Dias (ainda) mais curtos, cidades (cada vez) mais longas? Ritmos urbanos, promessas anacrônicas e a disputa pelo futuro dos lugares

O tempo nas cidades passa cada vez mais rápido.

“Quem impõe um único ritmo a um lugar assina a sentença de morte da pluralidade.”

A Terra acelera e o relógio da cidade atrasa.

Dia 10 de julho foi o mais curto de 2025 até agora, 1,36ms menos do que 24 horas. Parece irrelevante, mas pelo visto, basta um soluço cronológico para chamar a atenção de cientistas e, sobretudo, do imaginário urbano: o que acontece quando o relógio atômico entra em conflito com o tempo vivido nas ruas?

“A cidade não é apenas uma organização espacial; é também uma construção temporal.”

Sim, novamente falarei do tempo, esse compositor de destinos, como já cantava Veloso, mas se até o planeta acelera, fica evidente o questionamento do tempo como linha de produção, linear e único. Já argumentei em artigo recente para o Connected Smart Cities, a existência de múltiplos relógios sobrepostos nas cidades, do mercado, da burocracia, do cuidado, da natureza, do planeta, e planejar lugares como se houvesse apenas um único e absoluto tempo é produzir uma violência invisível, porém impactante.

Cidade de 15 Minutos: promessa em ritmo único, incômodo em tempos variados

Talvez o maior exemplo de temporalidade explicita nas cidades, e o mais conhecido, seja o conceito de Carlos Moreno chamado “Cidade de 15 minutos”. O slogan é sedutor: tudo a quinze minutos de casa, a pé ou de bicicleta. Contudo, uma cidade não é metrônomo; é orquestra. O crono-urbanismo de Moreno supõe um tempo médio e universal, mas o tempo de quem?

Não é preciso muita imaginação para romper o perímetro “ideal” dos 900 segundos. A logística invisível que abastece o mercadinho do bairro continua rodando horas de caminhão; a valorização imobiliária dispara mais rápido do que a renda local com a expansão da malha de transporte público, expulsando quem garantia a vitalidade, e por que não, autenticidade.  Embora seja um crítico feroz a ideia de “qualificação = gentrificação”, é impossível negar sua existência, já vimos acontecer vezes demais para fingir que ela não está lá, a espreita, só esperando uma pequena oportunidade. Ao mesmo tempo que a concentração de trabalho, lazer, educação e moradia num raio tão curto seja quase idílica, principalmente ao pensarmos nas grandes cidades, essa forma “Kronológica” de pensar a cidade, ao invés de encurtar distâncias sociais, pode instalar um cronômetro de gentrificação.

Por que anacrônica?

Porque congela Kronós (tempo linear) acreditando que todos os demais ritmos se encaixarão. Mas o lugar também pulsa em Kairós (o instante propício) e Aiôn (a duração profunda que faz uma cultura enraizar-se). Ao impor compasso único, a cidade-relógio despreza a Singularidade do Lugar, que é a forma que trato a sobreposição de Essência, Alma e Caráter dos lugares, e envelhece rápido, pois pessoas, serviços, economia e planeta, dificilmente compartilham o mesmo relógio.

Urbanismo de “gravidade zero”: The Line

Outro exemplo de “crono-urbanismo”, mais contemporâneo e menos conhecido, provavelmente por sua origem não europeia, é o pretensioso The Line. Se a Cidade de 15 Minutos tenta comprimir o espaço, a Arábia Saudita aposta em anulá-lo. O The Line, é um imponente, e um tanto alienígena, corredor de 170 km, 500 m de altura e 200 m de largura onde nove milhões de habitantes viveriam empilhados entre dois espelhos paralelos. Nesse caso, o percurso some e o presente congela. É o chamado urbanismo de gravidade zero: comprimir o plano de solo, verticalizar funções e conectar tudo por um eixo longitudinal de alta capacidade. Na prática, isso cria um movimento diagonal (vertical + longitudinal) que pretende “achatar” tempos de acesso, como se a soma do elevador com o trem anulasse as fricções do percurso.

O efeito é pode parecer sedutor nas belas imagens e vídeos, em seu “showroom-manifesto” em Riade, na Arábia Saudita, uma experiência imersiva bastante impactante, mas podemos discutir se essa abordagem não altera mais do que a geometria, altera a temporalidade do lugar. Ao trocar rua, quarteirão e esquina por plataformas e portas de embarque, o tempo vivido (o do encontro, da pausa, do acaso) cede lugar ao tempo de transferência (espera, fila, transferência). A promessa de “cinco minutos” opera como contabilidade de cronômetro, não como experiência urbana. Ganha-se eficiência de Kronós e perde-se Kairós.

Escala e a localização

Há ainda a escala e a localização. Trata-se de uma megaestrutura em construção no noroeste saudita. Se internamente, tenta equalizar tempos; externamente, está a centenas de quilômetros dos principais polos regionais. Ou seja: por mais que comprima deslocamentos “dentro”, projeta tempos longos “fora” para cadeias de suprimento, serviços especializados, redes acadêmicas, circuitos culturais. Tudo supostamente deveria ser internalizado nessa “linha-nação” ou, ao aspirar abolir a gravidade do espaço, acabará por esbarrar na gravidade do lugar.

A narrativa temporal de “5, 15, 20 minutos” é um tempo-marca; o canteiro, o cotidiano é um tempo-mundo. Entre um e outro, mora uma pergunta central: igualar os tempos de acesso e deslocamento é o mesmo que qualificar os tempos do lugar? Se a resposta for não, e tudo me indica que seja, então o The Line nos serve não como um novo padrão universal, mas como experimento limite: mostra o que ganhamos (compacidade, baixa motorização, densidade técnica) e o que arriscamos perder (acaso, pluralidade temporal e vínculos com o lugar).

Antifragilidade temporal: quando o URBANSCANNER vira motor de foresight para lugares à prova de futuro

Antifragilidade, nos lugares, não é “aguentar o tranco”; é aprender com ele. No plano temporal, isso significa sair da obsessão por Kronós para orquestrar ritmos, acolher Kairós e Aiôn. O ponto de virada é tratar tempo como infraestrutura viva, e não como resíduo do planejamento. É aqui que a nossa tríade: Place Branding + Placemaking + Strategic Foresight se torna prática.

Enquanto a Antifragilidade temporal dá a direção (lugares que se fortalecem com eventos traumáticos), o método URBANSCANNER oferece uma lente que enxerga oito dimensões de tempos diferentes do mesmo lugar; e o Foresight cria o motor em ciclos contínuos de sentido → exploração→ decisão → experimentação → feedback.

Dimensões do Urbanscanner que analisa as dimensões dos drivers de mudança, sinais e tendências urbanas

Como isso opera, de verdade?

O Sentido (identidade e vocação): mapea conflitos de ritmos (mercado vs. comunidade; logística vs. lazer; turismo vs. cotidiano). Aqui a Singularidade do Lugar protege o que é não negociável.

A Decisão (opcionalidade): em vez de uma “solução ótima”, criar portfólios de opções temporais (janelas, turnos, usos reversíveis, redundâncias).

A Experimentação (projetos e experiências): intervenções temporais que testam novos ritmos (bibliotecas 24h, parques noturnos, mercados de madrugada).

Feedback (aprender rápido): indicadores temporais voltam ao início do ciclo, ajustando políticas e desenho.

URBANSCANNER como painel de observação dos tempos.

Voltando a santíssima Trindade da N/LF, podemos concluir que, enquanto o O Place Branding narra a polirritmia (o porquê, os símbolos, os pactos) e o Placemaking materializa ritmos (onde, quando, com quem), o Foresight garante ciclo longo (como o lugar aprende ao longo dos choques).

Ser lugar à prova de futuro não é caber em um único relógio, é governar relógios múltiplos. Quando o mundo nos rouba milissegundos, respondemos com durações que fazem sentido: não mais um tempo único para todos, mas vários tempos para que o lugar continue sendo um só.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Bibliografia

ESTEVES, Caio. Lugares Futuros: place branding, placemaking e strategic foresight para fortalecer lugares, cidades e países. Homo Urbanus, 2024.

ESTEVES, Caio. O tempo das cidades e os futuros possíveis. Connected Smart Cities, 2025.

IERS – International Earth Rotation and Reference Systems Service. Bulletin A – Earth Rotation Data. 2022.

MORENO, Carlos; ALLAM, Zaheer. “The 15-Minute City: Creating Sustainable and Inclusive Urban Environments.” Smart Cities, 2021.

O Impacto do Tecnofeudalismo no futuro das Cidades  

Corredor de um data center com inúmeras unidades de armazenamento organizadas em racks, iluminado por luzes de operação em tons verdes e azuis.

O tecnofeudalismo é um conceito que sugere que a economia digital contemporânea não é mais propriamente capitalista, mas sim um novo tipo de feudalismo, onde o poder econômico e social está concentrado nas mãos de grandes corporações de tecnologia. Nesse modelo, empresas como Apple, Meta, TikTok e X (antigo Twitter) atuam como “senhores feudais digitais”, enquanto usuários, criadores de conteúdo e até mesmo governos tornam-se “vassalos”, dependentes dessas plataformas para comunicação, trabalho e comércio.

Se essa tendência continuar sem regulação ou alternativas descentralizadas, o futuro pode ser marcado por uma nova era de dependência digital, onde poucos controlam o acesso à informação, à economia e até à própria autonomia das sociedades.

O conceito de tecnofeudalismo começou a ganhar força no final da década de 2010, mas sua formulação mais estruturada surgiu nos anos 2020. Tem suas raízes na crítica ao capitalismo digital e foi popularizado por economistas e teóricos como Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia, e Cédric Durand, economista francês.

Principais características do tecnofeudalismo: 

  1. Monopólios Digitais – Poucas corporações controlam setores inteiros da economia digital, dificultando a concorrência e estabelecendo regras próprias. 
  1. Controle sobre Infraestruturas – Diferente do capitalismo clássico, onde a posse dos meios de produção é essencial, no tecnofeudalismo, o que importa é a posse das infraestruturas digitais (redes sociais, sistemas operacionais, marketplaces, inteligência artificial). 
  1. Extração de Renda Sem Produção – Plataformas lucram não apenas vendendo produtos, mas extraindo valor dos dados e atenção dos usuários, sem necessariamente gerar bens tangíveis. 
  1. Fidelização Forçada – Como os usuários não possuem os dados nem as redes que constroem nessas plataformas, tornam-se “prisioneiros” das big techs. 

Nesse modelo algumas grandes corporações não apenas dominam mercados, mas controlam as infraestruturas digitais onde a economia e a sociedade funcionam, criando uma nova forma de dependência. As big techs operam como senhores feudais modernos porque não apenas vendem produtos, mas também possuem os “terrenos” digitais onde todos precisam operar. Diferente do capitalismo tradicional, onde empresas competem em mercados livres, as big techs cobram tributos (comissões, algoritmos pagos, extração de dados) e limitam a autonomia de empresas e usuários. 

Qual o impacto do Tecnofeudalismo no futuro das cidades?  

Pensar o tecnofeudalismo como uma realidade sistêmica em formação é essencial. Isso porquê, ele nos permite reconhecer que a crescente concentração de poder das Big Techs. Pois, não é apenas uma característica do presente, mas um modelo sistêmico que se estabelece para as próximas décadas. Diferente do capitalismo industrial, onde a produção e a concorrência entre empresas moldavam a economia, no tecnofeudalismo, o controle das infraestruturas digitais se torna a principal forma de poder. 

Se hoje essas empresas já dominam as plataformas onde transações, comunicações e até processos políticos ocorrem, seu papel tende a se expandir ainda mais, afetando profundamente a autonomia de indivíduos, governos e mercados. Nas cidades, isso se traduz em um controle crescente sobre serviços essenciais e a própria organização do espaço urbano. Desde o transporte por aplicativos e a entrega de alimentos até a segurança pública mediada por câmeras e inteligência artificial de empresas privadas, as Big Techs estão redefinindo a experiência urbana. 

Em um cenário tecnofeudal, as cidades correm o risco de se tornar grandes “feudos digitais”. Neles, a qualidade de vida, o acesso a serviços e até mesmo a circulação de pessoas passam a ser gerenciados por algoritmos opacos e plataformas privadas. Nesse contexto, a vigilância digital tende a se intensificar. A privacidade diminui. E os governos locais perdem capacidade de gerir os lugares que administram, tornando-se dependentes de soluções tecnológicas controladas por monopólios. A “cidade inteligente” prometida pode, na prática, se transformar em uma cidade sob o controle de poucos. Seus dados e interações passam a ser monetizados em benefício dos chamados “senhores” digitais.

Grupo de executivos e líderes empresariais reunidos em evento formal, vestidos com trajes sociais, posando para uma foto coletiva.
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/01/musk-e-outros-donos-de-big-techs-tiveram-lugar-de-honra-na-posse-de-donald-trump.shtml

A consolidação e os Riscos da Servidão Digital 

A proximidade entre as Big Techs e os centros de poder político é cada vez mais evidente e preocupante. A posse de Trump ilustra esse cenário com clareza. A presença destacada de líderes de grandes corporações mostrou que esses atores não atuam apenas como agentes econômicos, mas também como mediadores do poder político. Um exemplo ainda mais simbólico é a imagem do filho de Elon Musk brincando no Salão Oval, um dos maiores símbolos do poder global. Essa cena funciona como uma metáfora poderosa, pois evidencia a intimidade e o acesso sem precedentes que essas figuras conquistaram dentro das esferas de decisão mais elevadas.

Elon Musk com uma criança sobre os ombros ao lado de Donald Trump sentado à mesa no Salão Oval da Casa Branca, com bandeiras dos Estados Unidos ao fundo.
https://edition.cnn.com/2025/02/12/tech/elon-musk-x-oval-office

Redes sociais controlam o alcance da informação. Mecanismos de busca determinam quais conhecimentos se tornam mais acessíveis. Infraestruturas de computação em nuvem sustentam operações governamentais e corporativas. Esse nível de dependência nos leva a um cenário em que grandes corporações tecnológicas não apenas moldam as regras do jogo, mas também definem quais caminhos ainda serão possíveis no futuro. 

Ideia que vivemos no tecnofeudalismo

Assim, a ideia de que vivemos um tecnofeudalismo ganha cada vez mais aceitação, pois: 

  • As grandes plataformas digitais não produzem diretamente, mas vivem da renda gerada pelos usuários
  • Governos e até eleições dependem da infraestrutura dessas empresas
  • Pequenos negócios e criadores de conteúdo são forçados a seguir as regras dessas plataformas, muitas vezes sem transparência ou possibilidade de negociação. 

Se aceitarmos essa lógica como inevitável, abrimos espaço para um cenário perigoso. Nele, as relações sociais, políticas e econômicas passam a depender quase exclusivamente de plataformas privadas. Isso pode levar a uma forma de “servidão digital”, em que indivíduos e pequenos negócios ficam presos a regras arbitrárias, algoritmos opacos e condições inegociáveis. Sem alternativas reais, tornam-se reféns dessas estruturas. Assim como no feudalismo, em que a posse da terra concentrava o poder, hoje o controle das infraestruturas digitais define quem prospera e quem permanece subordinado às plataformas.

O Futuro Não Está Selado: Alternativas e Autonomia 

No entanto, a compreensão do tecnofeudalismo também nos impõe o desafio de reconhecer que o futuro não está selado.  

Existem outros caminhos possíveis, como :  

  • Fortalecimento da regulação sobre as Big Techs 
  • Descentralização da internet 
  • Incentivo a plataformas abertas e cooperativas  
  • Desenvolvimento de infraestruturas digitais públicas ou comunitárias.  

Para as cidades, isso significa buscar soluções que permitam aos governos locais e aos cidadãos retomar o controle sobre seus dados e infraestruturas digitais, promovendo a governança democrática e a participação cívica genuína. Em um cenário alternativo, a tecnologia poderia servir à autonomia dos usuários e das comunidades urbanas, e não à sua submissão a monopólios digitais. 

A questão central não é apenas entender o tecnofeudalismo como um fenômeno contemporâneo. É decidir se aceitaremos esse modelo como dominante nas próximas décadas. Reconhecer esse futuro como uma possibilidade concreta nos dá poder de resposta. Podemos questioná-lo, enfrentá-lo e propor novas arquiteturas para o digital. Arquiteturas em que a inovação tecnológica sirva à sociedade, e não a novos senhores feudais.

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Foto de capa: https://www.elsaltodiario.com/opinion/tecnofeudalismo 

O Futuro do Mercado Imobiliário 

Fachada de edifício residencial com varandas repletas de árvores e vegetação, exemplo de arquitetura verde ou floresta vertical.

Quando comecei a trabalhar com as questões urbanas, meu foco recaia nas cidades, regiões e países, objeto de estudo do dito place branding tradicional. Minha primeira consultoria, não por acaso também a primeira 100%  dedicada as marcas-lugar do país tinha esse recorte.

Foi numa aula do curso de cidades inteligentes onde compartilhava minha experiência sobre o assunto que as coisas mudaram. O curso naquele formato não existe mais, talvez pelo fato de logo no primeiro final de semana de aula (as aulas eram aos sábados e domingos, de manhã e de tarde) os professores eram, na sequência, meu amigo Caio Vassão e eu, que então falavam tudo exatamente oposto ao que o senso comum imaginava sobre cidades inteligentes.

Progressão de tempo e a relação entre os fatos

Para conectar melhor os acontecimentos da história, adicionei termos que indicam a progressão do tempo e a relação entre os fatos. Mantive as frases curtas e sem os destaques em negrito.

O fato é que o Paulo Toledo estava na primeira fila da minha aula, em um domingão paulistano típico, usando seu tradicional colete Michelin. Certamente todo mundo do mercado imobiliário que ler este texto o conhece. Logo de início, ele começou com perguntas cabeludas, típicas de alunos que querem testar o professor. Entretanto, depois de um tempo ele se acalmou e talvez tenha concluído que o dia valeria a pena.

Como resultado, nós conversamos no final da aula e o entrosamento foi imediato. Tanto que, já na semana seguinte, viajávamos juntos pelo Nordeste. Aquela viagem foi, ao mesmo tempo, uma mistura de um MBA impagável sobre o setor e um teste para ver se eu aguentava seu ritmo frenético de trabalho. Foi exatamente naquele momento que o mercado imobiliário me dragou oficialmente.

Sempre tive a iniciativa privada como uma possibilidade de atuação, bairros planejados, grandes empreendimentos tinham, a meu ver, a necessidade de se relacionar com a identidade do lugar ao invés de preocupar-se exclusivamente com o lugar do ponto de vista geográfico. Essa nova abordagem inclusive seria capaz de qualificar lugares até então pouco sedutores ao mercado. Meu primeiro projeto de place branding propriamente dito foi um enorme bairro, junto a iniciativa privada.

A fome de lenhador por novos termos (e a incapacidade de implantá-los)

Ser o “amigo esquisito do Paulo” me abriu portas para conhecer players e projetos fundamentais do mercado brasileiro. Essa posição também me proporcionou o prazer de trabalhar na maioria deles.

Após algumas “bolas fora” (que hoje rendem boas piadas internas), cheguei a uma conclusão. O mercado imobiliário rejeita a inovação na mesma medida em que deseja novidades. Consigo explicar esse aparente contrassenso facilmente. É justamente essa aversão ao novo que empurra o mercado para a última moda ou para tendências passageiras. No ramo, chamamos isso de fad ou, em bom português, modismo.

Eu mesmo senti isso na pele com o place branding e o placemaking. O mercado devorou, mastigou e cuspiu ambos em uma velocidade impressionante, sem gerar grandes transformações ou impactos. Eles serviram apenas como uma novidade passageira. O discurso soa muito mais interessante do que a implantação. Afinal, implantar dá um trabalho considerável, enquanto falar é bem mais simples.

Não foi surpresa nenhuma ver que a discussão sobre os futuros também se tornou alvo do enorme apetite do mercado. Me deparei com termos bizarros, como “futurologismo”, além do próprio uso modal do termo futuro.

Sempre tentamos, e sempre falhamos miseravelmente

Desde sempre tentamos prever o que nos aguarda adiante, desde o oráculo de Delphos, na antiguidade, passando por cartomantes, búzios, bolas de cristal, polvos adivinhos (abração para o polvo Paul) até chegarmos na inteligência artificial. O fato é que, infelizmente, nunca tivemos sucesso (me desculpe os adeptos das práticas ocultas), ou pelo menos um sucesso concreto e verificável.

Demorei um bom tempo até me entender, e aceitar, de fato como um futurista (estratégico), precisei estudar muito, escrever vários artigos, desenvolver projetos, ser colunista do que considero maior hub de futuros do país, e até escrever um livro para fazer as pazes com o termo, e principalmente, ter a sorte da companhia de grandes nomes do futurismo do Brasil nessa jornada e, claro, a validação deles com um igual.

Uso esse artigo para compartilhar alguns aprendizados desse meu último livro e dos últimos projetos, na esperança de ajudar um mercado tão tradicional quanto o imobiliário na compreensão de algo profundamente importante, algo que não pode ser levado como modismo, “os futuros”.

Sempre plural, por mais contraintuitivo que pareça.

O ponto central da discussão do futuro é que ele é plural e imprevisível por natureza, logo, vocês já entenderam o clickbait no título. Não existe UM futuro para o mercado imobiliário, porque o futuro simplesmente, por não existir ainda, não é singular e falar dele no singular é, necessariamente, falar do presente. Os futuros podem e devem ser explorados, imaginados, criados, mas nunca previstos. A esse tipo de prática/ falácia, usando o futuro como um verniz ou uma maquiagem para velhos hábitos e métodos, damos o nome de futurewashing, aquela camada do discurso para parecer contemporâneo e inovador sem se ter ideia do que isso representa ou implica. 

A abordagem dos futuros é uma forma de anteciparmos oportunidades e nos prepararmos para incertezas e criarmos um sistema que chamo de “lugares à prova de futuro”, não porque sejam herméticos e imutáveis, mas justamente pelo contrário, por estarem preparados para as mudanças (de contexto, de comportamento…).
Explorar os futuros é trabalhar num leque de possibilidades que orientam decisões estratégicas do presente. 

Como um empreendimento imobiliário que demorará, muitas vezes, cinco anos para ser lançado e dez ou quinze anos para tornar-se maduro pode ser baseado, unicamente, em pesquisas de hoje com dados de ontem? Será que ainda não aprendemos que o mundo muda velozmente ao nosso redor? 

Como tornar seu lugar mais preparado para o futuro

Estamos projetando para o amanhã ou reproduzindo nossas “certezas” de hoje? Explorar os futuros não é sobre prevê-los, é sobre: largarmos a ilusão confortável da previsibilidade.

Quanto ao mercado imobiliário, lanço a pergunta: ele está preparado para abordar os futuros com seriedade ou vai tratá-los como o modismo da vez? Você tem segurança na sua certeza sobre o futuro? Seu empreendimento está preparado para ser future-proof?

Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.

Adolescência e Redes Sociais: insights importantes sobre a série

Cena da série Adolescência em que a advogada de Jamie o confronta durante uma visita ao centro de detenção. A troca de olhares intensa expõe a gravidade do momento: um adolescente acusado de homicídio, diante das consequências reais de seus atos.

Lançada em março de 2025, a série Adolescência tem causado muito burburinho por contar a história de um jovem de 13 anos acusado de cometer um homicídio contra uma colega de classe. No Brasil, a juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, apresenta dados interessantes e estarrecedores no episódio Vanessa Cavalieri não quer prender o teu filho, no podcast Fio da Meada com Branca Viana. Basicamente, as percepções sobre as dimensões de espaços e territórios se transformaram e a pouca compreensão sobre estas novas formas de espaços ampliam a propagação de violências e acrescentam um grau de sofisticação até então desconhecido.  

Existe uma relação entre os tipos de crimes e perfis sociais, por exemplo: há algum tempo a juíza Vanessa Cavalieri recebia jovens que cometiam atos infracionais análogos a roubo, furto e tráfico de drogas, crimes para a rápida aquisição de renda e que se relacionam com a desigualdade social e o consumismo, ou seja, existia uma recepção de jovens em maior situação de vulnerabilidade social. Contudo, nos últimos anos o perfil de jovens encaminhados até a Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro se modificou, jovens de classe média, classe média alta e frequentadores de escolas de renome passaram a responder por atos violentos, como terrorismo, apologia ao nazismo, racismo e estupro de vulnerável e esses atos infracionais eram comunicados pela Interpol.

E por que a Interpol?

Os jovens organizam atos infracionais na internet através de grupos ou “panelas” (como no Discord) e armazenam as evidências na nuvem. O Google e a Meta, por exemplo, utilizam alertas para mensagens e imagens suspeitas. Assim que identificam esses conteúdos, as empresas os encaminham para a Interpol. Esse contato direto entre o sistema de inteligência das plataformas e as organizações de segurança mitiga atos violentos.

No Brasil, as empresas direcionam esses casos à Polícia Federal. Infelizmente, muitos pais desconhecem a realidade dos filhos. Eles não acessam as redes dos jovens e acreditam piamente na segurança da navegação via smartphones.

Voltando a série, os pais de Jamie acreditavam que ele estava seguro no quarto ao lado. Mas, eles estavam errados porque o filho tinha se transformado em um assassino. 

Cena da série Adolescência mostra os pais de Jamie tentando entender como o filho, até então “seguro no quarto ao lado”, pode estar envolvido em um crime tão grave.
Crédito da Imagem: GZH

O impacto das redes sociais e da internet na nova geração

Muitos ainda não compreendem como a internet e as redes sociais impactam as gerações. Essa influência molda eleições, comportamentos e as expectativas de futuro dos jovens. Como as interações transformaram as redes em “lugares” reais, as pessoas têm dificuldade de separá-las da realidade física. Além disso, os usuários burlam facilmente as restrições de idade, enquanto o funcionamento dos algoritmos levanta questionamentos éticos.

As redes sociais operam de forma oposta ao mundo real. No território físico, normas e leis protegem e limitam os indivíduos em espaços delimitados. Já o mundo virtual ignora fronteiras: qualquer um acessa o globo em segundos. Essa escala dá projeção mundial a fatos isolados e, ao contrário do mundo real, retira do usuário o controle total sobre quem acessa suas informações.

Nossos filhos realmente estão seguros dentro de casa?

As telas correspondem à uma praça cheia de desconhecidos, você acha seguro deixar seus filhos lá sem supervisão? Ou melhor, você deixaria seus filhos numa cidade que você não conhece, com pessoas que você não conhece, sem qualquer instrução prévia? É claro, as preocupações e liberdades variam de acordo com a idade. 

O grande problema é que nas redes sociais não existe um controle, em especial por parte de pais e responsáveis. Há uma dificuldade por parte da família em supervisionar as ações de seus filhos e uma facilidade dos filhos em esconder os seus acessos. 

É perceptível a dificuldade das famílias, de maneira geral, em compreender as redes sociais como lugares que afetam e direcionam as vivências de seus filhos.

A interferencia do estado no bem estar da nossa família

Em contrapartida, o Estado promulgou a Lei nº 15.100/2025. Ao restringir celulares nas escolas, o governo demonstra preocupação com o aumento da violência envolvendo menores e redes sociais.

No cenário global, Mark Zuckerberg (CEO da Meta) encerrou a checagem de fatos em janeiro. Segundo cientistas políticos, a decisão sinaliza sua aproximação com Donald Trump. Esse movimento mostra como as redes sociais servem de ferramenta política. Enquanto Zuckerberg se aproxima de Trump e Elon Musk assume um cargo no governo americano, a distância entre os EUA e a União Europeia cresce. O ponto central da discórdia é o nível de influência que as plataformas devem exercer sobre os governos.

Mediante todas as divergências entre atuação de famílias, governos e big techs, é suficiente restringir e/ou proibir os celulares das escolas? Qual é o controle que os jovens terão nas redes fora da escola? Como o que é dito nas redes, fora da escola interfere na vivência escolar? É possível agir como se as redes não interferissem nas nossas vidas? Como ficaria o trabalho sem as redes sociais?

Traçar um plano de contingência

Não podemos voltar no tempo ou ignorar a existência da internet e suas facilidades. Entretanto, precisamos entender que os perigos evoluíram. Hoje, as ameaças são muito mais sofisticadas.

Se redes sociais se transformaram em lugares presentes nas cidades, regiões e países afetando a organização social, as eleições e a socialização de crianças e adolescentes o que pode ser feito para mitigar os problemas? A União Europeia se antecipou aos problemas e em 2022 aprovou a Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act – DSA) e a Lei do Mercado Digital (Digital Markets Act – DMA) que regulam o comércio nas redes sociais e existe uma tentativa de diálogo no Brasil sobre a regulamentação das redes sociais. Infelizmente, as soluções propostas e implementadas não foram capazes de alinhar o mundo virtual com o mundo real

É possível ter maior controle sobre o que acessamos, entender ao que somos expostos em nossas redes e o funcionamento dos algoritmos que, embora filtrem uma fração de todo o tráfego, trazem consequências enormes para o mundo real. Agora imagine, se pode ser complexo para adultos adquirir esta compreensão como exigi-la de crianças e adolescentes? 

Quais são os impactos para o mundo real?

Recentemente uma menina de 8 anos foi encontrada desacordada pelo avô, de acordo com as investigações ela estava fazendo o ‘Desafio do desodorante’. Infelizmente, ela não sobreviveu. Ainda em abril, a Polícia Federal deflagrou Operação Adolescência Segura e um dos chefes dessa rede de crimes, que incluía crimes de ódio, tentativa de homicídio, maus tratos à animais e armazenamento de pornografia infantil era um adolescente de 14 anos. Estes são dois exemplos dos impactos das redes no mundo real, em especial para crianças e adolescentes! 

A percepção de que redes sociais são lugares, permite que jovens encontrem seus pares e se sintam pertencentes a grupos. Mas não impede que a ânsia por pertencer e as violências existam, elas ficam camufladas pela ingenuidade de que existe segurança no mundo virtual, que os nossos filhos estão protegidos em casa. 

Contudo, assim como na série, basta um clique para acessar um lugar repleto de possibilidades e, muitas vezes, sem qualquer supervisão, instrução ou habilidade para compreender o excesso de informações expostas nas redes. É assim que muitas crianças e adolescentes estão socializando, em completa desconexão com o mundo real. 

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