Cidade, desterritorialização, e o futuro das comunidades planejadas.
CAIO ESTEVES 12.24
Em meio a tantas mudanças causadas por essa pandemia que parece não ter fim, um comportamento se destacou: a transformação da nossa relação com a moradia. E, por extensão, com a cidade.
Antes, o mercado imobiliário demonstrava quase uma obsessão pelo conceito location, location, location. Hoje, essa ideia, assim como tantas outras, foi colocada em xeque. Passamos quase um ano inteiro dentro de casa. Com a possibilidade de ficarmos ainda mais tempo, a localização da moradia perdeu parte da importância. Falo por mim. Moro há quase uma década no centro de São Paulo e sempre fui apaixonado por esse lugar. Mas, nas minhas incursões semanais pelos arredores, vejo um bairro triste, sem vida.
As ruas antes cheias agora exibem placas de aluga-se. Restaurantes fecharam. Negócios quebraram. O que antes era o coração da cidade virou uma área periférica de uma cidade do Brasil profundo. Melancolia é a palavra que define esse sentimento. Não encontro mais pessoas pelas calçadas. Não ouço mais a confusão de vozes oferecendo chips da Vivo, Tim, Claro e Oi, exatamente nessa ordem. E também, não dá mais para comer um pastel de nata na Casa Matilde. Ou comprar um vinil obscuro no Big Papa. Ou comer uma esfiha cara e maravilhosa, com a barriga encostada no balcão antigo do Almanara da Basílio.
Desterritorialização, e a pandemia
Já falei exaustivamente sobre o processo de desterritorialização que sofremos com a pandemia. Se nossa relação interpessoal se tornou virtual, a cidade, palco até então desses encontros, também se tornou virtual, embora ela não tenha percebido isso, nem os que a gerenciam. Se sempre construímos relações a partir da identificação, por muito tempo essa conexão se refletia nos lugares que habitávamos e frequentávamos. Hoje, essa identificação também ocorre no ambiente virtual, com lugares, pessoas e marcas de qualquer parte do mundo. Mesmo esse conceito de “outro lado do mundo” já foi colocado em xeque. Afinal, vivemos a aldeia global de McLuhan ou, talvez, o metaverso imaginado por Stephenson. Nos tornamos avatares nessa imensa vídeo-conferência que virou nossa vida.
Ao mesmo tempo que mudamos nossa relação com a cidade, voltamos nossa atenção, energia, e o pouco dinheiro que sobrou, quando sobrou, para a nossa moradia. Assisto com um sorriso de canto quando vejo certos influenciadores falando de biofilia como se tivessem acabado de inventar o termo. Ignoram que Edward O. Wilson já o apresentou em 1984, literalmente em outro século. Se passávamos muito pouco tempo em nossas casas, as quarentenas da vida nos fizeram nos aproximar dela, matamos a saudade do genius loci, colocamos plantas, muitas plantas, assassinamos várias, salvamos algumas, fizemos home-gym, home-theater, home-restaurant, home-shopping, homeschooling… aqueles que puderam, óbvio.
A sobrevivência do mercado imobiliário
Em meio a esse cenário caótico, outro segmento permaneceu forte além dos garden centers, o bom e velho mercado imobiliário. Contrariando as previsões mais pessimistas, inclusive a minha, esse mercado manteve seu fôlego e ainda não da sinais de cansaço. Mas afinal, se a cidade se desterritorializou, qual será a nova abordagem, o novo caminho desse mercado tão tradicional e notoriamente avesso a inovação?
Algumas obviedades se apresentaram, home offices gourmet por exemplo, sim me divirto com as invenções marqueteiras desse segmento, afinal elas são abundantes.
Mas além da necessidade de concentrar nossas necessidades e desejos em dimensões cada vez menores é preciso entender e estender a compreensão desse novo momento para muito além das unidades. Se a cidade agora é um lugar de contemplação e experiência e não mais de funcionalidade, é preciso criar conexão entre unidade e bairro, entre bairro e cidade, entre prédio e rua. Um dos aprendizados recentes é a necessidade crescente das micro centralidades, que podemos chamar de comércio e serviços de proximidade. Foram eles que nos salvaram durante os momentos mais duros. Ao entorno dessas pequenas centralidades, não só nos abastecemos como sabemos do que se passa na região, buscamos apoio, oferecemos ajuda, é ao entorno desses pequenos núcleos que a vida comunitária acontece com mais vitalidade.
Bem-estar, felicidade e significado
Se antes terrenos longínquos eram extremamente problemáticos, e a ideia de segunda moradia (aquela de veraneio, férias, fim de semana) era um segmento praticamente abandonado, agora a desterritorialização, trouxe um novo fôlego para esses empreendimentos, agora, afinal, podemos, pelo menos alguns de nós, morarmos como segunda residência e trabalharmos como primeira. Importante aqui ressaltar que embora esse processo dê nova vida a vetores de cidade até então esquecidos, a necessidade por uma vida comunitária precisa ser reforçada. Além da necessidade de criação das micro centralidades outro elemento deve ser levado em conta, o significado.
Se sempre buscamos por uma vida com significado, podemos dizer que em grande parte nossa felicidade (como sinônimo para bem-estar) depende do significado que damos as nossas vidas. Ao longo da minha trajetória no place branding, sempre imaginei que essa seria a principal colaboração da disciplina confundida comumente com marketing ou design. Afinal falamos de identidade e significado é o resultado desse alinhamento de identidades que podemos chamar de identificação.
Os novos empreendimentos pós-pandemia precisam não só olhar para os aspectos práticos e racionais da vida cotidiana, mas também, ou principalmente, para os aspectos emocionais e intangíveis, para os quais a tecnologia ainda não conseguiu grandes resultados.
Planejamento e a conexão com a sociedade
As novas comunidades planejadas devem buscar exatamente o que o seu nome propõe, ou seja, serem comunidades de fato. Agora, o que nos une enquanto comunidade, algo que na verdade sempre nos uniu mas que o excesso de ruído impedia de enxergar, é a identificação com o lugar. Essa identificação nasce da conexão com as pessoas que vivem ali. Segundo a geografia humanista, o lugar existe quando as pessoas atribuem significado ao que antes se comportava apenas como espaço, um território sem identidade.
Outro destaque vai para o uso do termo planejado. Tradicionalmente, quando pensamos em algo planejado, como os móveis de uma cozinha, pensamos em algo feito sob medida. Algo que funciona naquele lugar específico e que não pode ser transferido para outro. Por um lado, esse pensamento é absolutamente correto, afinal, cada lugar é único e sua identidade e singularidade intrasferíveis, por outro, é preciso entender que esse planejamento precisa prever uma certa informalidade, um dinamismo capaz de promover sua adaptação ao cenário incerto que se aproxima. Planejamento aqui não é a característica hermética em si, e sim, planejado para se adaptar e principalmente evoluir.

A cultura e a influência de Shakespeare nas cidades e sociedade
Comunidades planejadas devem ser lugares vibrantes, que na minha opinião, são lugares com pessoas, significado e atividade, que formam um tripé onde a ausência de qualquer um dos apoios torna a estrutura instável e inviável.
Se até pouco tempo os bairros planejados eram bolhas, agora a solução é serem cada vez mais cidade, e se cidades são pessoas como diria Shakespeare, comunidades planejadas não tem absolutamente nada a ver com território, área, terreno e sim com cultura, significado e claro, pessoas.
Texto Extraído do Site: O Futuro das Coisas.
Foto de Capa: Celyn Brazier
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