O caso “Emilia Pérez” e a relação com senso de pertencimento e futuros das cidades.

CAMILA KATO  02.25

Diversas premiações internacionais apontaram “Emilia Pérez” como o principal rival de “Ainda Estou Aqui”. Com o tempo, o filme se transformou em um estudo de caso sobre autenticidade, representatividade, senso de pertencimento e, principalmente, sobre como não abordar a identidade de um lugar.

O longa-metragem foi inicialmente aclamado por críticos no mundo todo. No entanto, nas últimas semanas, tanto o filme quanto sua equipe se envolveram em polêmicas que geraram reações negativas, especialmente entre latino-americanos. Fernanda Torres, indicada ao Oscar de melhor atriz por “Ainda Estou Aqui”, decidiu se pronunciar. Pediu que os brasileiros respeitassem o trabalho de Karla Sofía Gáscon, protagonista de “Emilia Pérez”, que também está entre as indicadas.

Mas como uma discussão aparentemente restrita ao universo do cinema e suas premiações se relaciona diretamente com place branding e futuro das cidades? 

Emilia Pérez: um retrato controverso

Muitas vezes, obras cinematográficas são mais do que mero entretenimento, especialmente quando se propõem a contar histórias e transmitir mensagens, baseadas em memórias e ideais. Este parecia ser o caso de “Emilia Pérez”, um musical cuja trama se passa no México e conta a jornada de uma narcotraficante trans que, ao se aposentar, realiza cirurgias de afirmação de gênero e passa a buscar justiça pelos desaparecidos da violência do tráfico, da qual era participante. O enredo que, à primeira vista, aborda temas relevantes está se consolidando como um exemplo de falta de autenticidade. 

À medida que o filme foi acumulando prêmios e indicações, diversas avaliações negativas começaram a surgir sobre a profunda desconexão entre a obra e a realidade que ela tenta retratar, não só da crítica especializada, mas principalmente de espectadores latino-americanos.  

Os principais pontos de crítica

Em outras palavras, a comunidade que detém a memória dos desaparecidos, parte tão importante na história mexicana, não se reconheceram na narrativa apresentada. Dentre os principais problemas apontados sobre o filme neste sentido, destacam-se: 

  1. México, mas não no Méxic:. A equipe filmou “Emilia Pérez” nos arredores de Paris, e não em solo mexicano. A escolha se deve ao fato do próprio diretor do filme (Jacques Audiard) ser francês e preferir trabalhar com sua equipe habitual
  1. Pesquisa superficial: Audiard também é responsável por outras polêmicas. Em uma entrevista, confessou não ter dedicado muito tempo pesquisando sobre o México antes de rodar o filme, pois acreditava “já conhecer o suficiente” sobre o país. Mais recentemente, afirmou que “o espanhol é um idioma de pobres e imigrantes”
  1. México, mas sem mexicanos: Falta de mexicanos na equipe de produção e, principalmente, no elenco. Questionado sobre isso, Audiard tentou justificar a escolha de atrizes não-mexicanas por questões financeiras
  1. Diálogos não-naturais: Consequentemente, há um entendimento compartilhado entre falantes nativos de espanhol de que as nuances de fala nos diálogos entre os personagens não soam natural para os mexicanos, o que ajuda a entender porque o filme foi mais bem recebido pelo público que não fala espanhol. 
  1. Falta de sensibilidade: Uma das principais insatisfações dos mexicanos é a maneira leviana que o filme retratou os desaparecimentos relacionados ao narcotráfico, um assunto extremamente sério e sensível na história do país. Além disso, organizações LGBTQIAP+ também manifestaram críticas à maneira superficial que a realidade e a luta da comunidade trans foi retratada

A resposta da comunidade

Evidentemente, a sequência de más decisões e declarações infelizes não poderia resultar em outra coisa, senão uma profunda crítica à falta de representatividade e à maneira que o filme tratou assuntos tão sensíveis para o povo mexicano.  

Uma resposta criativa dada por eles veio na forma de um curta “Johanne Sacreblu”, que satirizou “Emilia Pérez” mostrando como seria se um grupo de mexicanos fizesse um musical sobre a França, abordando todos os estereótipos deste país sem responsabilidade e sem nenhum francês no elenco. 

Grupo de pessoas fantasiadas com roupas e maquiagens típicas da cultura francesa, acenando bandeiras da França em uma calçada, em clima festivo
Foto: Youtube Camila D. Aurora (Camiileo) 

Senso de pertencimento: o que aprender com “Emilia Pérez” para criar lugares à prova de futuro

O caso “Emilia Pérez” transcende o cinema para ilustrar uma situação que serve na mesma medida para produtores de Hollywood, gestores públicos, empreendedores imobiliários, e qualquer um que queira trabalhar com lugares e memória: as pessoas são e serão, sempre, o ponto de partida e o ponto de chegada. A comunidade precisa participar ativamente da concepção e da implementação de qualquer projeto. Como afirma Caio Esteves, em seu livro “Place Branding”: 

“No place branding a identidade se torna ainda mais importante e consideravelmente mais complexa: sem identidade não existe place branding.” (ESTEVES, 2016) 

Pensar em lugares como os autores de “Emilia Pérez” é pensar de fora para dentro, sem considerar a comunidade e seus ativos, sentimentos e percepções. É muito provável que as pessoas não se sintam parte, nem se reconheçam no projeto. Os lugares dependem de comunidades com senso de pertencimento forte para poderem estar preparados para os mais incertos futuros. 

Ao escolher diretor, elenco e equipe não-mexicanos, o projeto “Emilia Pérez” falha desde sua concepção e resulta em um filme desconectado da realidade e da memória de um povo. Embora parte da crítica americana e europeia tenha ignorado a falta de autenticidade, a comunidade latino-americana percebeu o problema. Com sua vivência da dor de não ser ouvida nem reconhecida, ela decidiu se pronunciar, tanto nas redes sociais quanto em veículos de mídia tradicional. 

Escutar, entender e pertencer

Para compreender um lugar, é preciso ouvir as pessoas do lugar. Do contrário, o resultado será sempre retratos superficiais e não-autênticos. “Emilia Pérez” é um lembrete de que participação e engajamento da comunidade sobre quem se fala não é opcional. Sem ela, não há senso de pertencimento. E sem pertencimento compartilhado, projetos e lugares são frágeis e poucos preparados para lidar com os futuros. 

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