A Cidade Antifrágil
CAIO ESTEVES 12.24
Já não é notícia que o mundo tenha sofrido grandes mudanças, não necessariamente rupturas, mas certamente acelerações. Os processos em curso têm sido melhorados, e décadas passaram em meses. Entre estes processos, a desterritorialização e desmaterialização têm impactos diretos nas cidades e lugares.
Se, por um lado, vimos o trabalho transformar-se, deixando escritórios e ocupando casas, o mesmo aconteceu com as cidades com as suas ruas vazias. As nossas casas tornaram-se um escritório, e a Internet tornou-se a nossa cidade. A nossa relação utilitarista com as cidades foi alterada. Deixa de ser um cenário, para se tornar um protagonista em tempos pós normais. A tecnologia proporciona-nos quase tudo o que precisamos, incluindo a interação social, e até lá algo do domínio das cidades. Se as cidades são essencialmente o lugar de interação e oportunidade e essa interação já não se realiza no mundo físico, o que é “a cidade” agora?
Embora muitas destas questões ainda não tenham respostas objetivas, o que é claro é a necessidade das cidades se adaptarem a isto, e a novas realidades que certamente surgirão. Pouco antes disso, surge a ideia de uma cidade antifrágil. Na realidade, a ideia começou a tomar forma em meados de 2018, antes de toda esta loucura. O carácter hermético de muitas cidades e a dificuldade em lidar com as perspectivas do futuro de uma forma que não fosse pouco previsível já estavam a emergir como indicadores chave no trabalho de Placemakers.
O autor Nassim Taleb criou a ideia de antifragilidade, muito discutida durante a pandemia, no seu bestseller “Antifragile“. Ao contrário da fragilidade e como uma espécie de evolução para a resiliência, a anti-fragilidade não se extingue após um acontecimento traumático como a fragilidade, nem regressa à sua forma original, como a resiliência. Aprende com as crises e evolui. Embora pareça inalcançável no início, esse conceito já aparece na prática de algumas indústrias. A aviação comercial é, até agora, o exemplo mais notório. Depois de um acidente, a única certeza que temos é que no dia seguinte será mais seguro voar.
Mas o que é uma cidade antifrágil?
Essencialmente, uma cidade antifrágil é um organismo dinâmico, plural e adaptável. O conceito pode ser definido por uma simples equação, fundada por Caio Esteves em 2018: Identidade + Vocação x Opcionalidade
A identidade é certamente o ponto de partida, tal como no Place Branding. É necessário compreender profundamente o lugar em questão, a sua cultura e o comportamento das pessoas que o utilizam, tanto residentes como não residentes. A vocação, por sua vez, compreende o que o lugar produz e pode oferecer hoje, de uma forma tangível e intangível. Mais importante ainda, trabalha para compreender o que poderá oferecer no futuro, com base na sua identidade única.
A opcionalidade é o “novo” conceito aqui. Escrevemos entre aspas porque o termo é relativamente novo, mas a ideia é ancestral. Podemos dizer que a opcionalidade, outro termo talibiano, nada mais é do que não colocar todos os ovos num cesto, o conselho de uma avó em qualquer parte do mundo. Nesta perspectiva, olhando sempre para a sua identidade e vocação, os lugares deveriam desenvolver um número considerável de sectores de desenvolvimento económico em vez de um único, como vemos acontecer com demasiada frequência, por muito absurdo que possa parecer. Na altura da COVID-19, a falta de opcionalidade teve consequências dramáticas para vários destinos. 100% (ou perto) das cidades dependentes do turismo passaram por momentos muito delicados devido à falta de visitantes durante o encerramento, tanto a nível interno como externo.
Para além da equação original
Era evidente que os três elementos da equação original não seriam capazes de lidar com a complexidade da abordagem proposta. Tornou-se necessário criar uma nova camada de elementos dentro de cada um dos conceitos originais.

Imagem retirada do livro Antifragile Cities de Caio Esteves.
O evolucionismo do pensamento antifrágil
Através desta evolução, somos capazes de incluir elementos essenciais ao pensamento antifrágil. Embora todos sejam essenciais, neste texto gostaríamos de destacar três deles, que se têm revelado evidentes face aos acontecimentos recentes: Participação Comunitária, Vitalidade Comunitária e Supra territorialidade.
Como a cidade é feita por pessoas e para pessoas, vamos começar por aí. De um lado, a pandemia nos isolou dentro de casa. As reuniões viraram videoconferências. Do outro, nossa necessidade por um senso de comunidade, seja física ou virtual, nunca foi tão forte.
Como dizia McLuhan
Esse sentimento de vida em comum nos ajudou a enfrentar os altos e baixos da saúde mental e física ao longo do último ano. Mais do que isso, ficou evidente a composição do mundo como uma grande aldeia global. Algo que McLuhan já dizia há mais de cinquenta anos. Ao mesmo tempo, estamos a viver um paradoxo, enquanto a globalização se apresenta como imparável, assistimos ao nascimento de um novo tipo de localismo. Isto toma forma não só a nível político micro-local, lançando luz sobre a importância do conhecimento local da própria casa (país, região e cidade), bem como a sua compreensão da importância do comércio e produção locais. Esses aspectos do localismo, portanto, contribuem diretamente para a sobrevivência das comunidades em todo o mundo. Como resultado, independentemente da escala, há bastante tempo nós, enquanto pessoas, nos tornamos cada vez mais conscientes da nossa dependência da comunidade local.
À luz destes acontecimentos recentes, torna-se essencial que as cidades criem esferas amigáveis de micro-decisão. Essas esferas precisam envolver a comunidade nas escolhas que moldam seu próprio futuro. Além disso, em todo o mundo, temos visto diversos exemplos que reforçam a importância da comunidade, do seu envolvimento e da sua vitalidade. Não por acaso, os governos locais demonstraram melhor entendimento da realidade e, em certos casos, até um desempenho mais eficaz no combate à pandemia do que os governos nacionais. A nível local, as organizações estão mais próximas do problema e, portanto, da população. Quanto maior for o grau de envolvimento e compreensão, maiores serão os esforços para combater o problema em questão, criando assim sistemas de apoio eficientes a um nível com o qual as pessoas se possam relacionar.

Para além do território
Finalmente, precisamos de falar sobre algo a que chamamos supra territorialidade, que é essencialmente a ideia de que um lugar é muito mais do que o seu território. Este é outro ponto inexplorado por lugares de todo o mundo com muito raras e brilhantes excepções. Se a tecnologia se tornou a nova cidade, ou pelo menos a Internet, é imperativo pensar em cidades e lugares como indo para além das suas fronteiras físicas e dimensões. Esta não é uma abordagem esotérica; é pura evidência de um comportamento acelerado pela pandemia. Estamos a ir além do desenvolvimento de aplicações, e precisamos de gerir comunidades que não se encontram necessariamente dentro do mesmo território. Precisamos de compreender de uma vez por todas o significado das nossas cidades, e qual é a sua identidade e vocação para serem conhecidas para além do seu território.
No fim de contas, mesmo com a tecnologia moderna, a cidade antifrágil tem tudo a ver com pessoas.
Se você está pensando em como tornar seu lugar mais preparado para o futuro, com estratégia, identidade e participação real, podemos começar essa conversa. Saiba mais sobre a N/ Lugares Futuros ou entre em contato.
Texto Extraído do Site: Bloom Consulting Journal.
Foto de Capa: Caio Esteves.