
O Impacto do Tecnofeudalismo no futuro das Cidades
VICTORIA MAIA 07.25
O tecnofeudalismo é um conceito que sugere que a economia digital contemporânea não é mais propriamente capitalista, mas sim um novo tipo de feudalismo, onde o poder econômico e social está concentrado nas mãos de grandes corporações de tecnologia. Nesse modelo, empresas como Apple, Meta, TikTok e X (antigo Twitter) atuam como “senhores feudais digitais”, enquanto usuários, criadores de conteúdo e até mesmo governos tornam-se “vassalos”, dependentes dessas plataformas para comunicação, trabalho e comércio. Se essa tendência continuar sem regulação ou alternativas descentralizadas, o futuro pode ser marcado por uma nova era de dependência digital, onde poucos controlam o acesso à informação, à economia e até à própria autonomia das sociedades.
O conceito de tecnofeudalismo começou a ganhar força no final da década de 2010, mas sua formulação mais estruturada surgiu nos anos 2020. Tem suas raízes na crítica ao capitalismo digital e foi popularizado por economistas e teóricos como Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia, e Cédric Durand, economista francês.
Principais características do tecnofeudalismo:
- Monopólios Digitais – Poucas corporações controlam setores inteiros da economia digital, dificultando a concorrência e estabelecendo regras próprias.
- Controle sobre Infraestruturas – Diferente do capitalismo clássico, onde a posse dos meios de produção é essencial, no tecnofeudalismo, o que importa é a posse das infraestruturas digitais (redes sociais, sistemas operacionais, marketplaces, inteligência artificial).
- Extração de Renda Sem Produção – Plataformas lucram não apenas vendendo produtos, mas extraindo valor dos dados e atenção dos usuários, sem necessariamente gerar bens tangíveis.
- Fidelização Forçada – Como os usuários não possuem os dados nem as redes que constroem nessas plataformas, tornam-se “prisioneiros” das big techs.
Nesse modelo algumas grandes corporações não apenas dominam mercados, mas controlam as infraestruturas digitais onde a economia e a sociedade funcionam, criando uma nova forma de dependência. As big techs operam como senhores feudais modernos porque não apenas vendem produtos, mas também possuem os “terrenos” digitais onde todos precisam operar. Diferente do capitalismo tradicional, onde empresas competem em mercados livres, as big techs cobram tributos (comissões, algoritmos pagos, extração de dados) e limitam a autonomia de empresas e usuários.
Qual o impacto do Tecnofeudalismo no futuro das cidades?
Pensar o tecnofeudalismo como uma realidade sistêmica em formação é essencial porque nos permite reconhecer que a crescente concentração de poder das Big Techs não é apenas uma característica do presente, mas um modelo sistêmico que se estabelece para as próximas décadas. Diferente do capitalismo industrial, onde a produção e a concorrência entre empresas moldavam a economia, no tecnofeudalismo, o controle das infraestruturas digitais se torna a principal forma de poder.
Se hoje essas empresas já dominam as plataformas onde transações, comunicações e até processos políticos ocorrem, seu papel tende a se expandir ainda mais, afetando profundamente a autonomia de indivíduos, governos e mercados. Nas cidades, isso se traduz em um controle crescente sobre serviços essenciais e a própria organização do espaço urbano. Desde o transporte por aplicativos e a entrega de alimentos até a segurança pública mediada por câmeras e inteligência artificial de empresas privadas, as Big Techs estão redefinindo a experiência urbana.
Em um cenário tecnofeudal, as cidades podem se tornar grandes “feudos digitais”, onde a qualidade de vida, o acesso a serviços e até mesmo a circulação de pessoas são cada vez mais gerenciados por algoritmos opacos e plataformas privadas. A vigilância digital pode se intensificar, a privacidade diminuir e a capacidade dos governos locais de gerir seus próprios espaços pode ser comprometida pela dependência de soluções tecnológicas de monopólios. A “cidade inteligente” prometida pode, na prática, ser uma cidade sob o controle de poucos, com seus dados e interações monetizadas em benefício dos “senhores” digitais.

A consolidação e os Riscos da Servidão Digital
A proximidade entre as Big Techs e os centros de poder político é cada vez mais evidente e preocupante. A posse de Trump, com a presença destacada de líderes dessas corporações, é um exemplo notório de como esses atores não são apenas agentes econômicos, mas também se tornam mediadores do poder político. Indo além, a imagem do filho de Elon Musk brincando no Salão Oval, um símbolo do poder global, serve como uma metáfora impactante: ela sublinha a intimidade e o acesso sem precedentes que essas figuras têm às esferas de decisão mais elevadas.

Redes sociais controlam o alcance da informação, mecanismos de busca determinam quais conhecimentos são mais acessíveis, e infraestruturas de computação em nuvem sustentam operações governamentais e corporativas. Esse grau de dependência nos aproxima de um cenário em que as grandes corporações tecnológicas não apenas moldam as regras do jogo, mas definem os próprios caminhos possíveis para o futuro.
Assim, a ideia de que vivemos um tecnofeudalismo ganha cada vez mais aceitação, pois:
- As grandes plataformas digitais não produzem diretamente, mas vivem da renda gerada pelos usuários.
- Governos e até eleições dependem da infraestrutura dessas empresas.
- Pequenos negócios e criadores de conteúdo são forçados a seguir as regras dessas plataformas, muitas vezes sem transparência ou possibilidade de negociação.
Se aceitarmos essa lógica como inevitável, o risco é que avancemos para um cenário onde as relações sociais, políticas e econômicas sejam intermediadas quase exclusivamente por essas plataformas privadas. Esse modelo pode resultar em uma “servidão digital”, onde indivíduos e pequenos negócios são forçados a seguir regras arbitrárias, algoritmos opacos e condições de uso inegociáveis, sem alternativas reais. Assim como no feudalismo histórico, onde a posse da terra garantia o poder dos senhores feudais, hoje o controle das infraestruturas digitais determina quem prospera e quem se torna refém das plataformas.
O Futuro Não Está Selado: Alternativas e Autonomia
No entanto, a compreensão do tecnofeudalismo também nos impõe o desafio de reconhecer que o futuro não está selado.
Existem outros caminhos possíveis, como :
- Fortalecimento da regulação sobre as Big Techs
- Descentralização da internet
- Incentivo a plataformas abertas e cooperativas
- Desenvolvimento de infraestruturas digitais públicas ou comunitárias.
Para as cidades, isso significa buscar soluções que permitam aos governos locais e aos cidadãos retomar o controle sobre seus dados e infraestruturas digitais, promovendo a governança democrática e a participação cívica genuína. Em um cenário alternativo, a tecnologia poderia servir à autonomia dos usuários e das comunidades urbanas, e não à sua submissão a monopólios digitais.
A questão central, portanto, não é apenas compreender o tecnofeudalismo como um fenômeno contemporâneo, mas decidir se esse será o modelo predominante para as próximas décadas. Reconhecer esse futuro como uma possibilidade concreta nos dá a chance de questioná-lo, enfrentá-lo e propor novas arquiteturas para o digital, onde a inovação tecnológica esteja a serviço da sociedade – e não de novos senhores feudais.
Foto de capa: https://www.elsaltodiario.com/opinion/tecnofeudalismo