a comunidade sejam fortalecidas, e que os idosos passem a participar mais de atividades comunitárias e voluntariados.

Neste contexto, a integração intergeracional deixa de ser um mero ideal social e torna-se uma estratégia importante para a sustentabilidade das sociedades. Manter os idosos conectados, ativos e como parte integrante do tecido social fortalece as redes de apoio informal, reduz a pressão sobre os sistemas de saúde e mitiga os fatores de risco associados à solidão. A saúde de uma comunidade também está relacionada ao nível de integração social.

Interação entre pessoas de diferentes gerações, em evento comunitário.
FOTO: FNN

Lições para o futuro: da gamificação à construção de sociedades mais integradas

O caso do jogo dos “tiozões” é um exemplo de estratégia de pertencimento. Ele demonstra que soluções para desafios macros, como o envelhecimento populacional, podem surgir de iniciativas micro, que redesenham as relações humanas no espaço urbano.

A líder comunitária por trás do projeto identificou uma estratégia que funciona naquele contexto. Ao criar um mecanismo que valoriza a própria comunidade, o jogo não apenas mudou a percepção das crianças sobre os idosos, mas também aumentou concretamente a participação em eventos comunitários.

O nosso Urban Trends Report fala sobre as novas formas de vivenciar ambientes urbanos, causados pela mudança demográfica e cultural do mundo. Os espaços intergeracionais são uma tendência necessária para uma sociedade saudável.

Este caso nos aponta um caminho: lugares à prova de futuro passam pela criação de espaços intergeracionais e pela adoção de ferramentas criativas, como a gamificação, para pensar sociedades saudáveis.

Em um mundo que envelhece rapidamente, promover o pertencimento não é apenas um gesto de bondade, mas um movimento essencial para construir sociedades em envelhecimento que sejam não apenas funcionais, mas vibrantes e acolhedoras para todas as idades.


Fontes: https://www.fnn.jp/articles/gallery/842101
https://www.nippon-foundation.or.jp/journal/2023/89142/health_aging
www.gooddo.jp/magazine/health/low_birthrate_and_aging/39747/
https://www.theguardian.com/world/2025/apr/27/its-done-wonders-trading-card-game-featuring-middle-aged-men-revives-japanese-town
https://www.nippon.com/en/japan-topics/g02544
https://www.tokyoweekender.com/entertainment/middle-aged-man-trading-cards-go-viral-in-japan/#67e2541dad9ce